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quarta-feira, 7 de junho de 2017

O Primeiro Contato Imediato de Quase Terceiro Grau

Enquanto estava ali sentado na sala vermelha, com sofás vermelhos e almofadas vermelhas, escutando o som relaxante que tocava no aparelho de som, observava o tempo escorrendo lentamente numa ampulheta imaginária. A mente divagava entre nervos semi-alertas, que mantinham meus sentidos aguçados, na quase expectativa da chegada de alguém.

Uma serra cortava ao longe; restos de uma obra insistente e inconvenientemente atravessando a tarde do sábado.

Sempre achei que ninguém deveria trabalhar aos sábados. Apesar do absurdo social, que faria tudo utopicamente parar, agradavam-me ideais semelhantes, pela possibilidade do sossego sempre bem-vindo.

O silêncio e a quietude sempre me fizeram prestar maior atenção em mim mesmo, nas sensações corporais, movimento da respiração etc. Às vezes sento e simplesmente observo-me, sem julgamentos; outras vezes uma inquietação fútil e sem sentido tortura-me, até que resolvo jogar para o alto qualquer suposta explicação que a justifique, retornando lentamente à agradável calma de sempre.

Foi numa dessas vezes que, sentado na velha poltrona vermelha de sempre, algo realmente inusitado aconteceu.

Eram mais ou menos umas dezesseis horas, quando senti o ar da sala resfriar repentinamente. Não foi uma leve oscilação na temperatura; ela deve ter despencado uns quatro graus em segundos. Pelo menos, foi esta a sensação térmica que tive. Como nunca passara por situação semelhante antes, olhei ao redor procurando algo que justificasse a mudança de temperatura, mesmo sabendo de antemão, que a sala estava exatamente como sempre estivera.

Do lado de fora, embora o tempo estivesse meio parado, repentinamente, as plantas começaram a agitarem-se, como se um vento descesse exatamente sobre elas.

Abri a porta e, para minha surpresa, não havia nenhum sinal de vento, embora elas continuassem se mexendo.

Olhei para cima e o céu estava limpo e azul, apenas isso. As plantas continuavam a sacolejar sem motivo aparente. Achei o fenômeno extremamente curioso. Então, voltei para dentro e, sentado novamente no sofá vermelho, fiquei observando-as em seu ballet sobrenatural, para ver no que isso daria.

Em determinado momento, percebi que o ar oscilou lentamente na minha frente, como ao tocarmos na superfície da água. E a oscilação continuou, somente que, agora, deslocava-se pela sala, até parar diante da porta de entrada da casa, que dá para a área externa e, posteriormente, para a rua.

No mesmo instante, senti um arrepio eriçar os pelos dos braços e nuca; sabia que não estava sozinho ali.

Fiquei olhando para a oscilação, já bastante tenso, quando pude escutar claramente, como se alguém falasse através de um equipamento de alta-fidelidade sonora. Só não tinha mesmo certeza se escutava de fato, ou se a coisa toda estava acontecendo dentro de minha cabeça; como sabê-lo?

- Não tenha medo. Não lhe faremos mal.


No mesmo instante, todo o nervosismo simplesmente desapareceu, como por encanto. Eu estava tão tranquilo, como se nada de anormal estivesse de fato acontecendo. Mas estava.

Logo em seguida, voltaram a falar.

- Temos percebido teu interesse em nós, já há algum tempo e, esperamos até o momento que estivesse mais preparado, para apresentarmo-nos diante ti… Compreendemos teus questionamentos neste momento e, respondendo-te da forma mais adequadamente possível, diante de teu conhecimento atual, afirmamos que somos teus irmãos de outros lugares do cosmo.

Apesar da revelação, confesso que não fiquei tão surpreso, dentro das devidas proporções, como julguei que poderia ficar, quando achei que isso acontecesse. Sempre li bastante sobre o assunto e não era de fato algo fora de meu conhecimento. Acredito mesmo, que senti até certa satisfação.

Eles retomaram.

- Neste primeiro encontro não nos apresentaremos visivelmente. Há necessidade de certo preparo para que consigas manter a calma, sem que precisemos intervir em teu sistema nervoso, como fazemos agora… Voltaremos a contatar-te muito em breve. Procure evitar alimentação pesada, optando por uma alimentação baseada exclusivamente em vegetais e frutas… Fique em paz.

No mesmo instante, a oscilação desapareceu e as plantas deixaram de sacudirem-se. Sentia-me calmo e, até mesmo, alegre com o acontecimento surpreendente.

Saí novamente ao jardim e olhei para o céu outra vez, esperando apenas ver o mesmo céu azul de antes, mas havia um pequeno ponto ovalado há muitos quilômetros de altura, quase imperceptível, pelo menos para mim, que uso óculos. Ele ficou ali, parado por alguns segundos e, depois, disparou velozmente em direção às montanhas, até sumir de vista.

Então ouvi a campainha tocar. Era meu aluno que acabara de chegar. Entrei para dar aula.


quinta-feira, 18 de maio de 2017

Câncer e Conchas


Há muito tempo que passo o início do outono na casa de praia. Na verdade, foi a única coisa que me sobrou, depois que, há alguns anos descobri que tinha câncer e, como aquela velha história de que algo ruim nunca vem sozinho, fui demitido e deixei de fazer parte do quadro de funcionários da maior empresa de telecomunicações do país.

O tempo passou e acabei torrando tudo de minha conta bancária, em duas fases de tratamento quimioterápico entremeadas por uma maldita metástase. O apartamento foi-se em seguida, para poder pagar os remédios. Então, simplesmente desisti. Numa manhã de quarta-feira, peguei algumas roupas e me mandei da cidade, dos amigos e inimigos, da minha lanchonete preferida, que ficava na esquina... Me mandei daquela vida. Faziam mais ou menos uns seis meses que morava exclusivamente aqui, na casa de praia. Saía muito pouco, apenas para comprar algum mantimento. Ficava a maior parte do dia aqui, sentado, olhando o mar.

Emagreci bastante. Acho que perdi uns quinze quilos. Não importa.

Foi num dia desses, como qualquer outro, que acabei adormecendo na cadeira de balanço, sem sequer perceber o cair da noite. A brisa fresca era um alento e ajudava a aliviar as dores. Às vezes era bem difícil, apesar da morfina e da cannabis, que ajudavam à aliviar um pouco. Nestas horas era muito difícil conciliar o sono, pois a dor diminuía, mas quase nunca ia embora totalmente. Então, tinha mesmo que aproveitar qualquer oportunidade de trégua, para desligar-me desse mundo. 

Foi numa dessas vezes que ela apareceu.

Acordei e já era noite. Pensei ter ouvido alguém falar comigo. Um destes ecos ressonando na memória de lembranças de tempos que já tinham sido esquecidos e que voltam como fantasmas a reclamar a atenção, com medo de se perderem numa eternidade sem fim.

Ainda estava sob o efeito do sono, os olhos meio secos e levei algum tempo, antes de percebê-la parada nos primeiros degraus da escada, observando-me na quase penumbra, com um suave sorriso.

Tentei falar alguma coisa, mas a voz não saiu por conta de um pigarro cretino. Pigarreei e perguntei finalmente, totalmente desconfortável com a visita inesperada. Eu não recebia visitas; eu não gostava de receber visitas.

- O que você quer?
- Eu vim te buscar. - Ela disse.

Minha mente estava confusa e demorarei a concatenar as ideias, quando, finalmente, a ficha caiu.

- Mas quem é você? O que você quer?
- Eu já disse: vim te buscar.
- Mas quem diabos é você?
- E isso importa?
-  Mas é claro que importa! Então, eu acordo com uma mulher, que eu nunca vi na vida, me olhando, tomo um susto, ela me pergunta algo que não faz o menor sentido... Quer dizer, acho que disse... e ainda tenho que encarar isso como uma coisa normal?
- Eu sempre venho.

Ela tinha feições de menina, usava uma roupa estranha, como se fosse um vestido de escamas brilhantes, que cintilavam as cores do arco-íris.

Quando dei por mim, já havia levantado e caminhava a seu lado pela areia da praia.

- Preciso entender tudo isso, balbuciei.
-  Você está morrendo. - Disse-me ela. - Escutei o lamento e a revolta em teu coração. Então, resolvi que era hora de vir.
- Você, por acaso, é a morte?
- Não. A morte é bem diferente de mim. À vi poucas vezes.

Achei aquilo tudo ridículo e tive vontade de expulsá-la, mas não consegui. Havia algo de muito mais importante naquele momento e que eu não sabia dizer ou entender realmente o que era.

- Então, quem é você?
- A última amiga que te sobrou, depois que você afastou todos os outros.
- Mas eu nem te conheço.
- Não importa agora, não é mesmo?

Pensei por uns instantes. Era mesmo. Não importava. De certa forma, até estava apreciando aquele momento de realidade desalinhada.
Caminhamos pela areia sob a luz da lua, em silêncio, então; apenas apreciando a companhia um do outro.
E esta é a última lembrança que eu tenho, de quando ainda era humano.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

O Menino Triste


Por Alexander Zimmer

Neste domingo de manhã, eu vi um menininho em frente de minha casa. Enquanto outras crianças brincavam, ele estava triste e sentado num canto. Cheguei perto e sentei do seu lado.

Respeitei seu silêncio por um instante e depois perguntei porque ele estava triste. Ele pensou um pouco, talvez se deveria falar ou não, até que balbuciou que, na noite anterior tinha sido a festa de 15 anos de uma amiga que ele não via há algum tempo, pois mudara de colégio; mas eles se falavam de vez em quando.

Esperei ele continuar, mas ele não continuou. Então resolvi perguntar qual o problema; se tinha acontecido alguma coisa de ruim com ele na festa. Foi aí, que sua resposta me fez entender, no mesmo instante, o que ele realmente estava sentido.

- Eu não fui convidado. Um monte de gente foi, mas ela não me convidou.

E então, percebi que lágrimas escorriam de seus olhinhos e lavavam seu pequeno rostinho. Pensei por um instante e, colocando-me em seu lugar, senti-me do mesmo jeito que ele estava se sentindo. Olhei, então, para aquele menininho encolhido do meu lado e, chegando mais perto o abracei, dizendo:

- Está tudo bem. Às vezes, as pessoas esquecem dos amigos, mas não é porque são pessoas más; elas só ainda não sabem a importância que pessoas como nós, dão aqueles que amamos. E isso acontece, porque elas ainda não sabem o que é o amor de verdade; elas ainda estão aprendendo.
- Mas eu estou muito triste, por causa disso. - Ele disse.
- Eu entendo. Eu também fico triste, às vezes. Mas tento entendê-las. Afinal, elas precisam mais de amor do que a gente, pois a gente sabe a importância de cada pessoa que passa por nossas vidas; nós nos preocupamos em fazê-las felizes, pois isso nos deixa felizes também.
- É... Acho que sim. Nunca tinha pensado nisso. - Ele balbuciou.
- Então... Um dia, elas vão aprender a dar importância às pequenas coisas e, percebendo que é através delas que demonstramos o carinho que temos pelos outros, elas vão passar a tomar mais cuidado em não esquecer os amigos... Você parece ser um bom garoto. Não deixe que essa mágoa faça você perder a fé nas pessoas. Elas também estão aprendendo sobre a vida, assim como a gente. Perdoe-as e siga em frente, sendo sempre bom e carinhoso com elas, porque você está no caminho certo. Quem sabe, elas não aprendem mais fácil, de tanto observarem que você não desiste de ser uma pessoa boa e amorosa?
- Será? - Disse-me ele, já limpando as lágrimas do rosto.
- Sim, claro! Afinal, o caminho certo é sempre o caminho do bem, o caminho do amor e da compreensão.

Ele pensou durante algum tempo, enquanto olhava para o vazio. De repente, seu rosto se iluminou e ele abriu um sorriso, voltando-se para mim.

- Obrigado, moço. Vou fazer o que o senhor disse. Tchau!

Então, ele saiu correndo em direção às outras crianças, que brincavam na esquina da rua.

Levantei-me e, olhando para o azul infinito e profundo do céu daquela manhã de domingo, senti-me feliz, pois, naquele exato instante, tive a plena certeza de que nunca houve qualquer distância entre cada um de nós e o Universo. Tudo nunca fez tanto sentido, como naquele pequeno momento.


segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Crônicas de Luz & Trevas - O Contrato - Parte Final


Anne chegou ao Conselho de Vidas e aguardou ser chamada, o que não demorou muito. Uma senhora usando um longo sarau fez sinal para que Ela a acompanhasse. As duas atravessaram um pequeno corredor semitranslúcido, cujo através das paredes se podiam ver vultos brancos de outros habitantes realizando suas tarefas, fossem quais fossem.

Saíram num salão maior onde, através de um projetor holográfico alguém era examinado. Sobre uma mesa que parecia muito confortável estava uma mulher, ou melhor, um espírito de mulher que parecia muito cansado e sofrido. Parou para observar, pois achou aquilo tudo realmente impressionante. A tecnologia devia ser dezenas de anos à frente da tecnologia dos encarnados. 

A senhora de sarau parou, assim que percebeu que Anne deixara de segui-la, para observar o trabalho no salão. Voltando em sua direção, sorriu muito amorosamente.

- É realmente maravilhoso, não é?
- Sim… É espetacular. Se existisse esta tecnologia na Terra, tudo seria mais fácil. As doenças poderiam ser tratadas antes mesmo de desenvolverem-se e provocarem tanto sofrimento.
- Sim. E verdade. Mas um dia ela chegará para os encarnados; tudo a seu tempo.
- Quem é esta pessoa que está deitada? Pelo que vejo no holograma, parece que ela tem um problema grave na região da barriga.
- Observaste bem, Anne. Essa é Rosana. Ela acabou de ser resgatada; fez o translado a poucas horas e não precisou ficar muito tempo nas regiões umbralinas, pois apesar dos conflitos de atitudes a que está sujeito todo espírito encarnado, ela não foi uma má pessoa e muito se sacrificou para que as pessoas ao seu redor tivessem uma vida relativamente confortável, muito embora não fosse uma pessoa de vida abastada. Ela está passando por uma análise preliminar, antes de ser levada ao devido tratamento de recuperação. Como bem observou, ela teve complicações intestinais, que acabaram por levá-la ao momento crucial.
- Mas as pessoas não tem um momento certo para o translado? Essa doença…
- Sim. A doença foi uma consequência de certos excessos muito comuns aos encarnados, mas nada sem exageros que a comprometessem; foram exageros ligados a costumes do cotidiano, mas que ela desconhecia as consequências, por ser muito comum.
- Entendo. Coisas que a gente faz como normais, mas que nos afetam sem que tenhamos conhecimento de que isso é prejudicial, não é?
- Exatamente. Esta é uma questão de conhecimento científico que promova uma mudança de hábitos. No entanto, tudo isso tem seu tempo. Podemos seguir?
- Sim, claro.

Ambas seguiram então para a outra extremidade da sala, atravessando um portal e entrando em outro ambiente, onde um jovem senhor a recebeu com um sorriso carinhoso.

- Seja bem-vinda, Anne. Já faz algum tempo que espero tua vinda. Meu nome é Asclépios.
- Obrigado. Desculpe pela demora.
- Oh, querida! Não precisa se desculpar. Compreendo perfeitamente. Todos nós precisamos de um tempo para entender e tirar nossas próprias conclusões.
- Então o senhor já sabe porque estou aqui, não é?
- Sim, Anne.  Apesar de feliz por tua decisão, devo adverti-la que este tempo longo fora do corpo teve algumas consequências, sobretudo pela condição em que ele se encontra.
- Como assim? Aconteceu alguma coisa de grave com meu corpo?
- Não, querida. Ele está em perfeito estado. No entanto, ele encontra-se numa condição muito peculiar e teremos que tomar algumas medidas fora do comum, para que teu retorno não seja tão doloroso.
- Não sei se compreendo…
- Já te explico. Venha até aqui comigo. Te mostrarei através deste monitor remoto, onde ele se encontra e em que situação, para que fique mais fácil a tua compreensão do caso em questão.

Anne se aproximou de um painel que parecia ser uma continuidade da parede. Assim que Asclépios tocou a superfície do painel, algumas luzes suaves acenderam-se ao seu toque. No mesmo instante uma imagem enorme tomou forma no ar, diante de seus olhos. Uma cápsula enorme como um sarcófago, no entanto era de metal e cheia de conexões, tubos, um pequeno painel digital e uma janela de vidro, onde ela pôde vislumbrar seu próprio corpo em profundo sono.

- Asclépios, o que é isso? Onde está meu corpo? Lembro de uns últimos momentos em Shambala, junto aos monges… Onde ele está? Eles o levaram para a caverna dos Antigos?
- Não, Anne. Seu corpo não está em Shambala. Apesar de todo o conhecimento e experiência de Shambala, eles não perceberam que você ainda vivia, porém num âmbito muito sutil, tanto que a aparência era de que seu corpo estava morto. Diante desta situação, Helena tomou todas as providências para que você fosse sepultada de acordo com os costumes ocidentais, mesmo que o solo do Tibet seja extremamente rochoso.
- Eles me enterraram? - Disse Anne um pouco atônita.
- Sim, mas teu corpo não permaneceu lá por muito tempo. Os militares que você enfrentou, depositaram um localizador sobre tua pele e, assim que teus sinais vitais começaram a recobrar a normalidade, o pequeno aparato tecnológico começou a emitir um sinal, que acabou por levá-los até a recente sepultura. Eles então resgataram teu corpo e o colocaram nesta câmara de hibernação criogênica. Neste momento, teu corpo está em poder destes militares, numa base secreta.
- Mas eu posso voltar, não posso?
- Sim. No entanto, como havia te dito, estamos tomando algumas providências para que o processo não seja tão doloroso para ti, porém, você sentirá alguma dor no retorno, por conta do congelamento.
- O que exatamente vocês estão fazendo?
- Estamos usando o entrelaçamento quântico para mudar a distribuição energética da câmara, o que fará com que a frequência vibratória elétrica mude drasticamente, desconfigurando os nanotransistores da câmara, incapacitando-a de continuar funcionando. Isso fará com que o degelo seja mais rápido, por conta da inversão de polaridade. No entanto, você ainda sentirá os efeitos da criogenia, por conta de alguns resíduos restantes.

Anne suspirou profundamente e tentou imaginar o que faria, assim que retomasse o controle do próprio corpo. Sempre foi resistente à dor, não seria isso que a impediria. O problema era a tal base secreta. Como sairia dali, pensou.

- Não se preocupe com isso, Anne. - Disse Asclépios, lendo seus pensamentos. Nós faremos de tudo para te ajudar. Porém, não podemos interferir demais, pois este é o teu caminho e é você quem precisa tomar as decisões e as atitudes.
- Tudo bem. Não adianta eu ficar planejando muito agora. Preciso estar lá, para ver como as coisas estão. Lá, eu dou o meu jeito.
- Muito bem. Vamos nos preparar?
- Sim.
- Então venha, minha querida.

Asclépius conduziu Anne até uma mesa, onde a menina deitou-se confortavelmente. Ele acionou alguns mecanismos no painel e, logo, uma suave bruma foi se formando ao redor de Anne. Algumas cores pareciam bailar no interior da bruma, como se ela tivesse vida própria. Uma forte luz brilhou acima da mesa e um vórtice de energia se formou no ar. Anne sentiu-se tontear e achou que fosse ficar enjoada, mas a sensação, apesar de um tanto repressora, não era de todo desagradável.

O vórtice ganhou força e velocidade e Anne, como que levada pela leveza da bruma, foi suspensa no ar. Em seguida, seu corpo começou a tornar-se translúcido, até que só restassem apenas linhas de energia sutil, que foram sugadas pelo vórtice. Imediatamente tudo parou, como se nada tivesse acontecido na sala.

A mesa estava vazia.

Anne se fora.

Fim do primeiro interlúdio.

=> Acompanhe a trajetória de Anne Blind no primeiro e no segundo volume das Crônicas de Luz & Trevas:
- Anne Blind entre Luz & Trevas (à venda na Amazon.com)
- Anne Blind e a Herança Secreta. (Breve...)


segunda-feira, 29 de agosto de 2016

O Meu Deserto


Todos tem o seu deserto.

No meu deserto está a ansiedade e a impaciência, que minha ignorância expira de cada inspiração plantada pelos sonhos e a vontade insaciável de ser alguém melhor.

No meu deserto está minha estupidez, que perambula entre as dunas do esquecimento de tantas vidas sufocadas de erros e salvas por alguns acertos.

No meu deserto estou eu mesmo, horas tentando fugir de mim próprio, horas tentando encontrar-me por trás de minhas montanhas de dores, insatisfações e reclamações idiotas.

Todos tem um deserto.

E no meu deserto está a morte. Inefável personagem que anda me rondando, reservando-me surpresas e sorrindo sedutora, como a passagem para um jardim quase irresistível.

No meu deserto há um espelho, que reflete de volta toda minha vaidade agonizante, enquanto posso finalmente sorrir a liberdade que só o desapego sincero poderia ofertar-me, enquanto mato lentamente o ego senil.


segunda-feira, 25 de julho de 2016

Crônicas de Luz & Trevas - O Contrato - Parte 10


Sentada numa espreguiçadeira, Cláudia olhava o céu translúcido, onde, por instantes, podia ver além do que a capacidade humana alcançava. Achava maravilhoso poder ver, mas a habilidade ia e vinha e nunca durava muito tempo. Ficou imaginando o que seria preciso, para que pudesse manter a visão ou, pelo menos, controlá-la. Foi neste momento que, sem que percebesse, escutou a voz amiga e carinhosa a seu lado. Era Fabiano.

- Quando estiver mais acostumada com a realidade de sua imortalidade, isso será muito fácil.
- Ah!… Oi, Fabiano. Isso é outra coisa que ainda não me acostumei.
- É. No início é até mesmo um pouco embaraçoso.
- É. É isso mesmo. Sei lá! As pessoas lendo a mente da gente o tempo todo…
- Não é o tempo todo, Cláudia. No momento, sou responsável pelo teu monitoramento, para que se recupere da forma mais adequada e para tirar tuas dúvidas no que me for possível. Assim que estiveres recuperada, tua privacidade será respeitada e ninguém invadirá tua mente e teus pensamentos estarão seguros.
- Ainda bem. Acho que não confio mundo na minha mente; posso pensar algumas besteiras, mesmo sem querer.
- Está tudo bem. Isso também é normal. Você vai aprender a focar mais. Aliás, vai aprender muitas coisas e outras tantas, você irá relembrar, pois já aprendeu em outras oportunidades na erraticidade.
- Erraticidade?!
- Sim. Os períodos entre uma e outra reencarnações.
- Hum… Sabe, apesar de vocês me tratarem muito bem e eu estar me sentindo cada vez melhor, de vez em quando ainda tenho crises onde sinto muita dor no estômago e sinto como se estivesse perdendo a razão, pois minha mente fica muito confusa e eu sinto algum desespero…
- E é exatamente nestes momentos que viemos para te ajudar. Veja bem, você ainda está se recuperando e o que fez foi muito grave. Vamos amenizar o máximo possível tudo isso que você sente, mas algum incômodo permanecerá, pois só poderá ser completamente sanado através de um descenso para um corpo material.
- E quando eu terei que voltar para a Terra novamente?
- Esta resposta, eu não tenho, Cláudia. Desculpe-me. Essa é uma determinação que vem de altas esferas, quando for oportuno e só nos resta aguardar pacientemente, enquanto estudamos e fazemos de tudo para nos melhorarmos. Assim, nosso retorno tem mais chances de sucesso.
- Acho que eu entendo…

 Cláudia voltou a olhar para o céu, pensando no que Fabiano acabara de lhe dizer. Quanto tempo será que levaria? - Pensava. Então lembrou-se de algo.

-Fabiano..
- Sim.
- E a menina que me salvou? A… Anne? Gostaria muito de vê-la novamente. Sabe… Para agradecê-la.
- Ela esteve aqui algumas vezes, enquanto você estava em repouso recuperador. Talvez ela ainda passe aqui, antes de partir.
- Partir? Ela vai embora?
- Sim. Ela deve retornar a seu corpo.
- Como assim? Ela não está morta?
- Não. Anne é um caso especial. É difícil explicar sobre isso, pois é um caso raríssimo, para não dizer quase que único.
- Você está me deixando muito curiosa a respeito.
- Veja bem… Estamos passando por um momento muito peculiar neste ponto da galáxia e Anne é um espírito chave, pois ela pode influenciar em todo este processo de forma a que tudo aconteça bem, sem grandes tormentas ou pode arrastar-nos por mais um ou dois séculos de dores e sofrimento, o que oneraria consideravelmente todos os servidores da Luz.
- Mas então, por que colocar toda esta responsabilidade nas costas de uma menina? Isso não me parece justo.
- A justiça é muito relativa, quando olhamos com nossas débeis capacidades de abarcar os planos do Alto. Confesso que, se pudéssemos, optaríamos por um caminho diferente. No entanto, a vontade superior parece ter outros planos e não compreendemos ainda qual a real importância de Anne nisso tudo, mas parece que é muito maior do que qualquer um de nós possa realmente imaginar.
- Nossa! Coitada dela. Nem sei o que dizer. Me sinto tão pequena diante de meus próprios problemas que, mal consigo imaginar o que isso deve ser para ela. Que ela possa ter muita ajuda. Ela foi muito legal comigo… Se eu pudesse fazer qualquer coisa para ajudá-la, não pensaria duas vezes.

Fabiano sorriu sereno e, suspirando suavemente, olhou para o horizonte translúcido de cores fabulosas.

Continua...

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Neil Gaiman - "Faça Boa Arte!"


Em 2012, Neil “Sandman” Gaiman fez um belo discurso para os formandos da Universidade de Artes da Filadélfia, que logo foi postado na internet e se espalhou, inspirando muitos jovens artistas.

Os conceitos de arte, sonhos, bravura e a luta que os artistas devem travar, segundo Gaiman, devem sempre ser inspirados pelo objetivo de fazer “boa arte”.

Assista ao discurso de Gaiman legendado.



O MAUSOLÉU


   O sol já não está tão quente. A distância não é tão grande, mas eu também não tenho pressa. Vou andando e percebendo os detalhes, sem necessariamente observá-los diretamente. É apenas ir confirmando tudo que sempre é como é. As mesmas pessoas, os mesmos afazeres, as mesmas vidas repetitivas, como engrenagens de uma gigantesca máquina aparentemente sem sentido, mas que continua funcionando, funcionando, funcionando sem parar. Algumas engrenagens quebram, mas, apesar da comoção, não devem ter grande significação, pois logo tudo volta ao normal, como se a grande máquina se adaptasse.
   A subida é sempre mais dura e, apesar da ausência de pressa, ainda assim, preciso me esforçar um pouco mais. Mesmo andando devagar, posso sentir a poeira entrando pelas minhas narinas e pela minha boca. É uma sensação desagradável o arranhar seco na garganta. 
   Paro um pouco para tossir. Maldita bronquite.
   Há uma brisa muito suave; uma pequena vantagem de se estar subindo.
   Observo mais uma vez o céu de profundo azul. Algumas nuvens soltas surgem no horizonte.
   Preciso continuar subindo. Então retomo a lenta caminhada. Pé ante pé.
   A brisa atenua um pouco a incômoda sensação de falta de ar.
   As casas vão rareando, à medida que subo.
  Alguns passarinhos de fim de tarde pululam entre galhos de algumas árvores na beira da estrada poeirenta. Talvez estejam questionando a razão do caminhante humano; talvez se perguntem o que há por trás da estranha calma; talvez não questionem nada e nem mesmo dão qualquer importância ao ente andante.
    A curva antes do fim é logo ali. Já começo a ver o topo dos portões que vão surgindo aos poucos. A curva parece o trecho mais íngreme e preciso fazer mais esforço para continuar no mesmo ritmo. Ou talvez seja alguma forma de resistência inconsciente; um último grito silencioso da consciência. Na verdade, não importa.
   Antes de abrir um dos portões, volto-me e dou mais uma olhada para a cidade lá embaixo. Uma tentativa de ver diferente, o que sempre foi o mesmo. Talvez pudesse ver agora, algo que me escapou por todos estes anos. Não. Nada. A mesma vista panorâmica de sempre.
   Suspiro entediado.
  Volto-me novamente, abro o portão e entro no cemitério. Vou andando pelas ruelas mal calçadas. Mas, também, quem se importaria com isso? Os residentes não se importam com nada.
  Lápides, cruzes, fotos amarelecidas, datas esquecidas... Ecos silenciosos de um passado qualquer nas entranhas imperscrutáveis do tempo.
   Já posso ver o mausoléu. Ninguém nunca vai lá.
   O sol está descendo.
   Chego à porta, tiro a velha chave do bolso e, colocando-a na fechadura, giro-a com dificuldade, até ouvir as engrenagens ruidosas e enferrujadas culminarem num estalo pesado e surdo. Empurro a porta que reclama, mas abre.
   Entro sem olhar para trás.
   Fecho a porta apoiando as costas no metal frio e centenário. Sou como a porta; sinto-me igualmente engolido por centenas de anos, que não tenho. Ou talvez tenha.
  O sol entra pelas grades das pequenas janelas, marcando e deslizando pelas paredes mórbidas do tempo.
   Fico um tempo ali, olhando o facho de sol.
  Dou alguns passos e deito-me sobre o túmulo de pedra no meio da sala. Despeço-me definitivamente da verticalidade, sem qualquer delicadeza verbal ou intencional.
   O sol toca meu rosto e deixo o brilho ofuscar-me nos seus últimos instantes.
   A escuridão se aproxima.
   Uma lágrima silenciosa e vazia desde de meu olho. Nada sinto e já não sei se penso sequer.
   Vai ficando escura e fria a pequena sala.
  Fecho finalmente os olhos e, quando a penumbra também se despede, restando apenas a total escuridão, tudo para. Não há mais tempo; não há mais espaço. E, finalmente, nada mais importa.
   Encerro, então, o derradeiro ato. Esqueço quem sou. Não há mais razão. Não há desejo. Apenas o nada.
   Sem dor, sem temor e sem desespero, simplesmente interrompo-me e abandono o ar que já não me serve.

Fim.

domingo, 24 de abril de 2016

Crônicas de Luz & Trevas - O Contrato - Parte 9


Tudo parecia tão tranquilo. O aglomerado de nuvens dava a sensação de quietude e, para qualquer um recém-chegado era exatamente este o efeito esperado por quem projetara toda aquela estrutura genial. Como deve ter sido difícil! – Pensou Anne. Não conseguia nem imaginar todo o processo.
Estava tão distraída que não percebeu a aproximação de Miguel, até que este se recostasse ao parapeito da varanda, exatamente a seu lado.

- Lindo, não é?
- Sim.
- Eu estava aqui, quando fizeram tudo.
- Ainda não me acostumei com essa coisa de telepatia. Confesso que, às vezes, tenho essa sensação estranha de ter sido invadida.
- Perdão. Há muito tempo estamos acostumados a compartilhar ideias e sentimentos, que nos deixamos levar pela naturalidade e esquecemos de respeitar os que ainda supervalorizam a privacidade ilusória.
- É difícil se acostumar a compartilhar com todos e o tempo todo, algo tão particular.
- Sim. Por isso mesmo, perdoe-me pela falta de sensibilidade.
- Está tudo bem. Qualquer hora eu acostumo.
- Acho que vai demorar um pouco, Anne.
- É. Pode ser.
- Para isso, a pessoa precisaria permanecer aqui.

Anne olhou para Miguel, entendendo imediatamente a indireta. Miguel, por sua vez, permaneceu contemplando a paisagem nebulosa.

- Estou sendo convidada a me retirar?
- Não é bem assim. Não é uma decisão de ninguém, mas sim uma necessidade natural.
- Miguel, você sabe que não aprecio rodeios...
- Anne, você está viva e precisa voltar. Não há outra alternativa. É preferível que você volte por escolha própria, pois assim será menos doloroso.
- Eu preciso de um tempo para...
- Essa é a questão; não há mais tempo. Há urgência em teu regresso, ou teu corpo entrará em colapso. Há uma missão programada e ele não resistirá muito tempo no estado de inércia, sem a presença de sua alma junto a si. Você tem que voltar!
- Mas...
- Anne, tudo que você tem feito aqui tem ajudado bastante e isso é louvável. Achei até engraçada a forma como lidou com meu irmão Lúcifer, mas por mais que todos façamos aqui trabalhos similares e integrantes deste tipo, ainda não é teu momento de estar aqui e sequer assumir este tipo de trabalho. Há uma tarefa pela metade na Terra; uma tarefa que você precisa realizar. Foi o combinado; se lembra?
- Mas eu achei que tivesse fracassado...
- Não há de fato fracasso real; ainda mais quando há vida no corpo físico.
- Não sei o que fazer, Miguel. E se retornasse continuaria sem saber que rumo tomar.
- Nós te ajudaremos no teu retorno. E sobre tua tarefa... Bom, mesmo sendo uma tarefa, de certo ponto de vista, hercúlea, ainda assim, você sempre teve amparo. Ou você pensa que é todo mundo que encontra facilmente com tantos avatares em projeção astral? Isso só acontece contigo, porque você tem uma missão especial e precisa de suporte espiritual condizente com a dificuldade do que tem a realizar. Você continuará tendo esse suporte. Volte aos estudos, quando estiver de volta à Terra. Não se antecipe. Há muito o que aprender em Shamballa. Apesar de o tempo urgir, ainda é possível que você se dedique aos estudos e se prepare melhor para o que virá.
- Kraemer?
- Sim. Mas apesar de ele ser uma peça fundamental em todo este processo, ajudando que a balança possa pender para o lado certo, no caso de você conseguir realizar parte de tua tarefa, há algo muito maior por trás e que vai precisar que vocês estejam realmente de acordo com o esperado, para que tudo caminhe como o planejamento superior.

Anne pensou um pouco e deu um longo suspiro.

- Está bem. Eu vou voltar.

Miguel sorriu para ela, pousando a mão em seu ombro.

- Nós estaremos com você, na medida que nos for permitido.
- Eu agradeço, Miguel. Sinto que vou precisar muito.

Continua...

sábado, 26 de março de 2016

Crônicas de Luz & Trevas – O Contrato – Parte 8


  De uma hora para outra toda a paisagem mudou. Toda a turbulência infernal se transformou numa quietude sepulcral.
  Anne andava sem perder a atenção. Lúcifer estava a seu lado e desistira de continuar tentando entabular uma conversa; ficou claro que ela não diria qualquer coisa, quando depois de algum tempo simplesmente pareceu ignorar os assuntos triviais que ele soltava no ar, um após outro. Ela limitava-se a comentários e perguntas pertinentes a direção correta.
  Assim, atravessaram a entrada de um belo prédio, em meio aos escombros ao redor. Parecia que houvera sido construído há pouco tempo, muito embora destoasse completamente do devastado ambiente circundante.
  Subiram uma escada rolante e logo estavam diante de uma enorme porta de vidro.
  Anne olhou para Lúcifer, que percebeu que ela esperava maiores explicações.

- Hm... O que esperava? Um caldeirão? Ele é muito útil! Sua determinação e entrega lhe fazem um grande profissional. E se tem uma coisa que eu sou, é sensato. Tenho ótimo faro para talentos humanos.
- O que ele faz aqui?
- Ora, o que mais? Trabalha para mim. Administrar este maldito lugar não é nada fácil. E já que não tenho outra alternativa à não ser continuar responsável por isso tudo, nada mais lógico do que me aproveitar de espíritos talentosos como ele.
- Então o pagamento do pacto que fez com ele é trabalhar eternamente para você?
- De certa forma, sim. Nós dois sabemos bem que esse papo de eternidade só serve para nós como espíritos diante da existência, mas que tudo mais é temporário. Ele ficará aqui até perceber que não precisa mais disso e que pode galgar novo degrau evolutivo, tomando simplesmente a decisão de fazer o bem. Enquanto isso, ele vai se purificando e sofrendo as dores de ter cometido tantos abusos em vida, como é próprio de todo egoísta. E, no mais, convenhamos, ele não precisa saber de redenção agora, não é?
- Lúcifer, acho que você vai ter que buscar outro administrador para colocar no lugar dele, pois tenho outros planos para Rogério. Como já disse, ele não deveria estar aqui e teu contrato não vale nada, além de uma simples pressão psicológica na mente ignorante. Dessa vez você escolheu muito mal.
- Olha, escute aqui...
- Escute aqui você, anjo! Ele vai comigo e ponto final.
- Não se esqueça que você é apenas uma mortal, Anne; prisioneira de um corpo carnal.
- Mortal? Pelo que sei, sou tão apenas espírito quanto você.
- Eu sou um anjo, querida.
- Não passa de um espírito mais velho e teimoso, que não quer ver a Verdade embaixo do próprio nariz. Até quando você vai ficar nadando contra a corrente, Lúcifer? O universo foi criado para evoluir sempre. Não vê que teu esforço não serve de nada?
- Toda essa tua segurança é muito interessante e também muito ingênua, querida. Você acha que estou nessa posição porque quero? Estou aqui porque todo o restante prefere posar de anjinhos por aí, do que colocar a mão na massa e se dedicar ao trabalho duro de ajudar todos estes espíritos, temporariamente desgraçados, a despertarem por si próprios. Esta aqui é a parte mais difícil; dar a chance para que através de seus próprios pecados e do sofrimento decorrente destes, se arrependam de verdade e resolvam se melhorarem de coração. Você acha que eu gosto desta paisagem devastada e de ficar escutando gemidos e lamentações? Eu sou um anjo! Fui criado para criar e admirar coisas belas, não esta paisagem devastada e horrível. Não fui eu quem criou e continua criando isto tudo. Os autores destes vales monstruosos são as mentes humanas de espíritos com ideias distorcidas por egoísmo e lascívia. Esse “mundo” é resultado dessas mentes doentias e cabe a mim administrá-lo, de forma que sirva para o propósito evolutivo.
- Mas você se diverte com isso.
- Claro! Você acha que eu deveria ficar eternamente contrariado por receber esta missão? Se é para fazer o trabalho sujo, que pelo menos possamos nos divertir com isso. Como vocês mesmo dizem na Terra, “Está no inferno? Abraça o capeta!” Mas o tempo dessas paragens está chegando ao fim. Mudanças se aproximam e a Terra precisa evoluir também. E você tem importante papel nisso tudo. Todo mundo sabe disso nos diversos mundos paralelos.
- Lá vem esse papo de novo. Parece que até você está nessa dança, né? Eu morri, Lúcifer! Não posso mais fazer nada; se é que realmente pude algum dia. Portanto, esse papo já era; vão ter que arrumar outro pra Cristo.
- Morreu? Há! Há! Há! Ora, vejam só! Toda sabichona e, no entanto, não consegue nem perceber o próprio estado.
- O que você quer dizer com isso?
- Anne Blind, você está mais encarnada do que imagina.
- Mas do que você está falando? Eu morri! Fui atingida mortalmente numa luta contra meu pai.
- Não. Não mesmo. Teu corpo está em coma, em animação suspensa num laboratório de um órgão secreto brasileiro.
- O que?
- Isso mesmo. Você está aqui deste lado porque quer – ou deveria dizer, porque não sabe como sair? Vários meses já passaram desde que essa luta aconteceu e bem já poderias ter retornado ao corpo, se assim desejasse. Mas como desejar algo que depende de um fato que se ignora?

  Anne fora pega de surpresa. Agora, estava pensativa. Se tudo aquilo era verdade, então o jogo seguia em frente e ela estava perdendo tempo. Era preciso voltar.

- Vou levar Rogério comigo e, depois, averiguar toda essa história.
- OK. Vou liberá-lo para você, mas você vai ficar me devendo uma.
- Como é que é? Agora vai querer jogar essa historinha de contrato pra cima de mim?
- Não, querida. Você compreende bem como as coisas funcionam. Eu estaria insultado tua inteligência, se assim agisse. Só estou dizendo que gostaria de ter retribuído esse favor, quando precisar. No mais, você poderá recusar, se assim lhe aprouver. Embora, eu acredite que não recusará.
- Veremos, Lúcifer. Veremos.

  Lúcifer foi até Rogério, que trabalhava atrás de uma enorme mesa de escritório.

- Muito bem, Rogério. Parece que terei de dispensá-lo de teus serviços. Alguém veio buscar-te.
- Mas... Para onde vai me levar?
- Desconheço. Mas acredito que para um lugar muito mais agradável.

  Rogério levantou-se e Lúcifer o conduziu até Anne.

- Oi, Rogério. Eu sou Anne e vim para te conduzir até uma colônia espiritual mais elevada, onde será devidamente tratado e instruído.
- Não sei o que dizer...
- Não precisa dizer nada. Logo tudo será esclarecido. Vamos.

  Rogério acompanhou Anne e, depois de alguns passos, os dois tornaram-se translúcidos e luminosos, partindo em disparada pelo céu sombrio, tal qual flecha de luz.

Continua...

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Crônicas de Luz & Trevas – O Contrato – Parte 7


  Uma tormenta apocalíptica tomava tudo ao seu redor, mas ainda assim, Anne caminhava determinada.
    Seres observavam por entre escombros, enquanto a bruma furiosa e incandescente atravessava toda a região em ruínas à toda velocidade, transformando o lugar no mais perfeito retrato do inferno.
   Olhar afiado, Anne seguia em frente. Subitamente tudo parou, como se o tempo congelasse. Anne olhou ao redor e deu com um homem muito bem vestido e sorridente.

- Olá, Anne Blind. O que te traz a meu reino?
- Quem é você?
- Tenho muitos nomes, mas...
- Deixe de palhaçada e diga logo teu nome.
- Oh! Mas quanta agressividade! Este não é nem de longe o comportamento que se espera de uma visita.
- Não estou te visitando e este não é teu reino, porque ele não existe; é apenas uma ilusão criada por formas pensamento de todos os espíritos ignorantes e desequilibrados. Então, vê se desce do palco e diga logo teu nome.
- Está bem. Eu sou a Estrela Matutina.
- Vênus?
- É. Apesar de a mitologia romana me ver como um arquétipo feminino, prefiro a figura masculina.
- E o que você tem a ver com esse lugar, afinal? Essa condição parece mais o inferno.
- Confesso que te subestimei, Anne Blind. Acreditei que manter a velha imagem dantesca impressionaria mais. No entanto, você é bem mais esperta do que imaginei, apesar de não supor o óbvio. Estrela Matutina, Vênus, A Primeira Estrela, o Primeiro Anjo...
- Lúcifer.
- Oh! Finalmente, querida. Mas refiro Lux.
- Olha aqui, não quero papo contigo.
- Ora, se não quer papo comigo, o que está fazendo aqui?
- Quero a última vítima de teus contratos infames; ele devia estar aqui.
- Contratos são contratos e devem ser respeitados.
- Uma invenção tua e sem qualquer valor real. Você os faz acreditar que te devem algo e você se diverte com este consentimento ridículo e enganoso.
- Mas, mesmo assim, um consentimento.
- Bom, já disse que não quero papo contigo. Se você não vai me dizer onde ele está, vou achar sozinha.
- Aqui quem manda sou eu, menina. E você não passa de uma mortal, cujo corpo está metido numa geladeira por aí.
- Aqui sou tão imortal quanto você, anjinho. Agora, saia da minha frente e não me amole.

    Anne o empurra com o ombro, tirando-o de seu caminho, à medida que continua andando.

- Ei! Isso foi extremamente grosseiro! Acho que terei que comer o teu fígado, por isso.

   Anne volta-se rapidamente, segurando o pescoço de Lúcifer com uma das mãos e, jogando-o no chão, pressiona-o contra o solo, sem soltar seu pescoço. Os olhos d a menina brilham num fulgor vermelho intenso.

- Já disse: se não vai me ajudar, então saia do meu caminho, anjo.

Lúcifer engasgou por algum momento sob a pressão da mão de Anne, mas em seguida começou a rir. Anne surpreendeu-se.

- Bravo! Bravo! Maravilha! OK! OK! Não fique brava. Há muito tempo que não sou dado a batalhas. Tudo bem. O que há de importante nesse carinha, pra você se dar a todo esse trabalho?
- Não te interessam anjo.
- Ah, deixa disso, vai! Será que dá pra me soltar? Não está nada confortável essa posição. Confesso que prefiro posições mais sensuais.

   Anne dá um suspiro. Seus olhos voltam ao normal e ela o solta.

- Ah! Bem melhor assim. E então? Vai me contar ou não?
- Não. E você vai me dizer onde ele está ou não?
- Se eu não te disser, você vai continuar procurando, não é?

   Anne consentiu com a cabeça.

- OK! OK! Vou te levar até ele. Mas vou lamentar muito; foi a melhor alma dos últimos tempos.
- Espírito.
- O que?
- Espírito. Alma é quando está num corpo. Fora de um é só um espírito. Para ser alma tem que ser de algum corpo.
- Ah, sim... Vocês mortais e sua apreciação por definições etc., etc...

   Os dois foram andando e a paisagem voltou a se agitar atrás deles.

   Continua...

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Crônicas de Luz & Trevas - O Contrato - Parte 6


  Apesar do frio intenso do alto inverno europeu, as ruas estavam anormalmente movimentadas. Os transeuntes circulavam para todos os lados. São Petersburgo estava de fato movimentada demais para o clima que abatia-se sobre a cidade.
  Insuspeitadamente, abaixo daquilo tudo e completamente alheio ao que acontecia acima, um silêncio sepulcral ambientava a estranha cena no velho porão.
  Sobre uma mesa de pedram imóvel, estava uma jovem nos seus quinze anos - talvez dezesseis – completamente nua. Seu corpo coberto de símbolos mágicos escritos com sangue.
  Sentado numa extremidade, com um semblante entre carrancudo e preocupado estava o velho mago.
Subitamente, suaves batidas na porta seguindo certo ritmo.
  O mago levantou-se abrindo a porta para que um jovem entrasse. O rapaz tinha no máximo dezoito anos. Ele cumprimentou o velho.

- E então, Ivan?
- Estou pronto, mestre.
- Percebo certa apreensão. Não se preocupe; jamais poderia confiar a outro tal tarefa.
- Obrigado, mestre.
- Vamos. Ela já está preparada.

  Ainda um pouco exitante, Ivan despiu-se e aproximou-se da menina, subiu na mesa e deitou-se sobre ela, iniciando a cópula.
  O semblante da menina contorceu-se um pouco, voltando novamente à quietude e impávida expressão.
  Ivan aumentou o ritmo dos movimentos, até que estancou repentinamente, deixando escapar um gemido, enquanto seu corpo estremecia ligeiramente.
  Rapidamente desceu da mesa e, enquanto se afastava e voltava a vestir-se, estranha névoa começou a se formar num dos lados, até tornar-se intensa e tempestuosa. De seu centro surgiu um homem muito bem vestido.

- Sede bem-vindo, mestre.
- Mago... Vejo que cumpriste tua parte.
- Sim, mestre, como combinado. Aí está minha filha, em troca da revogação de nosso contrato.

  O homem sorriu, enquanto admirava a jovem sobre a mesa.
  Erguendo a destra, o homem fez um gesto rápido, como se agarrasse algo invisível no ar com a mão e puxasse em sua direção.
  O corpo da menina estremeceu e, num espasmo violento, liberou um reflexo de si mesmo em estado vaporoso e suavemente iluminado, que contorcia-se e lutava para não ser levado em direção ao homem. No entanto, o esforço era inútil e logo a entidade vaporosa fora consumida pelo corpo do homem.

- E como sempre cumpro minhas promessas, nosso contrato está revogado; tua alma não mais me pertence.
- Grato, mestre.
- No entanto... – Disse o homem, já desenhando um sorriso de escárnio nos lábios – Devo informar-te, mago, que já não tens muito tempo de vida.
- Mas, mestre?! Se o contrato foi suspenso...
- Sim. Realmente foi. Porém, segundo regra áurea antiga, “A cada um segundo suas obras.”. Toda magia, toda manipulação, toda maldade que engendraste e colocaste em movimento para a satisfação de teus caprichos, de tua vaidade, de teu egocentrismo, te cobram agora um preço. Tu plantaste a semente de teu macabro vinhedo e, agora, terás de sorver o amargo vinho de tua colheita. Teu espírito, já completamente intoxicado pela deformação moral de teu caráter, buscou a única saída possível para purgar parte dessa tremenda agonia; desenvolveste um câncer, que já corrói boa parte de teus orgãos. Logo estarás baixando ao túmulo.
- Mas, mestre, que preciso fazer para curar-me? Um novo contrato?
- Infelizmente, nada posso fazer. Além do mais, não preciso de um novo contrato. Com o aspecto que teu espírito adquiriu, não imaginas qual o tipo de vibração que possuis? Assim que a vida abandonar este corpo decrépito, para onde pensas que teu espírito será atraído, senão para local de igual frequência vibratória?

  O semblante do mago adquiriu rapidamente o reflexo do desespero que tomara-lhe a alma diante da inesperada revelação.

- Tu me enganaste!
- Eu? Oh, não! Claro que não, velho mago! Nada fiz. Tu és o próprio responsável por tua insanidade e ignorância. Eu apenas cumpri minha parte no acordo. Teu estado deplorável é obra tua. Culpa-te a ti mesmo.

  O velho sentiu seus joelhos enfraquecerem e caiu de joelhos diante da verdade indiscutível que acabara de ouvir. Sentia-se devastado. Hora era a vergonha, hora era o ódio de si mesmo.

- Até breve, mago. Logo nos encontraremos no teu desgraçado destino além túmulo.

 O mago não teve forças nem para levantar os olhos para o mestre, enquanto este desaparecia juntamente com a sombria névoa que o envolveu.
  O jovem discípulo aproximou-se de seu velho mestre, colocando a mão em seu ombro.

- Mestre...
- Saia daqui, Ivan. Deixe-me só. – disse o exaurido e velho mago, sem nem mesmo voltar-se para Ivan, que saiu da sala visivelmente entristecido pelo destino que estava reservado para seu mestre.
Assim que a grande porta fechou-se atrás de Ivan, num baque surdo e metálico, o mago entregou-se á dolorosas lágrimas.

Continua...

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Crônicas de Luz & Trevas - O Contrato - Parte 5


A paisagem sobrenatural não lhe parecia mais tão estranha, desde que começou sua balada solitária. Ainda tinha dúvidas a respeito de muitas coisas e não estava absolutamente certa se fizera a melhor escolha. O fato é que, por enquanto, não queria tomar partido. Gostava imensamente de Helena, mas não se sentia adequada às altas vibrações de Shambala. Tomara decisões duvidosas e tivera atitudes questionáveis que a colocaram na situação em que estava agora. Poderia mudar tudo isso se quisesse, afinal fora sua própria escolha, mas não era uma questão de poder e sim de sentir-se merecedora. Além do mais, sentia-se no dever de ajeitar as coisas de seu próprio modo, mesmo que isso lhe custasse algum sofrimento extra. Afinal, saberia lidar com as consequências.
Sentiu a aproximação de alguém e no mesmo instante identificou Gabriel, que colocou-se a seu lado no vislumbre da citada paisagem.

- Linda, não é?
- O que?
- Toda essa vida efervecente e mutante do Plano Astral, constantemente em movimento.
- Hum... Aqui não é o Plano Astral.
- Todo lugar é o Plano Astral. O que muda é o ponto de vista do observador.
- Você entendeu o que eu disse... O Limiar ou Umbral.
- Sim, mas não retifico a informação. Ainda assim é questão de ponto de vista. O Limiar nao é um local propriamente dito; é uma condição temporária.
- Gabriel, se entrarmos num debate filosófico, a verdade é que tudo é temporário, inclusive a eternidade. Tudo é sempre um questão de ponto de vista.

Gabriel sorriu, pois sabia que as palavras de Anne traduziam a mais pura verdade. Tudo. Absolutamente tudo era temporal, mesmo o espírito imortal também estava em constante mudança.

- E então?... Por quanto tempo continuará neste personagem de paladina interdimensional?
- Personagem?... Não tinha parado para me classificar desta forma antes. É assim que você vê minha decisão?
- Mas não somos todos atores experimentando diversos personagens em inúmeáveis dramas? É como aprendemos sobre o espírito e tudo mais nessa relação transcendente.
- Não sei por quanto tempo. Ainda... Ainda não consigo assumir ou mesmo aceitar aquele outro “personagem” que vocês insistem em me apresentar.
- Entendo... No entanto, você sabe que o Universo não vai te esperar por muito tempo, não é? E, geralmente, quando isso acontece por muito tempo, Ele mesmo costuma engendrar estratagemas que te forçarão a enfrentar aquilo que tentas evitar.
- É... Sei bem como é. Mas confesso que, às vezes, isso me dá raiva. É como se não tivéssemos livre-arbítrio.
- O livre-arbítrio é para os ignorantes; aqueles que tem o conhecimento sabem que atitude e que caminho tomar, então não há de fato livre-arbítrio, mas consciência.

Anne sentiu-se envergonhada diante das palavras de Gabriel, mas não deixaria transparecer; ainda era muito orgulhosa.
Afastou-se do parapeito e voltou-se para Gabriel, colocando a mão em seu ombro.

- Sempre vou admirar você, Gabriel. Gosto muito de nossas conversas, mas preciso fazer o que sinto que devo fazer agora. Sei que é inevitável chegar às mesmas conclusões que você, mas agora estou bem longe disso e preciso acreditar no que sinto.
- Então vai continuar enfrentando e frustrando “demônios” por aí?

Anne sorriu.

- Humpf! Apesar da ironia, sim. Vou continuar fazendo o que atualmente é a única coisa que me dá alguma satisfação. Buda dizia que devemos matar o desejo, mas eu não sou Buda... ainda.

Sorrindo, Anne se afastou de Gabriel lentamente, caminhando em direção à zona tempestuosa que parecia uma tormenta à se aproximar, mas que nunca chegava. Foi distanciando-se, até que desapareceu engolida pelas brumas sombrias que cercavam aquele posto avançado às portas do Limiar. 

Continua...

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Crônicas de Luz & Trevas - O Contrato - Parte 4


   O ambiente transmitia uma paz secular. O silêncio acentuado pela madrugada enchia de respeito ainda maior o enorme salão abobadado repleto de afrescos barrocos, que combinavam perfeitamente com o belíssimo e delicado painel, cuja pintura cobria quase todo o teto da igreja.
   Àquela hora da madrugada, a igreja estava vazia, a não ser pela única alma humana sentada solitária em um dos enormes bancos.
   Subitamente, o silêncio foi quebrado pelo som de passos que se aproximavam muito calmamente.    Um indivíduo impecavelmente vestido aproximou-se de Rogério e sentou-se no banco imediatamente atrás dele.

- Sempre me impressionou a capacidade artística do ser humano. Não há como negar; este templo é uma verdadeira obra de arte... Apesar de ter sido levantado à custa de muito sangue e lágrimas, enquanto soava a dolorosa música da chibata. A ignorância cobra um preço muito alto à humanidade, enquanto as pessoas se perdem em discursos vazios e sem sentimento real algum.
- É o preço que eu pago, né?
- Não. De forma alguma. Apesar da ignorância, você apenas está pagando por serviços prestados. Há muito que me consideram o ignorante da história, afirmando que perco meu tempo tentando ir na direção oposta à do progresso. No entanto, quem pode afirmar qualquer coisa com absoluta certeza, quando o assunto é tão transcedental? Afinal, se tudo é eterno, talvez todos estes momentos não sejam realmente importantes e nós devêssemos todos relaxar um pouco e aproveitá-los intensamente, se no fim não teremos realmente um fim.
- Você é muito bom com as palavras.
- Ah!... Obra do tempo e da total ausência de reservas em dizer o que penso. Aliás, acho que é uma das razões de as pessoas serem tão infelizes; estão sempre muito preocupadas com regras inúteis e com a importância da opinião que outras pessoas possam ter à respeito do que sentem, pensam e fazem. Liberdade! Vocês temem a liberdade, com receio do preço que possam ter que pagar no futuro.
- Então somos todos covardes. É assim que você nos vê a todos? Um bando de covardes se escondendo de si mesmos.
- De certa forma. Mas já tive orgulho de alguns de vocês, que ousaram e fizeram tremer a tão bela e frágil estrutura social.

   O homem abriu o paletó e tirou uma caixinha prateada de cigarros. Colocou um cigarro nos lábios e o acendeu com um isqueiro dourado.

- É, eu sei. Não deveria estar fumando aqui, não é? Não é o que está pensando?... Você vê? Mesmo depois de tudo que te proporcionei e o qual você viveu com tanta intensidade e volúpia, ainda se prende inconscientemente ao temor e às regras religiosas criadas por homens muitas vezes tremendamente piores que você.
- Muitas são regras que valorizam o melhor do ser humano.
- Você realmente quer estragar teus últimos momentos com uma conversa teológica à essa altura do campeonato? Além de ser muito tarde para crises de consciência, não melhora em nada tua situação perder-se em verborragia barata e moralista, não é? Ora, eu te conheço como ninguém e sei de tudo que você fez, porque sempre estive lá, facilitando a realização de teus desejos.

   O homem deu uma tragada profunda no cigarro, soltando uma longa baforada para o alto.

- Vamos encarar isso numa boa. Você pode ser tão ignorante quanto todo mundo, mas é uma pessoa razoavelmente inteligente, senão, nem com minha ajuda chegaria tão longe e conseguiria se manter no topo por tanto tempo.
- É. Você não fez tudo, né?
- Claro que não. Fiz grande parte, como prometido que faria, mas tua participação foi muito importante para que não só alcançasse tantas vitórias, como para que, principalmente, se mantivesse no topo do mundo.
- No entanto, chegou a hora de perder tudo, né?
- Não! Perder tudo, não! Você ainda será lembrado como um grande empresário e por tudo que realizou. Teus adversários tentarão manchar teu nome, mas tua morte dentro de uma igreja dará um certo ar de grandiosidade ao evento e você será lembrado como alguém que muito realizou. Não se preocupe com tuas queimas de arquivo, com os desvios de verbas públicas, com as fraudes em licitações e com as inúmeras orgias. Nada disso virá à tona, porque muitos outros envolvidos garantirão o sigilo para protegerem a si mesmos.
- Está bem. Vamos logo com isso, então! Como será?
- Da melhor forma que lhe convier. Vamos ver... Tenho uma pistola comigo, no entanto, creio que seria muito espalhafatoso. Tenho uma ideia melhor. Como você não me trouxe problemas e está aceitando cumprir tua parte no contrato sem complicações, vou te oferecer a oportunidade de uma saída mais suave, uma parada cardíaca. Apesar de ser um tanto incômodo, um infarto do miocárdio não mancharia tua tão preciosa imagem social.

   Rogério respirou fundo e assentiu, recostando-se no banco.
   Foi o tempo de recostar a cabeça e não havia mais ninguém na igreja, nem mesmo ele; apenas um corpo bem vestido recostado no banco, como se dormisse profundamente.
   O silêncio foi subitamente quebrado pelo sino, que batia a quarta hora da madrugada.

Continua...

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

A Verdadeira História de Alice no País das Maravilhas

Em algum momento de nossas vidas, todos tomamos contato com a história de Alice no País das Maravilhas, ou pelo menos partes da história, que foi transformada em um filme de desenho animado pela Disney em 1951, e que mais recentemente, em 2010, ganhou uma versão cinematográfica dirigida por Tim Burton. 

Embora a história da menina que se aventura pela toca do coelho e encontra um mundo desconhecido e enigmático seja muito conhecida, alguns fatos por trás da história são um tanto sombrios.


O livro

Alice's Adventures in Wonderland, frequentemente abreviado para Alice in Wonderland (Alice no País das Maravilhas) é a obra mais conhecida de Charles Lutwidge Dodgson, publicada a 4 de julho de 1865 sob o pseudônimo de Lewis Carroll. É uma das obras mais célebres do gênero literário nonsense.

O livro conta a história de uma menina chamada Alice que cai numa toca de coelho que a transporta para um lugar fantástico povoado por criaturas peculiares e antropomórficas, revelando uma lógica do absurdo e características dos sonhos. Este está repleto de alusões satíricas dirigidas tanto aos amigos como aos inimigos de Dodgson, de paródias a poemas populares infantis ingleses ensinados no século XIX e também de referências linguísticas e matemáticas frequentemente através de enigmas que contribuíram para a sua popularidade. É assim uma obra de difícil interpretação, pois contém dois livros num só texto: um para crianças e outro para adultos.


Este livro possui uma continuação Alice do Outro Lado do Espelho.


A origem da história

Charles Lutwidge Dodgson era um homem muito tímido, e gostava muito de crianças (apenas as do sexo feminino) e de lhes contar histórias. Lewis enquanto lecionava Matemática em Oxford conheceu Henry Liddell, pai de 3 meninas - Alice, Lorina e Edith. Ele acabou desenvolvendo uma amizade (será que era realmente amizade) pela menina Alice. Os pais da garota não viam problema nesse contato, algo que hoje em dia seria visto de outra forma – Dodgson tinha 31 anos, enquanto que Alice tinha apenas 7 anos de idade.

As irmãs Liddell

A 4 de 1862, durante um passeio de barco pelo rio Tâmisa, Charles Lutwidge Dodgson, na companhia do seu amigo Robinson Duckworth, conta uma história de improviso para entreter as três irmãs Liddell (Lorina Charlotte, Edith Mary e Alice Pleasance Liddell). Eram filhas de Henry George Liddell, o vice-chanceler da Universidade de Oxford e decano da Christ Church, bem como diretor da escola de Westminster. A maior parte das aventuras contidas no livro, foram baseadas e influenciadas em pessoas, situações e edifícios de Oxford e da Christ Church, por exemplo, o Buraco do Coelho (Rabbit Hole) simbolizava as escadas na parte de trás do salão principal na Christ Church. Acredita-se que uma escultura de um grifo e de um coelho presente na Catedral de Ripon, onde o pai de Dodgson foi um membro, forneceu também inspiração para o conto.

Essa história imprevista deu origem, a 26 de Novembro de 1864, ao manuscrito de Alice Debaixo da Terra (título original Alice's Adventures Under Ground) com a finalidade de oferecer a Alice Pleasance Liddell a história transcrita para o papel.

Mais tarde, influenciado tanto pelos seus amigos como pelo seu mentor George MacDonald (também escritor de literatura infantil), decidiu publicar o livro e mudou a versão original, aumentando de 18 mil palavras para 35 mil, acrescentando notavelmente as cenas do Gato de Cheshire e do Chapeleiro Louco (ou Chapeleiro Maluco).

Deste modo, a 4 de Julho de 1865 (precisamente três anos após contar a história para as meninas) a história de Dodgson foi publicada na forma como é conhecida hoje, com ilustrações de John Tenniel. Porém a tiragem inicial de dois mil exemplares foi removida das prateleiras devido a reclamações do ilustrador sobre a qualidade da impressão. A segunda tiragem, ostentando a data de 1866, ainda que tenha sido impressa em Dezembro de 1865, esgotou-se nas vendas rapidamente, tornando-se um grande sucesso, tendo sido lida por Oscar Wilde e pela rainha Vitória. Na vida do autor, o livro rendeu cerca de 180 mil cópias. Foi traduzida para mais de 125 línguas e só na língua inglesa teve mais de 100 edições.

Em 1998, a primeira impressão do livro (que fora rejeitada) foi leiloada por 1,5 milhão de dólares americanos.

Algumas impressões desta obra contêm tanto As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, como também a sua sequência Alice no Outro Lado do Espelho.


Simbolismo matemático na trama

O livro pode ser interpretado de várias maneiras. Uma das interpretações diz que a história representa a adolescência, com uma entrada súbita e inesperada (a queda na toca do coelho, iniciando a aventura), além das diversas mudanças de tamanho e a confusão que isso causa em Alice, ao ponto de ela dizer que não sabe mais quem é após tantas transformações (o que se identifica com a psicologia adolescente).

Como Dodgson era de fato professor de matemática na Christ Church, da Universidade de Cambridge é sugerida a existência de muitas referências e de conceitos matemáticos, tanto nesta obra, como na Alice no Outro Lado do Espelho. Confiram alguns exemplos abaixo:

  • No capítulo 1, No Buraco do Coelho, durante o processo de encolhimento da altura, Alice faz considerações filosóficas acerca do tamanho final com que ficará, com receio de talvez acabar por desaparecer completamente, como uma vela. Esta observação reflete o conceito do limite de uma função (cálculo I).
  • No capítulo 2, No Lago das Lágrimas, Alice tenta fazer multiplicações, mas acaba por produzir uns resultados estranhos: "Deixa-me cá ver: quatro vezes cinco são doze, e quatro vezes seis são treze, e quatro vezes sete são... Oh, meu Deus! Por este andar nunca mais chego aos vinte!". É assim exposta a representação de números utilizando bases diferentes e sistemas numerais posicionais (4 x 5 = 12 na base 18; 4 x 6 = 13 na base 21; 7 x 4 poderiam ser 14 na base 24, seguindo a sequência).
  • No capítulo 5, Conselhos de Uma Lagarta, o Pombo afirma que as meninas são uma espécie de serpentes, pois ambos seres comem ovos. Esta observação é um conceito geral de abstração que ocorre frequentemente em diversos âmbitos da ciência; um exemplo da utilização deste raciocínio na matemática é a substituição de variáveis.
  • No capítulo 7, O Chá dos Loucos, a Lebre de Março, o Chapeleiro Louco e o Arganaz dão vários exemplos em que o valor semântico de uma frase X não é o mesmo que o valor do inverso de X (por exemplo, Não é nada a mesma coisa!(...)Ora, nesse caso também podias dizer que "Vejo o que como" é a mesma coisa que "Como o que vejo"!); No ramo da lógica e da matemática este conceito é uma relação inversa.
  • Também no capítulo 7, Alice pondera o significado da situação quando o grupo faz a rotação dos lugares ao redor da mesa circular, colocando-os de volta ao início. Esta é uma representação da adição de um anel do módulo inteiro de N.
  • No capítulo 6 e 8, o Gato Cheshire desvanece , deixando apenas o seu sorriso largo, suspenso no ar, levando a Alice maravilhada ao notar que já viu um gato sem um sorriso, mas nunca um sorriso sem um gato. É feita aqui uma profunda abstração de vários conceitos matemáticos (geometria não-Euclidiana, álgebra abstrata, o início da lógica matemática, etc), delineando, através da relação entre o gato e o próprio sorriso, o próprio conceito de matemática e o número em si. Por exemplo, no lugar de considerar duas ou três maçãs, consideram-se antes os conceitos de dois e de três por si só, separados do conceito de maçã, como o sorriso que, aparentemente pertence ao gato original, é separado conceitualmente do resto do corpo físico.


Quem foi Charles Lutwidge Dodgson

Em 27 de janeiro de 1892, nascia Charles Lutwidge Dodgson, em uma tradicional e religiosa família britânica. Na escola, foi considerado brilhante – apesar de pouco disciplinado para os estudos.

Sua sensibilidade era traduzida em forma de arte. Mais especificamente, como fotografia e poesia. Em um tempo de poucas fontes de entretenimento, em que as casas ainda não tinham rádios ou televisões, Carroll era considerado uma excelente companhia, contando histórias, declamando poesia e cantando toleravelmente bem, apesar de algumas fontes afirmarem que ele era gago.

Foi assim que o rapaz aproximou-se de muitas famílias abastadas e importantes de seu tempo, criando excelentes conexões sociais.

Muitos biógrafos de Lewis Carroll retrataram o autor como pedófilo, apontando seu pouco interesse por mulheres adultas, e sua ligação emocional com garotinhas – bem como o hábito de fotografar meninas nuas ou seminuas.

Contudo, muitos autores modernos contestam essa versão, alegando que isso seria o chamado “mito Carroll”. De acordo com eles, Carroll envolveu-se com mulheres, o que teria levado, inclusive, a alguns escândalos. Sua família, após sua morte, teria ocultado todas as evidências de seus envolvimentos amorosos, para evitar desonrar seu nome – e essa falta de referências teria sido mal interpretada posteriormente por biógrafos.

Afirmam também que as fotos das crianças seria moda na Inglaterra do período vitoriano, sendo uma temática recorrente nas obras de diversos fotógrafos da época. Segundo esses pesquisadores, seria um equívoco interpretar as fotografias de Carroll fora de contexto, usando como parâmetro nossos valores dos séculos XX e XXI.


A musa inspiradora de Dodgson

Não é certo que Alice Liddell, a menina para quem Dodgson escreveu a sua mais famosa história, tenha inspirado a personagem Alice. Em vida, o próprio autor teria dito que não havia se inspirado em nenhuma criança real.

É claro que existem muitas ligações entre a Alice do livro e a do barco a remo. Para começar, as duas sagas de Alice passam-se em datas especiais: Alice no País das Maravilhas ocorre em 4 de maio (aniversário de Liddell) e Alice através do espelho se passa em 4 de novembro (exatos 6 meses após seu aniversário). Como se não bastasse, no segundo livro, a menina afirma que tem “precisamente sete anos e meio” – a idade que Alice real teria na época.

Carroll também dedicou ambos à pequena Alice, além de inserir, no final do segundo livro, um poema com uma mensagem especial – se juntarmos as primeiras letras de todos os versos, soletramos o nome completo de Liddell.


O relacionamento entre Dodgson e Alice Liddell

Há muita especulação – e controvérsia – sobre a natureza do relacionamento entre Carroll e Alice. Sabe-se que em junho de 1863 a amizade entre Carroll e a família Liddell rompeu-se de forma abrupta.


Curiosamente, a páginas do diário de Carroll correspondentes aos dias 27 a 29 de junho foram arrancadas e destruídas, assim como muitas outras páginas.

Acredita-se que o motivo para o afastamento entre Carroll e os Liddell estivesse nessas páginas, e por muito tempo popularizou-se a versão de que o autor teria pedido Alice, de apenas 11 anos, em casamento entre esses dias – o que teria levado os pais da menina a pedirem que ele deixasse sua filha em paz.

Outra teoria afirma que a mãe de Alice queimou cartas de Lewis Carroll, nas quais ele se despedia da menina com "10 milhões de beijos" e costumava pedir cachos de cabelos de presente para beijar.

Quando tinha oportunidade o escritor gostava de desenhar ou fotografar meninas seminuas, com a permissão da mãe. A maioria das fotos foram destruídas ou devolvidas, mas quatro ou cinco fotos ainda sobrevivem.

A menina Evelyn Hatch, fotografada por Lewis Carroll, em 1878

Documentos descobertos pela biógrafa Karoline Leach mostram que Carroll talvez fosse tão simpático com Alice e suas irmãs porque estava interessado mesmo era na governanta da casa.


Mesmo com o rompimento de relações entre Dodgson e a família Liddell, o escritor enviou, via um amigo, um presente a Alice no dia do seu casamento, em 1880. Embora afastado da jovem, o escritor parecia acompanhar a jovem musa a distância. Talvez por causa da amizade impar que se desenvolveu entre ambos, ou pelos motivos mais sombrios revelados acima.

Foto de Alice Liddell aos 18 anos Foto de Alice aos 80 anos de idade





Uma Versão Psicológica da História de Alice


A história de Alice seria, na realidade, triste. Lembrem-se que os grandes contos de fadas são de outra época, a realidade era diferente e os valores extremamente conservadores. Então, ter uma filha esquizofrênica era considerado uma aberração, um crime. Os pais de Alice decidiram deixa-la em um sanatório e ela permanecia, na maior parte do tempo, dopada. Quando não estava sob efeito de remédios era violentada pelos funcionários. A menina tinha apenas 11 anos.

Cada um dos personagens e objetos da história, tem a ver com um desejo ou experiência de Alice.

O buraco pelo qual ela entra no País das Maravilhas, é, na verdade, uma janela de seu quarto, onde ficou presa durante toda a vida, pela qual ela desejava sair e conhecer o mundo à sua volta.

O coelho branco, para ela, representava o tempo. Aquele tempo que ela desejava que passasse logo, para que um dia ela pudesse sair daquele lugar. O tempo que ela via passar tão rápido, porém tão lento...

O Chapeleiro Maluco era outro interno, seu melhor amigo. Alguém que deixava sua vida no hospital menos amargurada, com quem criava várias teorias de como seria a vida lá fora. O rapaz, em realidade, sofria de Síndrome Bipolar, por isso a personalidade do Chapeleiro na história, o mostrava ora alegre, ora depressivo, ora calmo, ora irritado.

A Lebre, companheira do Chapeleiro, era a menina que dividia o quarto com ele. Ela sofria de depressão profunda, e todas as vezes que Alice teve contato com ela, encontrou-a num estado de terror e paranoia.

O gato de Cheshire: um dos enfermeiros, em quem Alice confiou, mas acabou por enganá-la e violenta-la. O sorriso do gato, aquele que é tão marcado, era na verdade o sorriso obscuro que seu agressor abria, cada vez que lhe abusava, e a deixava jogada em um canto de sua acomodação, derrotada, triste e ofuscada.

A Rainha de Copas: a diretora do sanatório. Uma mulher má e desprezível, que não sentia sequer um pingo de compaixão para com os enfermos que estavam sob seus cuidados. Era a favor da terapia de choque e da lobotomia, e por diversas vezes ordenava que os funcionários espancassem, sedassem e prendessem em jaulas os enfermos que apresentavam comportamento que não lhe agradavam.

A Rainha Branca: sua mãe, uma mulher nobre e terna, que sofreu na pele o preconceito de ter uma filha doente, tendo que abandonar a menina em um sanatório, e nunca mais voltar a vê-la. As vagas lembranças que Alice possuía, era de momentos com sua mãe, e o motivo dela pensar que o mundo fora dos muros do hospital era um lugar melhor, era saber que a mãe estava lá, em algum lugar, para lhe cuidar.

Os Naipes: enfermeiros do hospital, apenas seguindo ordens o dia inteiro.

A Lagarta Azul: sua terapeuta, aquela que lhe dava as respostas, que lhe explicava o que acontecia e com quem ela conversava.

Tweedledum e Tweedledee: gêmeos siameses órfãos, que também estavam no hospital. Embora não possuíssem nenhum problema mental que justificasse sua internação, a aparência que tinham era assustadora, por isso foram reclusos.

O Rei de Copas: o médico psiquiatra do hospital. Alguém com complexo de inferioridade, que era incapaz de se opor às ordens da diretora.

Os frascos “Coma-me” e “Beba-me”: as drogas que lhe davam. Por serem extremamente fortes, por várias vezes Alice tinha sensações diferentes e alucinações, bem como se tivesse encolhido ou aumentado de tamanho.

Tudo isso foi criado pela menina como se fosse um mundo paralelo. Uma realidade menos dolorosa daquela em que vivia. Ela já não podia suportar aquele local e tudo o que acontecia com ela ali dentro, então resolveu usar de sua imaginação infantil para amenizar a dor e o sofrimento. A irmã mais velha de Alice, é na verdade uma enfermeira do hospital, a quem a pequena era muito apegada. A enfermeira tinha um diário e nele anotava todas as histórias que Alice criava em sua mente. Todos os dias a enfermeira ia até o quarto da menina e ouvia seus desabafos e as aventuras que criava em sua mente. Sem deixar de anotar uma palavra sequer.


Infelizmente, Alice  executa uma tentativa de fuga. Ela não obtém sucesso, e acaba detida pelos funcionários. A diretora furiosa, manda que espanquem a garota e apliquem a terapia de eletrochoque, para que nunca mais volte a se repetir. Após o castigo, Alice torna-se agressiva e violenta, ao ponto da diretora decidir que a única saída para ela, seria a lobotomia.

Alice viveu por muito tempo em um estado de “coma”. Ela nunca mais viveu, sorriu, tampouco falou. Devido a isso, teve seu corpo devastadoramente abusado, tanto, que acabou por ter hemorragia interna devido à violência empregada em um ato de estupro, e veio a falecer.

A enfermeira que escrevia suas histórias em um diário acabou por se afastar do sanatório, e Alice foi imortalizada como a menina sonhadora que viveu aventuras incríveis no País das Maravilhas.