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sexta-feira, 22 de setembro de 2017

A Verdadeira História de CHAPEUZINHO VERMELHO

Contos de Fada fazem a alegria de crianças em todo mundo, abrindo as portas para reinos de imaginação e de sonhos, onde tudo é possível. Mas nem sempre foi assim.


As primeiras versões de algumas das mais conhecidas fábulas infantis não tinham nada de encantadoras ou alegres, muito pelo contrário, elas eram horrendas, violentas e grotescas. Serviam acima de tudo como parábolas sobre moralidade e comportamento. Nelas as crianças que não agiam conforme o esperado, sofriam, eram repreendidas ou simplesmente morriam de forma aterrorizante deixando uma lição de moral.

Um dos contos de Fadas mais famosos de todos os tempos, "Chapeuzinho Vermelho" pode parecer inocente para a maioria, mas quando a fábula surgiu, ela era muito diferente. Haviam conotações ocultas que tornavam a história da menina que leva doces para sua avozinha algo bastante sinistro. 

A origem de "Chapeuzinho Vermelho" (Little Red Riding Hood) pode ser traçada até muito antes do século XVII, quando surgiu sua primeira versão escrita. Antes ela já figurava no folclore e tradições orais de vários países da Europa. Algumas destas versões eram bastante diferentes, embora diversos elementos fossem comuns e pudessem ser reconhecidos. A fábula era contada por camponeses franceses no século XI, documentada pelo historiador Egbert de Liege em 1550. Na Itália, ela era popular entre camponeses desde o século XIV, sendo que existiam várias versões, incluindo "La finta nonna" (A Falsa Vovozinha) uma das mais difundidas. Chapeuzinho foi reescrita várias vezes, inclusive por Ítalo Calvino que a acrescentou em seu compêndio de folclore. Versões da mesma fábula também podiam ser encontradas na Suécia, Noruega, Alemanha, Países Baixos e Espanha.

Essas primeiras variações da fábula se diferem das versões atuais em vários aspectos. O antagonista principal nem sempre é o "Lobo Mau", o monstro algumas vezes é retratado como um ogro, vampiro ou troll. Em algumas versões, a criatura é um lobisomem, o que tornou a história extremamente relevante nos julgamentos de criminosos suspeitos de licantropia durante a Idade Média. O famoso Julgamento de Peter Stumpp, na Alemanha, se valeu da fábula para enquadrar o acusado.

[Sobre esse caso chocante, leia AQUI]


A história em algumas versões era realmente bizarra.

O lobo deixava o corpo da velhinha para a criança se alimentar, dizendo que se tratava de carne de cordeiro. Faminta pela sua jornada, a criança comia avidamente e canibalizava a própria avó. Em outra versão, o lobo confronta a velha e a obriga a remover suas roupas ou jogá-las na lareira. A velha fica aterrorizada por ser forçada a se desnudar diante da fera, mas o lobo diz: "Não se preocupe, não é essa a fome que eu pretendo saciar!". Finalmente quando a mulher está despida, ele a devora. Em uma versão especialmente aterrorizante, a história termina quando a menina deita com o lobo na cama e este a mata. Numa outra, chapeuzinho percebe o disfarce do lobo que assumiu a identidade da avó, e se desculpa, retornando para a floresta, alegando que havia esquecido a cesta que carregava. O lobo no entanto, amarra um barbante no pé da criança e a persegue pela floresta em uma caçada implacável. Em boa parte das histórias não existe sequer a figura do caçador. A menina fica por conta própria, precisando enfrentar o medo e a ameaça do lobo recorrendo apenas a sua inteligência. Na Espanha, a menina dá lugar a uma adolescente que tenta escapar de investidas claramente sexuais por parte do lobo. Na Polônia, a menina dá lugar a um rapaz. O capuz vermelho está quase sempre presente, mas em algumas versões a protagonista usa uma capa feita de folhas verdes.  

Em uma versão francesa, Chapeuzinho escapa graças à ajuda de uma lavadeira que aconselha a menina a pular em um rio e se manter de baixo d'água. Quando o capuz vem à tona, o lobo acha que a criança se afogou e vai embora. Na Ucrânia, o lobo é empurrado no fogo pelo espírito da avó que ressurge como um fantasma para salvar a menina no último momento. No final dessa história, a menina é severamente repreendida pelo fantasma da avó que culpa a neta por ter sido tola e ter causado sua morte. A menina adota a identidade da avó e passa a morar na casa que pertenceu a esta como compensação.

Especialistas em folclore conduziram uma pesquisa em 2009 na qual identificaram 58 versões diferentes de Chapeuzinho Vermelho.


A versão impressa mais antiga tem o título "Le Petit Chaperon Rouge" e teve sua origem em meados de 1670. Ela fazia parte de uma coleção de fábulas a respeito de moral e comportamento infantil. Nessa versão Chapeuzinho Vermelho pegava um atalho apesar da mãe alertá-la para nunca fazê-lo. Por conta disso, o lobo encontrava a menina e matava sua avó. O conto deixava implícito que a culpa pela tragédia era unica e exclusivamente da criança que não obedecia as instruções da mãe.

Em 1697, Charles Perrault escreveu uma das versões mais conhecidas da fábula que foi responsável por popularizá-la em toda Europa. Esta é possivelmente uma das versões mais violentas e sinistras de Chapeuzinho Vermelho. A menina conforme a descrição de Perrault é "atraente e bem criada", quase uma adolescente, nascida em uma aldeia no interior da França. Na história, o lobo engana a menina e a convence a revelar a localização da casa de sua avó. O lobo age de forma simpática, engana e seduz sem jamais parecer malvado. A seguir, ele corre até a casa, evitando um grupo de lenhadores que haviam advertido a menina do perigo de falar com estranhos. Chegando na casa, o lobo devora a velha de maneira sangrenta. "As mordidas arrancam pedaços e dilaceram seu corpo".

Ele então veste os trajes da avó e prepara sua armadilha. A menina chega e embora desconfie de que algo está errado, acaba cedendo ao pedido do lobo disfarçado para que suba na cama. O lobo então a ataca com a mesma violência e a devora viva. A história se encerra dessa maneira, com o lobo emergindo como o vencedor e todas as demais personagens caindo como vítimas. 

Não existe final feliz, Perrault explica a moral da história no último parágrafo para que não reste nenhuma dúvida de seu significado:

"Com essa fábula aprendemos que crianças, especialmente moças jovens, bonitas e bem nascidas, correm perigo ao falar com estranhos. Lobos, afinal de contas, podem espreitar em qualquer estrada. Nós dizemos "lobos", mas nem todos lobos são iguais, alguns são simpáticos e agradáveis - não são selvagens ou furiosos, mas domados. Eles seguem as jovens pelas estradas e ruas, se preciso, até suas casas. Por sinal, é bom saber que esses lobos gentis e simpáticos, são de longe os mais perigosos!".  

Esta versão presumivelmente a original da fábula escrita na França se tornou popular na corte do Rei Louis XIV. O Rei costumava entreter seus convidados em festas extravagantes e estes sem dúvida conseguiam entender perfeitamente o sentido da história. O termo "lobo" começou então a ser associado a homens interessados em assediar e perseguir moças mais jovens.

No século XIX os irmãos Jacob  e Wilhelm Grimm - conhecidos como Irmãos Grimm, adaptaram a história e introduziram elementos inovadores na trama. A primeira parte da trama adaptada é bastante semelhante a história de Perrault, entretanto eles modificaram o final: a menina mata o lobo depois de reconhecer se tratar de uma fera disfarçada. Ela consegue empurrar o lobo na direção de uma lareira acesa e este morre queimado. A avó, no entanto, não sobrevive.

Em uma segunda revisão, os irmãos escreveram nova mudança, a menina e a avó são devoradas pelo lobo, mas na última hora um caçador atrás da pele da fera o mata. Ao abrir a barriga do lobo encontra avó e neta em seu interior ainda vivas. A lição de moral é transmitida, mas sem o trauma da morte ou tragédia.

Em 1857, Chapeuzinho Vermelho já havia se tornado a história de maior sucesso dos Irmãos Grimm e eles decidiram fazer uma terceira versão que amenizava ainda mais o final. Nela, incluíram a menina reconhecendo o disfarce do lobo e fugindo sem ser devorada. Ela corre para o caçador e este mata a fera e remove a avó de sua barriga. Essa talvez seja a versão mais próxima da história que ouvimos quando criança. Nela, ninguém morre, a não ser o "pobre" lobo mau. É curioso que os Irmãos Grimm, conhecidos por escrever histórias de conteúdo macabro tenham decidido atenuar justamente essa narrativa e adotar um final feliz.

Além do alerta contra falar com estranhos e trilhar caminhos desconhecidos, a fábula de Chapeuzinho Vermelho sempre esteve aberta a interpretações de caráter sexual. A história pode ser encarada como uma alegoria a respeito do ritual de passagem da infância para a puberdade. A menina deixa de ser criança e transforma-se em adulta no momento em que sai da barriga do lobo. O capuz usado por ela, vermelho, claramente alude à primeira menstruação. Sigmund Freud também usou o conto como uma alegoria de amadurecimento e renascimento.

É curioso que a origem de alguns dos mais famosos contos de fada encontre-se ligada muito mais ao horror do que a fantasia. Estas pequenas histórias não surgiram como uma forma inocente de entretenimento infantil, mas como chocantes revelações visando ensinar aos pequenos como o mundo real poderia ser assustador e perigoso. 

*     *     *

Para quem achou interessante, indico o filme "A Companhia dos Lobos" (The Company of Wolves/ 1984) que reconta de uma maneira aterrorizante a fábula de Chapeuzinho Vermelho e que me assustava terrivelmente quando eu era criança.

As cenas da transformação e do lobo emergindo de baixo da pele de uma pessoa, com o focinho brotando de dentro da boca sempre me causaram pesadelos. Hoje em dia, o estilo chocante e a aura quase barroca do filme perderam um pouco seu poder de sugestão - é difícil assustar nos dias atuais, mas quando assisti esse filme (ainda criança) fiquei positivamente apavorado. 

Desde então, jamais encarei Chapeuzinho Vermelho como uma história de ninar. A não para quem quer ter pesadelos depois de ouvi-la.

Aqui está o trailer de Companhia dos Lobos:


E é claro, a cena da transformação que ainda é na minha opinião bem assustadora:


Fonte

terça-feira, 12 de setembro de 2017

O ÚLTIMO XAMÃ

Nasci no meio do deserto. Para ser mais exato, dentro da reserva Los Coiotes. Meus pais eram filhos de antigos pioneiros que haviam desbravado o grande desconhecido oeste da América. Desconhecido e perigoso.

Apesar de toda uma caravana ter sido massacrada, meu avô foi poupado. George Oldtown era seu nome. Falava um pouco de algumas línguas indígenas; fragmentos; mas acredito que o que lhe tenha salvado a vida fora a medicina. Isso mesmo. Meu avô era médico e sabia o valor de uma vida, como poucos naquela época e ainda hoje. A verdade é que foi realmente poupado. Tornou-se o único verdadeiramente amigo dos índios, sobretudo do velho xamã da tribo que, posteriormente, lhe apresentou a outros xamãs de outras tribos de Cahuilla e de Cupeño.

Um dia, como não poderia deixar de ser, meu avô enamorou-se de uma bela índia, filha de um dos chefes e teve que passar por verdadeiramente difícil prova, quase perdendo a vida, para que pudesse finalmente merecê-la. Nunca soube ao certo como teria sido esta prova, pois tive muito pouco contato com ele. Era muito pequeno, quando um dia ele sentou-se debaixo da árvore, no alto da colina e simplesmente adormeceu para sempre. Lembro-me de fragmentos de diversas histórias que me contava, quando eu ainda era bem novo, mas nada além disso. Meu pai, por sua vez, sempre fora muito calado e nunca me falou muito sobre ele.

Minha família, portanto, tem ancestrais dos dois lados, brancos e índios. Apesar da modernidade, mantivemos a maior parte de nossos costumes. Nunca chegamos de fato a excluir os costumes do homem branco, no entanto, sabíamos selecioná-los de acordo com o que era realmente relevante e sadio.

Apesar de calado, às vezes meu pai abria a boca para contar histórias, num tom de quem já estava pensando naquilo há algum tempo e precisava falar, como uma forma de não esquecer.

Por mais que me contasse das absurdas e violentas atitudes da maioria dos brancos em relação ao índios, de forma a dar-me consciência de que apenas meu avô tinha convivência amigável e respeitosa com eles, enquanto outros os massacravam de diversas formas através da história da América, só realmente dei-me conta disso há pouco tempo, quando forasteiros chegaram à nossa reserva, com “boas intensões”. Logo mostraram sua verdadeira cara, apresentando documentos, que praticamente nos expulsavam de nossas terras. No entanto, era nossa reserva, nossa terra e, por mais poderosos que fossem seus amigos do governo, resistimos com tudo que tínhamos. Mas os tempos têm suas próprias razões e a vida misteriosa traça caminhos quase sempre muito estranhos. Numa emboscada muito bem articulada, mataram praticamente toda a tribo.

Antes que tudo isso acontecesse, como que prevendo o desenlace trágico, meu pai entregou-me uma mochila cuidadosamente preparada e mandou-me esconder nos desfiladeiros, dizendo-me que não voltasse, até que ele mesmo fosse me buscar. No entanto, depois de todo um dia de espera, resolvi desobedecer e voltar por conta própria.

À medida que me aproximava, vi uma coluna de fumaça. Meu coração acelerou rapidamente. Mesmo sem entender, podia sentir no íntimo a tragédia que se abatera sobre todos nós. A casa queimava o que restara de sua estrutura e meu pai estava amarrado ao curral. Embaixo de seu corpo sem vida, uma enorme mancha de sangue, que o solo seco do deserto absorvera em grande parte.

Corri para o outro lado tentando entender o que acontecera e procurando por minha mãe, mas não pude achá-la, senão alguns minutos mais tarde e, mesmo assim, não a reconheci de imediato. Estava desfigurada e irreconhecível. Mas então, vi o colar de meu avô, que fora usado para estrangulá-la. 

Caí de joelhos e, sem poder mais conter-me, chorei. Nem sei por quanto tempo fiquei ali, enquanto as lágrimas desciam.

Depois de passado um tempo que jamais saberei dizer ao certo, levantei-me e, voltando-me para sudoeste, pus-me em direção da tribo Cahuilla. Corri o mais rápido que pude, até que, tomado de horror, vi cenário semelhante descortinar-se à minha frente. Fumaça, destruição e morte. A cena era horripilante.

Em estado de choque, perambulei pela tribo, entre cadáveres mutilados e carbonizados. 

De repente, escutei um murmúrio. Corri em sua direção e encontrei o velho xamã sob parte do couro que cobria a entrada de sua casa. Seu crânio estava afundado na parte superior esquerda e seu nariz sangrava muito. Com o pouco de voz que lhe restava, contou-me o que acontecera com meus pais. 

Chorei. Chorei de tristeza. Chorei de desespero. Chorei de raiva.

Quis saber o porquê de tudo aquilo, mas o velho amigo xamã já não pertencia a este mundo. Então levantei-me e olhei ao redor tentando ver alguma coisa por trás das lágrimas que embaçavam-me a visão. A morte estava por toda parte e eu estava sozinho. Nada mais restara. Ninguém sobrara, a não ser eu, ali, de pé, olhando e não querendo ver nada daquilo.

Fiquei por ali algum tempo, até que resolvi voltar para casa. Perambulei sem forças e sem pressa. Queria que tudo não passasse de um pesadelo sem sentido, do qual acordaria a qualquer instante, mas não acordei nunca mais.

No dia seguinte, sentindo-me um corpo sem alma, enterrei meu pai, mas não tive coragem de fazer o mesmo com minha mãe. Não fui capaz de suportar a visão de seu corpo em pedaços novamente. Os coiotes viriam. Eles viriam e a conduziriam à nova vida, através de suas próprias vidas. Não era desumano, como a tradição do homem branco consideraria, mas sim, respeitoso. A Mãe Terra cuidaria do que não fui capaz de cuidar, através de seus filhos, nossos guardiões na tradição de meu povo.

Senti que precisava ir embora. Aquele não era meu mundo. Meu mundo era onde todos viviam felizes; meu pai, minha mãe, os amigos… Meu mundo era belo à sua maneira. Aquele não era meu mundo. Eu não queria que fosse, embora eu soubesse que era e nada pudesse fazer para que tudo voltasse a ser como era antes.

Resolvi partir à noite. A lua estava cheia, então o caminho estava claro. Levei o que pude, além da mochila, sem me preocupar com o peso. Já no meio da madrugada queria me desfazer da maioria das coisas que carregava, pois era impossível continuar com tanto peso. Joguei pelo caminho o desnecessário e levei o que pude de comida. No meio da madrugada, percebi a presença de alguns coiotes, que acompanhavam-me de longe. Andaram junto comigo por várias horas e depois desapareceram. Antes do dia amanhecer, aconcheguei-me numa fenda do desfiladeiro e caí num sono pesado e agitado por imagens de fogo, morte e desespero, entremeados por visões de águias, rituais, imagens do amigo e sábio xamã que me abençoava e momentos em que sentia-me flutuar acima das montanhas.

Acordei com o sol queimando furiosamente meu rosto. Já devia ser metade do dia, pois o sol estava quase no meio do zênite.

Voltei a andar em direção ao sul, sem saber para onde estava indo e o que encontraria. Não importava. Simplesmente não importava.

Continua...

quarta-feira, 7 de junho de 2017

O Primeiro Contato Imediato de Quase Terceiro Grau

Enquanto estava ali sentado na sala vermelha, com sofás vermelhos e almofadas vermelhas, escutando o som relaxante que tocava no aparelho de som, observava o tempo escorrendo lentamente numa ampulheta imaginária. A mente divagava entre nervos semi-alertas, que mantinham meus sentidos aguçados, na quase expectativa da chegada de alguém.

Uma serra cortava ao longe; restos de uma obra insistente e inconvenientemente atravessando a tarde do sábado.

Sempre achei que ninguém deveria trabalhar aos sábados. Apesar do absurdo social, que faria tudo utopicamente parar, agradavam-me ideais semelhantes, pela possibilidade do sossego sempre bem-vindo.

O silêncio e a quietude sempre me fizeram prestar maior atenção em mim mesmo, nas sensações corporais, movimento da respiração etc. Às vezes sento e simplesmente observo-me, sem julgamentos; outras vezes uma inquietação fútil e sem sentido tortura-me, até que resolvo jogar para o alto qualquer suposta explicação que a justifique, retornando lentamente à agradável calma de sempre.

Foi numa dessas vezes que, sentado na velha poltrona vermelha de sempre, algo realmente inusitado aconteceu.

Eram mais ou menos umas dezesseis horas, quando senti o ar da sala resfriar repentinamente. Não foi uma leve oscilação na temperatura; ela deve ter despencado uns quatro graus em segundos. Pelo menos, foi esta a sensação térmica que tive. Como nunca passara por situação semelhante antes, olhei ao redor procurando algo que justificasse a mudança de temperatura, mesmo sabendo de antemão, que a sala estava exatamente como sempre estivera.

Do lado de fora, embora o tempo estivesse meio parado, repentinamente, as plantas começaram a agitarem-se, como se um vento descesse exatamente sobre elas.

Abri a porta e, para minha surpresa, não havia nenhum sinal de vento, embora elas continuassem se mexendo.

Olhei para cima e o céu estava limpo e azul, apenas isso. As plantas continuavam a sacolejar sem motivo aparente. Achei o fenômeno extremamente curioso. Então, voltei para dentro e, sentado novamente no sofá vermelho, fiquei observando-as em seu ballet sobrenatural, para ver no que isso daria.

Em determinado momento, percebi que o ar oscilou lentamente na minha frente, como ao tocarmos na superfície da água. E a oscilação continuou, somente que, agora, deslocava-se pela sala, até parar diante da porta de entrada da casa, que dá para a área externa e, posteriormente, para a rua.

No mesmo instante, senti um arrepio eriçar os pelos dos braços e nuca; sabia que não estava sozinho ali.

Fiquei olhando para a oscilação, já bastante tenso, quando pude escutar claramente, como se alguém falasse através de um equipamento de alta-fidelidade sonora. Só não tinha mesmo certeza se escutava de fato, ou se a coisa toda estava acontecendo dentro de minha cabeça; como sabê-lo?

- Não tenha medo. Não lhe faremos mal.


No mesmo instante, todo o nervosismo simplesmente desapareceu, como por encanto. Eu estava tão tranquilo, como se nada de anormal estivesse de fato acontecendo. Mas estava.

Logo em seguida, voltaram a falar.

- Temos percebido teu interesse em nós, já há algum tempo e, esperamos até o momento que estivesse mais preparado, para apresentarmo-nos diante ti… Compreendemos teus questionamentos neste momento e, respondendo-te da forma mais adequadamente possível, diante de teu conhecimento atual, afirmamos que somos teus irmãos de outros lugares do cosmo.

Apesar da revelação, confesso que não fiquei tão surpreso, dentro das devidas proporções, como julguei que poderia ficar, quando achei que isso acontecesse. Sempre li bastante sobre o assunto e não era de fato algo fora de meu conhecimento. Acredito mesmo, que senti até certa satisfação.

Eles retomaram.

- Neste primeiro encontro não nos apresentaremos visivelmente. Há necessidade de certo preparo para que consigas manter a calma, sem que precisemos intervir em teu sistema nervoso, como fazemos agora… Voltaremos a contatar-te muito em breve. Procure evitar alimentação pesada, optando por uma alimentação baseada exclusivamente em vegetais e frutas… Fique em paz.

No mesmo instante, a oscilação desapareceu e as plantas deixaram de sacudirem-se. Sentia-me calmo e, até mesmo, alegre com o acontecimento surpreendente.

Saí novamente ao jardim e olhei para o céu outra vez, esperando apenas ver o mesmo céu azul de antes, mas havia um pequeno ponto ovalado há muitos quilômetros de altura, quase imperceptível, pelo menos para mim, que uso óculos. Ele ficou ali, parado por alguns segundos e, depois, disparou velozmente em direção às montanhas, até sumir de vista.

Então ouvi a campainha tocar. Era meu aluno que acabara de chegar. Entrei para dar aula.


quinta-feira, 18 de maio de 2017

Câncer e Conchas


Há muito tempo que passo o início do outono na casa de praia. Na verdade, foi a única coisa que me sobrou, depois que, há alguns anos descobri que tinha câncer e, como aquela velha história de que algo ruim nunca vem sozinho, fui demitido e deixei de fazer parte do quadro de funcionários da maior empresa de telecomunicações do país.

O tempo passou e acabei torrando tudo de minha conta bancária, em duas fases de tratamento quimioterápico entremeadas por uma maldita metástase. O apartamento foi-se em seguida, para poder pagar os remédios. Então, simplesmente desisti. Numa manhã de quarta-feira, peguei algumas roupas e me mandei da cidade, dos amigos e inimigos, da minha lanchonete preferida, que ficava na esquina... Me mandei daquela vida. Faziam mais ou menos uns seis meses que morava exclusivamente aqui, na casa de praia. Saía muito pouco, apenas para comprar algum mantimento. Ficava a maior parte do dia aqui, sentado, olhando o mar.

Emagreci bastante. Acho que perdi uns quinze quilos. Não importa.

Foi num dia desses, como qualquer outro, que acabei adormecendo na cadeira de balanço, sem sequer perceber o cair da noite. A brisa fresca era um alento e ajudava a aliviar as dores. Às vezes era bem difícil, apesar da morfina e da cannabis, que ajudavam à aliviar um pouco. Nestas horas era muito difícil conciliar o sono, pois a dor diminuía, mas quase nunca ia embora totalmente. Então, tinha mesmo que aproveitar qualquer oportunidade de trégua, para desligar-me desse mundo. 

Foi numa dessas vezes que ela apareceu.

Acordei e já era noite. Pensei ter ouvido alguém falar comigo. Um destes ecos ressonando na memória de lembranças de tempos que já tinham sido esquecidos e que voltam como fantasmas a reclamar a atenção, com medo de se perderem numa eternidade sem fim.

Ainda estava sob o efeito do sono, os olhos meio secos e levei algum tempo, antes de percebê-la parada nos primeiros degraus da escada, observando-me na quase penumbra, com um suave sorriso.

Tentei falar alguma coisa, mas a voz não saiu por conta de um pigarro cretino. Pigarreei e perguntei finalmente, totalmente desconfortável com a visita inesperada. Eu não recebia visitas; eu não gostava de receber visitas.

- O que você quer?
- Eu vim te buscar. - Ela disse.

Minha mente estava confusa e demorarei a concatenar as ideias, quando, finalmente, a ficha caiu.

- Mas quem é você? O que você quer?
- Eu já disse: vim te buscar.
- Mas quem diabos é você?
- E isso importa?
-  Mas é claro que importa! Então, eu acordo com uma mulher, que eu nunca vi na vida, me olhando, tomo um susto, ela me pergunta algo que não faz o menor sentido... Quer dizer, acho que disse... e ainda tenho que encarar isso como uma coisa normal?
- Eu sempre venho.

Ela tinha feições de menina, usava uma roupa estranha, como se fosse um vestido de escamas brilhantes, que cintilavam as cores do arco-íris.

Quando dei por mim, já havia levantado e caminhava a seu lado pela areia da praia.

- Preciso entender tudo isso, balbuciei.
-  Você está morrendo. - Disse-me ela. - Escutei o lamento e a revolta em teu coração. Então, resolvi que era hora de vir.
- Você, por acaso, é a morte?
- Não. A morte é bem diferente de mim. À vi poucas vezes.

Achei aquilo tudo ridículo e tive vontade de expulsá-la, mas não consegui. Havia algo de muito mais importante naquele momento e que eu não sabia dizer ou entender realmente o que era.

- Então, quem é você?
- A última amiga que te sobrou, depois que você afastou todos os outros.
- Mas eu nem te conheço.
- Não importa agora, não é mesmo?

Pensei por uns instantes. Era mesmo. Não importava. De certa forma, até estava apreciando aquele momento de realidade desalinhada.
Caminhamos pela areia sob a luz da lua, em silêncio, então; apenas apreciando a companhia um do outro.
E esta é a última lembrança que eu tenho, de quando ainda era humano.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Titi Fux e A Barraca Voadora - Degustação Grátis!

É isso aí, gente! Já está disponível a versão digital de meu novo livro - meu primeiro infanto-juvenil! - na Amazon.com.

Segue abaixo, uma canjinha para quem gosta de dar uma "folheada", antes de adquirir:



quinta-feira, 20 de abril de 2017

3 Razões para Você Ler Mais, Mesmo Sendo de Exatas

Era uma típica aula prática de Programação: os alunos, sentados nos seus computadores, tinham uma lista de problemas para resolver enquanto eu circulava pela sala, ajudando-os com as dúvidas que iam surgindo.

Eis que um dos alunos, um bom aluno, me chama e pergunta: professora, não entendi a questão 17, pode me explicar?

Brinquei com ele que eu não tinha memória de elefante, e não sabia de cabeça qual era a questão 17 da lista. Fui até ele, peguei a apostila e comecei a ler em voz alta o enunciado que tinha umas cinco linhas de texto. Quando eu terminei a leitura, o aluno fez cara de quem foi atingido por um raio de luz e declarou: “Ah, agora entendi!” E começou a escrever o programa para resolver o problema.

– “Como assim, entendeu? Eu só li o problema, nem comecei a explicar…”

Uma fração de segundo depois, quem foi atingida por um raio fui eu: tinha me dado conta de que o que ele não tinha entendido era o texto, e não o problema em si! Uma vez que eu fiz a leitura em voz alta, ele entendeu claramente o que dizia ali e o que era para fazer. Ou seja, o rapaz – um estudante universitário fazendo um curso concorrido de uma instituição pública de ensino superior – tinha um sério problema de leitura.

Este é um exemplo extremo, mas o problema não é tão incomum. E não é que os meus alunos fossem particularmente problemáticos. A pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, encomendada ao IBOPE pela Instituto Pró-livro, indica que o brasileiro lê menos de dois livros a cada três meses. E este número inclui livros apenas parcialmente lidos E livros didáticos.

Ora, a gente sabe que a “galera de humanas” naturalmente puxa essa média para cima… Daí dá para imaginar que o estado das coisas entre a turma de exatas é ainda mais dramático.

Além do aluno da história acima, não foram raros os casos de alunos fazendo careta toda vez que se deparavam com aqueles problemas “com história”. Qualquer coisa que não fosse no formato “resolva a equação abaixo” era visto com medo e até um certo ressentimento.

Entretanto, a leitura correta dos enunciados de questões de prova é o menor dos problemas de um futuro Engenheiro. Por isso, vou contar três motivos para você ler mais e aprimorar esta habilidade fundamental, mesmo você sendo de Exatas até a raiz dos cabelos… Claro que existe muito mais razões para ler que estas, mas será que você já tinha pensado nestas três?

Razão #1: Você gosta de ler

Dizer que não gosta de ler é como dizer que não gosta de garfo e faca. Simplesmente não faz sentido algum!

Ler é meramente uma ferramenta para você atingir um fim. Você pode gostar de carne assada e não gostar de abóbora, mas o garfo e a faca não tem absolutamente nada a ver com isso.

Do mesmo jeito, você pode até não gostar de ler romances do século XIX, mas com certeza tem algum assunto no qual você tem um interesse mais intenso.

Suponha que o seu interesse mais imediato é encontrar uma namorada ou namorado. Nada a ver com leitura, certo? No entanto, se o seu melhor amigo disser para você que tem um livro que ensina uma receita infalível para conquistar qualquer pessoa que você queira, você vai ler o livro ou não?

Ok, talvez este exemplo tenha sido meio apelativo…

Então você quer mais uma prova de que você gosta de ler? Bem, você chegou até aqui neste texto. Provavelmente o texto chamou a sua atenção o suficiente para que você nem pensasse no “esforço” necessário para ler as mais de 650 palavras do artigo até o momento…

Tem um detalhe nisto tudo que pode explicar o seu pouco apetite para os livros: uma faca cega pode arruinar o seu almoço, principalmente se você estiver com fome. Neste caso, a faca deixa de ser coadjuvante da refeição e vira o centro das atenções, de uma forma nada positiva para ela (a faca). De repente, você passa a verdadeiramente odiar todas as facas.

O mesmo acontece se a sua leitura for lenta demais. Ler muito devagar é como comer com uma faca cega: incrivelmente irritante e frustrante.

A solução é aprender a ler mais rápido. E ao contrário do que você pode estar imaginando, ler mais rápido (na verdade, muito mais rápido) não só é perfeitamente possível como pode ajudar você entender bem melhor aquilo que lê. Confira por você mesmo.

Razão #2: Você não quer um cérebro atrofiado

Tenho certeza de que todo mundo na sua família acha você inteligente, provavelmente mais inteligente que a maioria dos mortais, pelo simples fato de você ser de Exatas. É justo: qualquer pessoa que enfrente toda aquela matemática por vontade própria merece um crédito extra!

Agora, cá entre nós, o cérebro humano precisa de variedade. A neurociência comprova que as atividades que mais ajudam o cérebro a se manter afiado são aquelas que envolvem novos aprendizados. Quanto mais diferente daquilo que você está acostumado, melhor.

Ou seja, se você ficar só na sua zona de conforto, mesmo que seu conforto esteja em fazer cálculos complicados para a maioria das outras pessoas, você está deixando o seu cérebro atrofiar em algum aspecto.

Assustador?

Tudo bem. Você pode começar a mudar isso agora, e aprender a ler de um jeito novo (e muito mais veloz)?

Gente e diversão: dois motivos em um

Você pode adorar aquelas equações, mas na vida real quase ninguém está realmente interessado nisto. Se esse fato é chocante ou irritante para você, talvez você esteja precisando desenvolver sua capacidade para a empatia.

A empatia é a habilidade de se colocar no lugar de outra pessoa e entender o ponto de vista dela, mesmo que ele seja diferente do seu.

Uma excelente maneira de aprender sobre as diferentes formas de se enxergar a vida é através da leitura. Ler sobre pessoas diferentes de você, vivendo em outras épocas, participando de diferentes grupos sociais e passando por experiências que talvez você nunca tenha a chance de passar, dá a você uma dimensão muito mais rica do ser humano.

Só esteja ciente de que você pode acabar com uma enorme vontade de interagir com pessoas diferentes e viver algumas experiências mais variadas, mesmo incluindo pessoas que não são de Exatas!

Neste caso, um pouco de cultura geral pode ajudar a manter as conversas interessantes. E onde mais você vai conseguir uma cultura geral, se não for nos livros? (saber todos os nomes dos participantes do último BBB não vale, ok?)

Você não precisa ler tratados de Filosofia para ter uma cultura geral acima da média. Pelo contrário, você pode aprender se divertindo. Por exemplo, dá para descobrir um bocado sobre a história da França de Napoleão lendo a biografia de Josefina. E de bônus você ainda vai rir um bocado com a peripécias sexuais da alta classe francesa da época.

Ana Lopes
Doutora em Ciência da Computação pela UFMG e ex-professora universitária, a autora do blog Mais Aprendizagem tem como missão ensinar e divulgar métodos de aprendizagem que trabalhem em cooperação com o funcionamento do cérebro, e prepare cada ser humano para brilhar em plenitude no século XXI.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

A Última Aventura


Do alto da torre mais alta de seu castelo, ele olhava impávido o cintilar das milhares de estrelas da via láctea, que refletiam em seu olhar vítreo e inumano, onde difícil se tornava vislumbrar razão ou insanidade; qualquer conflito. Nada. Apenas o cintilar estelar.

Moveu-se lentamente, sentando-se sobre o telhado. O vento frio sé era percebido pelo balanço de seus cabelos longos, lisos e brancos.

Cruzadores atravessavam de um lado para o outro, na órbita do velho planeta. Ele não os via, mas sabia que estavam lá, silenciosamente deslizando na negritude celeste, prontos para a guerra, numa época onde não existiam mais guerras. Os conflitos exteriores do ego há muito haviam sido substituídos pelos conflitos internos. As frivolidades da personalidade já não pertenciam à abrangente realidade do mundo interior. Fora um caminho difícil até ali. Fora necessário muito desprendimento, cujo preço fora o sofrimento individual, a luta contra a abstinência dos desejos eternamente insatisfeitos e que precisavam ser abandonados.

A última guerra foi travada e toda a história tomou um novo rumo.

Cidades caíram e foram reconstruídas da forma correta. Algumas nem mesmo reconstruídas foram, sendo devidamente substituídas pela arte sublime da natureza.

Por trás de seu vítreo olhar, as emoções deslizavam suaves entre um estado e outro de pura tranquilidade e ausência de qualquer descompensação.

O planeta mudara, porque os seres humanos mudaram. Resistiram até o cansaço, mas finalmente mudaram.

As estrelas cintilavam em seu olhar, mas ele não as via. Toda sua atenção estava em sentir. Há muito tempo haviam descoberto que o importante não era ver ou fazer, mas apenas sentir. Sinta! - Dizia seu velho amigo e mestre. Ah! Quanto tempo levou para que finalmente o escutasse com a alma e compreendesse a profundidade do que lhe dizia!

Há muito, deuses e qualquer definição de Deus deixara de ter importância; o sentir dera novos rumos à compreensão do universo e o quanto isso implicava no entendimento de si mesmo. O segredo era sentir. Não era propriamente um segredo, mas até então, todos procuravam viver suas vidas como se o sentir não fosse importante. Talvez, porque realmente não alcançassem o significado absoluto de sentir.

Pequenos bólidos em chamas cruzavam a abóbada celeste vez ou outra, queimando em seu atrevimento por chegarem tão próximos da atmosfera.

Deitou-se sobre as telhas frias para aliviar o pescoço e as costas, que começavam a doer.

Pensou por um momento na possibilidade de não existir. Não estava triste nem nada, apenas pensou em como seria interessante, se simplesmente deixasse de existir. Qual deveria ser a sensação?

Sentiu no peito o chamado da aventura. Um pequeno tremer dos lábios denunciou a ousadia de um pequeno sorriso.

Respirou fundo e, fechando os olhos, simplesmente não estava mais lá.

O vento continuou soprando frio; único som furtivo da noite. E as estrelas continuaram a cintilar no firmamento da noite sem fim.


quarta-feira, 5 de abril de 2017

Sob A Luz do Deserto


A primeira coisa de que me lembro é o sol quente queimando meu rosto e ofuscando minha vista. Meus pés doíam, como se eu já tivesse andado por quilômetros. Pois é, esta é a questão, eu não me lembrava de nada.

A pior coisa que pode acontecer com alguém é não lembra-se de nada. Acrescenta-se a isso um imenso deserto, que bem poderia estar em qualquer parte e pronto! A receita perfeita para a melhor – ou pior! - forma de estar perdido.

A questão era grave. O fato é que, não bastasse não ter a mínima ideia de onde estava e de como fora parar ali, também não lembrava sequer quem eu era. Nada. Nenhum resquício de qualquer lembrança que me ajudasse a ter uma pista de quem era esse ambulante cercado de todos os lados por um imenso deserto.

Estava tão cansado… Sentia dores localizadas em diversas partes do corpo. Em algumas delas acompanhavam manchas arroxeadas. 

Como diabos eu fora parar ali? E por que?

Quem era eu?

E se eu fora colocado ali para morrer? De repente, vai ver eu tinha me metido com algum tipo de máfia e que agora me cobrava o preço de alguma atitude imbecil.

Não dava. Qualquer história poderia preencher a lacuna, mas nenhuma delas fazia qualquer sentido.   Aliás, não creio que qualquer coisa possa fazer algum sentido, quando não se sabe sequer o próprio nome.

Continuei andando. Não me restavam muitas opções. Ou eu continuava andando, ou ficava ali, torrando naquele sol insuportável.

Havia alguns amontoados de rocha não muito distantes e que poderiam me oferecer alguma sombra, pelo menos enquanto o sol estivesse a pino.

Não foi difícil encontrar uma fenda com alguma sombra. Não era lá essas coisas, mas era profunda o bastante para proteger-me do calor excessivo e estava bom assim. Era isso, ou o sol queimando a “mufa”.

Tentei lembrar alguma coia, forçando a memória, mas o máximo que consegui foram pequenos flashes sem sentido.

Fiquei ali, esperando o sol baixar um pouco e descansando meus pés, os quais já libertara dos sapatos.

Por algum tempo tentei lembrar de alguma coisa, mas logo percebi que fazer força não era o melhor caminho; o único resultado foi uma dor de cabeça bem chatinha, que veio se juntar aos demais incômodos que me torturavam lentamente.

O silêncio, que muitas vezes almejamos, tornava-se supremo naquele meio de nada. Sua supremacia era tão poderosa, que chegava a incomodar; não havia o mais simples ruído. Nada. Mas eu estava tão cansado e incomodado com o calor, que mesmo opressor, o silêncio fazia parte do refrigério proporcionado por aquele buraco sombreado na rocha.

Procurei relaxar ao máximo para aproveitar e tentar recuperar as forças. Estranhamente não estava com sede. Fechei os olhos e concentrei-me no vai e vem da respiração.


Acordei sobressaltado com um uivo distante que, à princípio, não tive certeza se fora parte de um sonho, ou realmente acontecera; mas, em seguida, novo uivo veio a confirmar a realidade.

Levantei-me com certa dificuldade, sentindo algumas dores nas articulações; nada anormal; aquela fenda estava muito distante do conceito de cama.

O deserto permanecia silencioso, a não ser pelo ocasional uivo do coiote.

Continuava sem lembranças. Nem flashes, nem nada. O sono não gerou sonhos que pudessem me dar uma pista.

A noite estava escura, muito escura. A via-láctea enfeitava o céu, como uma pintura de Van Gogh.

Notei que estava sentindo frio, não pela sensação em si, que ainda não tinha dado-me conta, mas porque minhas mãos e meus lábios tremiam, o que logo se espalhou por todo o corpo.

Esfreguei os braços procurando algum alívio, enquanto olhava ao redor, tentando identificar algum graveto, já pensando em acender uma fogueira, mas a noite estava escura demais e mal podia ver minhas próprias mãos diante do rosto.

Comecei a saltitar na esperança de que o exercício gerasse algum calor, mas o frio era muito intenso e logo ainda estava gelado e, agora, também cansado. 

Estava consciente de que precisava fazer alguma coisa, ou aquela noite seria minha última noite, mas não conseguia pensar direito; o frio estava avançando rapidamente.

Caí de joelhos.

A respiração estava difícil.

Senti algo chocar-se contra meu corpo. Alguma animal, talvez…

Algo arranhava meu rosto. Parecia… areia. Dei-me conta de que nada se chocara realmente contra mim; tomado pelo frio devorador, não me dei conta de que caíra de vez. O baque que senti fora de meu corpo atingindo o solo arenoso.

Estava morrendo.

Já quase não sentia meu próprio corpo. Começava a entrar num estado, onde as coisas eram incertas e já não sabia se dormia ou delirava. Não dava para confiar mais em meus sentidos.

Uma luz… Talvez. Não sabia. Talvez estivesse delirando de fato.

Uma sombra na luz; uma mancha crescente; algo disforme e crescente.

Já não conseguia manter os olhos abertos. Piscava lentamente.

A mancha escura crescia na luz, tomando finalmente forma. Parecia alguém, um ser humano que se aproximava.

Senti-me flutuar. Já não sentia a areia no rosto.

Movimento. Delirava? Não. Movimento, sim.

Ah… Tanto sono…

Não resisti. Mergulhei na escuridão. Perdi os sentidos.


Vozes.

Não entendo o que dizem.

Alguém me observa. Não consigo ver direito; parece um sonho. Imagens vem desconexas, formando histórias absurdas em minha mente delirante.

Não sei quanto tempo fiquei assim, perdido entre sonho e consciência. Nada fazia sentido. Eu só queria que esta confusão dispersasse e pudesse dormir em paz, sem delírios, sem sonhos. Nada.

- Você ficará bem. - Alguém disse. Ou pareceu dizer.

Voltei à escuridão do sono profundo.

Senti um suave carinho em meu rosto, cujo frescor era alento delicioso. Tive receio de abrir os olhos e tudo parar, mas a curiosidade falou mais alto.

Deitado numa chaise, era acariciado pela suave brisa, cujo perfume era indefinível. Ao meu redor, uma enorme varanda de detalhados e delicados afrescos. Diante de mim, uma visão exuberante de enormes fiordes decorados de inúmeras e distantes cachoeiras, cujas águas atiravam-se vertiginosa e lentamente rocha abaixo.

Uma mesa de cristal estendia-se a meu lado, repleta de diversas frutas e iguarias que não conhecia.

Lembrei-me do deserto e pareceu-me uma lembrança distante. Apenas uma lembrança.

Um repentino esvoaçar de seda, porém suave e harmonioso em seus movimentos, prenunciou a chegada sobrenatural de uma linda mulher, mas que não parecia uma mulher com se espera. Sua pele extremamente branca e delicada, seus olhos de um tênue azul quase branco e seu sorriso confortador, emoldurados por comprida e sedosa cabeleira branca como a neve, davam-lhe o aspecto de um anjo ou uma deusa de um panteão há muito esquecido pelos homens.

Ela segurou meu rosto estático, numa expressão de fascínio, entre suas delicadas mãos e seu olhar pareceu penetrar-me os mais profundos recônditos de minha alma.

 – Joriel… Que estrela te mantém cativo do véu de Ísis?

Eu não sabia o que dizer. Mergulhado entre fascínio e confusão, mal conseguia discernir as coisas, entào não havia como escolher palavra; apenas continuei olhando em seus tenros olhos.

 – Não importa, por hora. Fico feliz em recebê-lo de volta de teu exílio.

Ela abraçou-me e tudo mais não importava. Senti-me envolto pelo total conforto, que preencheu-me até a alma e que somente o amor verdadeiro torna possível.

E já não importavam desertos, memórias, nomes… Já não importavam vida ou morte. Eu só queria continuar ali, no aconchego daquele abraço atemporal, como se o fim fosse apenas uma quimera e aquele momento jamais se perdesse no tempo.

quinta-feira, 16 de março de 2017

SOMBRIOS MOMENTOS INFANTIS

Ela entrou no ônibus como comumente fazem as pessoas. Pagou como todo mundo e sentou-se.

Confesso que, a princípio, nada despertara minha atenção para aquela senhorinha. Estava entretido entre a paisagem a deslizar pela janela e os raios de sol que repetidamente ofuscavam-me a visão. Mas, assim que o estalo da roleta anunciou sua passagem, voltei-me para ela inadvertidamente, levado por uma força imperceptível de alguém que olha apenas por querer experimentar outra paisagem. Foi então que nossos olhares se cruzaram e um cintilar diferente prendeu minha atenção. No mesmo instante, certo incômodo percorreu meu íntimo; uma sensação de perigo e, ao mesmo tempo, como se um magnetismo sobrenatural e até agradável me impedisse de desviar o olhar.

Ela foi quem desviou o olhar primeiro. Sentou-se e deu uma rápida olhada inexpressiva, voltando a olhar para a frente.

Não estava realmente nervoso, mas podia sentir o ritmo diferenciado de meu coração dentro do peito. 

Tentava disfarçar, mas meus olhos acabavam incontrolavelmente voltando para ela.

Procurava dizer-me silenciosamente que minha preocupação era absurda e que minha reação a uma simples senhora, num momento comum do cotidiano, beirava a insanidade. No entanto, era impossível ignorar a estranha sensação de alerta, que fugia-me à compreensão. Não havia nada de extraordinário nela; até mesmo sua vestimenta era bem simples e nada extravagante.

Fiquei ali, observando e desviando o olhar, não sem grande esforço, na tentativa inútil de parecer natural.

Um vendedor ambulante entrou e começou a anunciar monotonamente seus produtos comestíveis e industriais, como se fossem a nova maravilha da alimentação, cuja a qualidade de distrair-nos a viagem fosse razão suficiente para ignorarmos os corantes, conservantes, estabilizadores e aromas artificiais – quase todos cancerígenos – e adquiríssemos um dos pacotes vendidos.

Ela o ignorou completamente. No entanto, olhou-me como sentindo-se e invadida. Apertou os olhos como fazem os felinos quando estão incomodados e voltou-se novamente para a frente.

Congelei.

- Mas que diabos! - Engoli em seco e comecei a sentir medo. Passei a pensar na possibilidade de descer em qualquer ponto, mesmo que ainda estivesse bem longe de meu destino. Em minha mente se estabelecia um conflito entre razão e um estado de quase pânico, onde a insanidade começava a sustentar um papel preponderantemente anarquista.

O que era aquilo? Por que estava me sentindo daquele jeito? Afinal, era somente uma senhora nada ameaçadora; não estava com uma faca na mão, em um lugar suspeitoso, mas sim, dentro de um ônibus e rodeados por outras tantas pessoas! Mas minha mente permanecia cativa de uma inquietude incontrolável, deixando-me todos os sentidos à flor da pele. 

Chamei o vendedor ambulante e comprei um saco de balas. Talvez o açúcar me ajudasse a acalmar os nervos, o que não estava conseguindo fazer sozinho.

Ela olhou-me novamente de rabo de olho, como se sentisse tudo o que se passava em minha mente desequilibrada.

Voltou a olhar para a frente.

Segurou na alça do banco da frente e, com um impulso, pôs-se de pé. Virou-se lentamente, enquanto ajeitava-se e veio caminhando pelo corredor, em minha direção.

Comecei a suar frio. 

Meu coração mantinha-se acelerado, como o rufar de mil tambores em uníssono que só eu ouvia, mas parecia tão alto, que todos bem poderiam estar escutando.

Ela veio andando e passou por mim lentamente. Parecia-me uma eternidade.

Assim que ela passou, foi como se o tempo parasse. Será que ela teria passado e seguido até o final do corredor, descendo do ônibus, ou parara atrás de mim, tornando-me a vítima perfeita e sem qualquer possibilidade de reação de seja lá quais fossem seus planos obscuros e, talvez, terríveis?

Embora apenas alguns segundos tivessem passado, a eternidade se estendia em meus sentidos, feito um carrasco entre o levantar do machado e o ocaso fatal.

Aquele suplício não poderia continuar. Então, tomei a coragem que, aparentemente, eu não tinha e virei o rosto, torcendo o corpo em seguida, procurando alcançar com a vista, o fundo do ônibus. Olhei cada pessoa sentada e em pé, vasculhando cada feição, cada vão que pudesse estar fora do meu campo de visão.

Nada.

Respirei tão profunda e ruidosamente que, acho, todos no ônibus perceberam, muito embora não pudessem compreender e nem se importassem de fato.

Voltei-me novamente para a frente aliviado. Ela descera.

Fui acalmando-me aos poucos, até que comecei a duvidar de minha própria sanidade e a rir de mim mesmo. O que fora aquele inusitado repente de loucura? Mas, então, relembrei a estranha sensação que senti, quando a senhora entrara no ônibus; seu olhar que parecia prescrutar minha alma. Fiquei sério e pensativo.

Há momentos em nossas vidas, onde tudo parece tão normal quanto sempre foi, até que, por um descuido qualquer do destino, ou por seu puro deleite, como se fosse uma entidade consciente e quisesse divertir-se conosco, deixasse que universos diferentes atravessassem uma encruzilhada no mesmo instante, nos atirando como atores num palco de vida e morte, onde nos tornamos derradeiros personagens tão infantis quanto sombrios. E sem que percebamos, somos às vezes lobo e outras vezes, chapeuzinho vermelho.

A.Zimmer

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Um pedacinho do livro que estou escrevendo...

Primeiras lembranças...

Por quantos anos os sonhos perduraram, atravessando desafiadoramente nuvens e hálitos de dias funestos? Quantas palavras, dissertações e silenciosos olhares eternizaram a perfeita cumplicidade inigualável e absoluta? Quantos desejos não foram apaziguados na cama perfeita, nas luzes de dias perfeitos, na companhia simples e perfeita? 

Os anos passam rápidos e, de repente, abrimos os olhos e mais nada parece como antes, como se o tempo voasse além de nosso alcance no ínfimo fechar e abrir de pálpebras. E a inevitável certeza do agora que logo passa, é o que resta para nos trazer de volta a solidão imposta, como se a felicidade tivesse que ser compensada com o isolamento de tudo quanto foi o mais importante.

A despedida não é algo fácil, mas a aceitação de seguir em frente é a pior dor de todas, quando se segue então sozinho.

Faz dez anos que ela se foi e, ainda assim, permanece a dificuldade de aceitar o eco de sua voz, como um suspiro sutil, que parece passear por todos os cômodos da velha casa, explorando possibilidades de trazer de volta o passado, quando em realidade é apenas um reflexo de lembrança que escapa à sanidade e resvala pela mente distraída, dando a impressão da atemporalidade, como se nada tivesse mudado, fazendo-nos esquecer a realidade presente e reviver o amor tão vivaz quanto a realidade do passado que se foi.

A casa já não tem a vivacidade de antes. Os móveis continuam nos mesmos lugares, mas já não se tem forças para subir as velhas escadas em caracol, que leva até a suíte de tantos sonhos, tantos momentos inesquecíveis. Melhor assim. Já é bastante difícil conviver com as muitas lembranças que o resto da casa amotina-se contra mim. 

O tempo passou e muita coisa mudou nestes dez anos. O velho carro continua na garagem, sem utilidade. Um bibelô, uma lembrança dos tempos de motores a explosão e a necessidade de veículos para se transportar de um lugar a outro. Os tempos são outros. As ruas são dos pedestres que vejo através das vidraças empoeiradas, quando me animo a olhar para o mundo lá fora. Os meios de transporte usuais ficaram obsoletos. Apenas eu permaneço aqui, isolado do presente, numa vã tentativa de perpetuar o passado, em nome de um amor que teima em não morrer. Talvez só minha morte possa devorar a ânsia inesgotável deste sentimento que perdura, que insiste em me acompanhar. Oh! Como leviano me tornei. Rio de minhas próprias lamentações, quando meu único desejo é manter esta chama dentro de mim indefinidamente, posto que sua luz ilumina o que me resta de sã consciência. 

Como me fazes falta, minha querida...


segunda-feira, 12 de setembro de 2016

O Menino Triste


Por Alexander Zimmer

Neste domingo de manhã, eu vi um menininho em frente de minha casa. Enquanto outras crianças brincavam, ele estava triste e sentado num canto. Cheguei perto e sentei do seu lado.

Respeitei seu silêncio por um instante e depois perguntei porque ele estava triste. Ele pensou um pouco, talvez se deveria falar ou não, até que balbuciou que, na noite anterior tinha sido a festa de 15 anos de uma amiga que ele não via há algum tempo, pois mudara de colégio; mas eles se falavam de vez em quando.

Esperei ele continuar, mas ele não continuou. Então resolvi perguntar qual o problema; se tinha acontecido alguma coisa de ruim com ele na festa. Foi aí, que sua resposta me fez entender, no mesmo instante, o que ele realmente estava sentido.

- Eu não fui convidado. Um monte de gente foi, mas ela não me convidou.

E então, percebi que lágrimas escorriam de seus olhinhos e lavavam seu pequeno rostinho. Pensei por um instante e, colocando-me em seu lugar, senti-me do mesmo jeito que ele estava se sentindo. Olhei, então, para aquele menininho encolhido do meu lado e, chegando mais perto o abracei, dizendo:

- Está tudo bem. Às vezes, as pessoas esquecem dos amigos, mas não é porque são pessoas más; elas só ainda não sabem a importância que pessoas como nós, dão aqueles que amamos. E isso acontece, porque elas ainda não sabem o que é o amor de verdade; elas ainda estão aprendendo.
- Mas eu estou muito triste, por causa disso. - Ele disse.
- Eu entendo. Eu também fico triste, às vezes. Mas tento entendê-las. Afinal, elas precisam mais de amor do que a gente, pois a gente sabe a importância de cada pessoa que passa por nossas vidas; nós nos preocupamos em fazê-las felizes, pois isso nos deixa felizes também.
- É... Acho que sim. Nunca tinha pensado nisso. - Ele balbuciou.
- Então... Um dia, elas vão aprender a dar importância às pequenas coisas e, percebendo que é através delas que demonstramos o carinho que temos pelos outros, elas vão passar a tomar mais cuidado em não esquecer os amigos... Você parece ser um bom garoto. Não deixe que essa mágoa faça você perder a fé nas pessoas. Elas também estão aprendendo sobre a vida, assim como a gente. Perdoe-as e siga em frente, sendo sempre bom e carinhoso com elas, porque você está no caminho certo. Quem sabe, elas não aprendem mais fácil, de tanto observarem que você não desiste de ser uma pessoa boa e amorosa?
- Será? - Disse-me ele, já limpando as lágrimas do rosto.
- Sim, claro! Afinal, o caminho certo é sempre o caminho do bem, o caminho do amor e da compreensão.

Ele pensou durante algum tempo, enquanto olhava para o vazio. De repente, seu rosto se iluminou e ele abriu um sorriso, voltando-se para mim.

- Obrigado, moço. Vou fazer o que o senhor disse. Tchau!

Então, ele saiu correndo em direção às outras crianças, que brincavam na esquina da rua.

Levantei-me e, olhando para o azul infinito e profundo do céu daquela manhã de domingo, senti-me feliz, pois, naquele exato instante, tive a plena certeza de que nunca houve qualquer distância entre cada um de nós e o Universo. Tudo nunca fez tanto sentido, como naquele pequeno momento.


segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Crônicas de Luz & Trevas - O Contrato - Parte Final


Anne chegou ao Conselho de Vidas e aguardou ser chamada, o que não demorou muito. Uma senhora usando um longo sarau fez sinal para que Ela a acompanhasse. As duas atravessaram um pequeno corredor semitranslúcido, cujo através das paredes se podiam ver vultos brancos de outros habitantes realizando suas tarefas, fossem quais fossem.

Saíram num salão maior onde, através de um projetor holográfico alguém era examinado. Sobre uma mesa que parecia muito confortável estava uma mulher, ou melhor, um espírito de mulher que parecia muito cansado e sofrido. Parou para observar, pois achou aquilo tudo realmente impressionante. A tecnologia devia ser dezenas de anos à frente da tecnologia dos encarnados. 

A senhora de sarau parou, assim que percebeu que Anne deixara de segui-la, para observar o trabalho no salão. Voltando em sua direção, sorriu muito amorosamente.

- É realmente maravilhoso, não é?
- Sim… É espetacular. Se existisse esta tecnologia na Terra, tudo seria mais fácil. As doenças poderiam ser tratadas antes mesmo de desenvolverem-se e provocarem tanto sofrimento.
- Sim. E verdade. Mas um dia ela chegará para os encarnados; tudo a seu tempo.
- Quem é esta pessoa que está deitada? Pelo que vejo no holograma, parece que ela tem um problema grave na região da barriga.
- Observaste bem, Anne. Essa é Rosana. Ela acabou de ser resgatada; fez o translado a poucas horas e não precisou ficar muito tempo nas regiões umbralinas, pois apesar dos conflitos de atitudes a que está sujeito todo espírito encarnado, ela não foi uma má pessoa e muito se sacrificou para que as pessoas ao seu redor tivessem uma vida relativamente confortável, muito embora não fosse uma pessoa de vida abastada. Ela está passando por uma análise preliminar, antes de ser levada ao devido tratamento de recuperação. Como bem observou, ela teve complicações intestinais, que acabaram por levá-la ao momento crucial.
- Mas as pessoas não tem um momento certo para o translado? Essa doença…
- Sim. A doença foi uma consequência de certos excessos muito comuns aos encarnados, mas nada sem exageros que a comprometessem; foram exageros ligados a costumes do cotidiano, mas que ela desconhecia as consequências, por ser muito comum.
- Entendo. Coisas que a gente faz como normais, mas que nos afetam sem que tenhamos conhecimento de que isso é prejudicial, não é?
- Exatamente. Esta é uma questão de conhecimento científico que promova uma mudança de hábitos. No entanto, tudo isso tem seu tempo. Podemos seguir?
- Sim, claro.

Ambas seguiram então para a outra extremidade da sala, atravessando um portal e entrando em outro ambiente, onde um jovem senhor a recebeu com um sorriso carinhoso.

- Seja bem-vinda, Anne. Já faz algum tempo que espero tua vinda. Meu nome é Asclépios.
- Obrigado. Desculpe pela demora.
- Oh, querida! Não precisa se desculpar. Compreendo perfeitamente. Todos nós precisamos de um tempo para entender e tirar nossas próprias conclusões.
- Então o senhor já sabe porque estou aqui, não é?
- Sim, Anne.  Apesar de feliz por tua decisão, devo adverti-la que este tempo longo fora do corpo teve algumas consequências, sobretudo pela condição em que ele se encontra.
- Como assim? Aconteceu alguma coisa de grave com meu corpo?
- Não, querida. Ele está em perfeito estado. No entanto, ele encontra-se numa condição muito peculiar e teremos que tomar algumas medidas fora do comum, para que teu retorno não seja tão doloroso.
- Não sei se compreendo…
- Já te explico. Venha até aqui comigo. Te mostrarei através deste monitor remoto, onde ele se encontra e em que situação, para que fique mais fácil a tua compreensão do caso em questão.

Anne se aproximou de um painel que parecia ser uma continuidade da parede. Assim que Asclépios tocou a superfície do painel, algumas luzes suaves acenderam-se ao seu toque. No mesmo instante uma imagem enorme tomou forma no ar, diante de seus olhos. Uma cápsula enorme como um sarcófago, no entanto era de metal e cheia de conexões, tubos, um pequeno painel digital e uma janela de vidro, onde ela pôde vislumbrar seu próprio corpo em profundo sono.

- Asclépios, o que é isso? Onde está meu corpo? Lembro de uns últimos momentos em Shambala, junto aos monges… Onde ele está? Eles o levaram para a caverna dos Antigos?
- Não, Anne. Seu corpo não está em Shambala. Apesar de todo o conhecimento e experiência de Shambala, eles não perceberam que você ainda vivia, porém num âmbito muito sutil, tanto que a aparência era de que seu corpo estava morto. Diante desta situação, Helena tomou todas as providências para que você fosse sepultada de acordo com os costumes ocidentais, mesmo que o solo do Tibet seja extremamente rochoso.
- Eles me enterraram? - Disse Anne um pouco atônita.
- Sim, mas teu corpo não permaneceu lá por muito tempo. Os militares que você enfrentou, depositaram um localizador sobre tua pele e, assim que teus sinais vitais começaram a recobrar a normalidade, o pequeno aparato tecnológico começou a emitir um sinal, que acabou por levá-los até a recente sepultura. Eles então resgataram teu corpo e o colocaram nesta câmara de hibernação criogênica. Neste momento, teu corpo está em poder destes militares, numa base secreta.
- Mas eu posso voltar, não posso?
- Sim. No entanto, como havia te dito, estamos tomando algumas providências para que o processo não seja tão doloroso para ti, porém, você sentirá alguma dor no retorno, por conta do congelamento.
- O que exatamente vocês estão fazendo?
- Estamos usando o entrelaçamento quântico para mudar a distribuição energética da câmara, o que fará com que a frequência vibratória elétrica mude drasticamente, desconfigurando os nanotransistores da câmara, incapacitando-a de continuar funcionando. Isso fará com que o degelo seja mais rápido, por conta da inversão de polaridade. No entanto, você ainda sentirá os efeitos da criogenia, por conta de alguns resíduos restantes.

Anne suspirou profundamente e tentou imaginar o que faria, assim que retomasse o controle do próprio corpo. Sempre foi resistente à dor, não seria isso que a impediria. O problema era a tal base secreta. Como sairia dali, pensou.

- Não se preocupe com isso, Anne. - Disse Asclépios, lendo seus pensamentos. Nós faremos de tudo para te ajudar. Porém, não podemos interferir demais, pois este é o teu caminho e é você quem precisa tomar as decisões e as atitudes.
- Tudo bem. Não adianta eu ficar planejando muito agora. Preciso estar lá, para ver como as coisas estão. Lá, eu dou o meu jeito.
- Muito bem. Vamos nos preparar?
- Sim.
- Então venha, minha querida.

Asclépius conduziu Anne até uma mesa, onde a menina deitou-se confortavelmente. Ele acionou alguns mecanismos no painel e, logo, uma suave bruma foi se formando ao redor de Anne. Algumas cores pareciam bailar no interior da bruma, como se ela tivesse vida própria. Uma forte luz brilhou acima da mesa e um vórtice de energia se formou no ar. Anne sentiu-se tontear e achou que fosse ficar enjoada, mas a sensação, apesar de um tanto repressora, não era de todo desagradável.

O vórtice ganhou força e velocidade e Anne, como que levada pela leveza da bruma, foi suspensa no ar. Em seguida, seu corpo começou a tornar-se translúcido, até que só restassem apenas linhas de energia sutil, que foram sugadas pelo vórtice. Imediatamente tudo parou, como se nada tivesse acontecido na sala.

A mesa estava vazia.

Anne se fora.

Fim do primeiro interlúdio.

=> Acompanhe a trajetória de Anne Blind no primeiro e no segundo volume das Crônicas de Luz & Trevas:
- Anne Blind entre Luz & Trevas (à venda na Amazon.com)
- Anne Blind e a Herança Secreta. (Breve...)