Páginas

Mostrando postagens com marcador Letras. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Letras. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Câncer e Conchas


Há muito tempo que passo o início do outono na casa de praia. Na verdade, foi a única coisa que me sobrou, depois que, há alguns anos descobri que tinha câncer e, como aquela velha história de que algo ruim nunca vem sozinho, fui demitido e deixei de fazer parte do quadro de funcionários da maior empresa de telecomunicações do país.

O tempo passou e acabei torrando tudo de minha conta bancária, em duas fases de tratamento quimioterápico entremeadas por uma maldita metástase. O apartamento foi-se em seguida, para poder pagar os remédios. Então, simplesmente desisti. Numa manhã de quarta-feira, peguei algumas roupas e me mandei da cidade, dos amigos e inimigos, da minha lanchonete preferida, que ficava na esquina... Me mandei daquela vida. Faziam mais ou menos uns seis meses que morava exclusivamente aqui, na casa de praia. Saía muito pouco, apenas para comprar algum mantimento. Ficava a maior parte do dia aqui, sentado, olhando o mar.

Emagreci bastante. Acho que perdi uns quinze quilos. Não importa.

Foi num dia desses, como qualquer outro, que acabei adormecendo na cadeira de balanço, sem sequer perceber o cair da noite. A brisa fresca era um alento e ajudava a aliviar as dores. Às vezes era bem difícil, apesar da morfina e da cannabis, que ajudavam à aliviar um pouco. Nestas horas era muito difícil conciliar o sono, pois a dor diminuía, mas quase nunca ia embora totalmente. Então, tinha mesmo que aproveitar qualquer oportunidade de trégua, para desligar-me desse mundo. 

Foi numa dessas vezes que ela apareceu.

Acordei e já era noite. Pensei ter ouvido alguém falar comigo. Um destes ecos ressonando na memória de lembranças de tempos que já tinham sido esquecidos e que voltam como fantasmas a reclamar a atenção, com medo de se perderem numa eternidade sem fim.

Ainda estava sob o efeito do sono, os olhos meio secos e levei algum tempo, antes de percebê-la parada nos primeiros degraus da escada, observando-me na quase penumbra, com um suave sorriso.

Tentei falar alguma coisa, mas a voz não saiu por conta de um pigarro cretino. Pigarreei e perguntei finalmente, totalmente desconfortável com a visita inesperada. Eu não recebia visitas; eu não gostava de receber visitas.

- O que você quer?
- Eu vim te buscar. - Ela disse.

Minha mente estava confusa e demorarei a concatenar as ideias, quando, finalmente, a ficha caiu.

- Mas quem é você? O que você quer?
- Eu já disse: vim te buscar.
- Mas quem diabos é você?
- E isso importa?
-  Mas é claro que importa! Então, eu acordo com uma mulher, que eu nunca vi na vida, me olhando, tomo um susto, ela me pergunta algo que não faz o menor sentido... Quer dizer, acho que disse... e ainda tenho que encarar isso como uma coisa normal?
- Eu sempre venho.

Ela tinha feições de menina, usava uma roupa estranha, como se fosse um vestido de escamas brilhantes, que cintilavam as cores do arco-íris.

Quando dei por mim, já havia levantado e caminhava a seu lado pela areia da praia.

- Preciso entender tudo isso, balbuciei.
-  Você está morrendo. - Disse-me ela. - Escutei o lamento e a revolta em teu coração. Então, resolvi que era hora de vir.
- Você, por acaso, é a morte?
- Não. A morte é bem diferente de mim. À vi poucas vezes.

Achei aquilo tudo ridículo e tive vontade de expulsá-la, mas não consegui. Havia algo de muito mais importante naquele momento e que eu não sabia dizer ou entender realmente o que era.

- Então, quem é você?
- A última amiga que te sobrou, depois que você afastou todos os outros.
- Mas eu nem te conheço.
- Não importa agora, não é mesmo?

Pensei por uns instantes. Era mesmo. Não importava. De certa forma, até estava apreciando aquele momento de realidade desalinhada.
Caminhamos pela areia sob a luz da lua, em silêncio, então; apenas apreciando a companhia um do outro.
E esta é a última lembrança que eu tenho, de quando ainda era humano.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Titi Fux e A Barraca Voadora - Degustação Grátis!

É isso aí, gente! Já está disponível a versão digital de meu novo livro - meu primeiro infanto-juvenil! - na Amazon.com.

Segue abaixo, uma canjinha para quem gosta de dar uma "folheada", antes de adquirir:



quinta-feira, 20 de abril de 2017

3 Razões para Você Ler Mais, Mesmo Sendo de Exatas

Era uma típica aula prática de Programação: os alunos, sentados nos seus computadores, tinham uma lista de problemas para resolver enquanto eu circulava pela sala, ajudando-os com as dúvidas que iam surgindo.

Eis que um dos alunos, um bom aluno, me chama e pergunta: professora, não entendi a questão 17, pode me explicar?

Brinquei com ele que eu não tinha memória de elefante, e não sabia de cabeça qual era a questão 17 da lista. Fui até ele, peguei a apostila e comecei a ler em voz alta o enunciado que tinha umas cinco linhas de texto. Quando eu terminei a leitura, o aluno fez cara de quem foi atingido por um raio de luz e declarou: “Ah, agora entendi!” E começou a escrever o programa para resolver o problema.

– “Como assim, entendeu? Eu só li o problema, nem comecei a explicar…”

Uma fração de segundo depois, quem foi atingida por um raio fui eu: tinha me dado conta de que o que ele não tinha entendido era o texto, e não o problema em si! Uma vez que eu fiz a leitura em voz alta, ele entendeu claramente o que dizia ali e o que era para fazer. Ou seja, o rapaz – um estudante universitário fazendo um curso concorrido de uma instituição pública de ensino superior – tinha um sério problema de leitura.

Este é um exemplo extremo, mas o problema não é tão incomum. E não é que os meus alunos fossem particularmente problemáticos. A pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, encomendada ao IBOPE pela Instituto Pró-livro, indica que o brasileiro lê menos de dois livros a cada três meses. E este número inclui livros apenas parcialmente lidos E livros didáticos.

Ora, a gente sabe que a “galera de humanas” naturalmente puxa essa média para cima… Daí dá para imaginar que o estado das coisas entre a turma de exatas é ainda mais dramático.

Além do aluno da história acima, não foram raros os casos de alunos fazendo careta toda vez que se deparavam com aqueles problemas “com história”. Qualquer coisa que não fosse no formato “resolva a equação abaixo” era visto com medo e até um certo ressentimento.

Entretanto, a leitura correta dos enunciados de questões de prova é o menor dos problemas de um futuro Engenheiro. Por isso, vou contar três motivos para você ler mais e aprimorar esta habilidade fundamental, mesmo você sendo de Exatas até a raiz dos cabelos… Claro que existe muito mais razões para ler que estas, mas será que você já tinha pensado nestas três?

Razão #1: Você gosta de ler

Dizer que não gosta de ler é como dizer que não gosta de garfo e faca. Simplesmente não faz sentido algum!

Ler é meramente uma ferramenta para você atingir um fim. Você pode gostar de carne assada e não gostar de abóbora, mas o garfo e a faca não tem absolutamente nada a ver com isso.

Do mesmo jeito, você pode até não gostar de ler romances do século XIX, mas com certeza tem algum assunto no qual você tem um interesse mais intenso.

Suponha que o seu interesse mais imediato é encontrar uma namorada ou namorado. Nada a ver com leitura, certo? No entanto, se o seu melhor amigo disser para você que tem um livro que ensina uma receita infalível para conquistar qualquer pessoa que você queira, você vai ler o livro ou não?

Ok, talvez este exemplo tenha sido meio apelativo…

Então você quer mais uma prova de que você gosta de ler? Bem, você chegou até aqui neste texto. Provavelmente o texto chamou a sua atenção o suficiente para que você nem pensasse no “esforço” necessário para ler as mais de 650 palavras do artigo até o momento…

Tem um detalhe nisto tudo que pode explicar o seu pouco apetite para os livros: uma faca cega pode arruinar o seu almoço, principalmente se você estiver com fome. Neste caso, a faca deixa de ser coadjuvante da refeição e vira o centro das atenções, de uma forma nada positiva para ela (a faca). De repente, você passa a verdadeiramente odiar todas as facas.

O mesmo acontece se a sua leitura for lenta demais. Ler muito devagar é como comer com uma faca cega: incrivelmente irritante e frustrante.

A solução é aprender a ler mais rápido. E ao contrário do que você pode estar imaginando, ler mais rápido (na verdade, muito mais rápido) não só é perfeitamente possível como pode ajudar você entender bem melhor aquilo que lê. Confira por você mesmo.

Razão #2: Você não quer um cérebro atrofiado

Tenho certeza de que todo mundo na sua família acha você inteligente, provavelmente mais inteligente que a maioria dos mortais, pelo simples fato de você ser de Exatas. É justo: qualquer pessoa que enfrente toda aquela matemática por vontade própria merece um crédito extra!

Agora, cá entre nós, o cérebro humano precisa de variedade. A neurociência comprova que as atividades que mais ajudam o cérebro a se manter afiado são aquelas que envolvem novos aprendizados. Quanto mais diferente daquilo que você está acostumado, melhor.

Ou seja, se você ficar só na sua zona de conforto, mesmo que seu conforto esteja em fazer cálculos complicados para a maioria das outras pessoas, você está deixando o seu cérebro atrofiar em algum aspecto.

Assustador?

Tudo bem. Você pode começar a mudar isso agora, e aprender a ler de um jeito novo (e muito mais veloz)?

Gente e diversão: dois motivos em um

Você pode adorar aquelas equações, mas na vida real quase ninguém está realmente interessado nisto. Se esse fato é chocante ou irritante para você, talvez você esteja precisando desenvolver sua capacidade para a empatia.

A empatia é a habilidade de se colocar no lugar de outra pessoa e entender o ponto de vista dela, mesmo que ele seja diferente do seu.

Uma excelente maneira de aprender sobre as diferentes formas de se enxergar a vida é através da leitura. Ler sobre pessoas diferentes de você, vivendo em outras épocas, participando de diferentes grupos sociais e passando por experiências que talvez você nunca tenha a chance de passar, dá a você uma dimensão muito mais rica do ser humano.

Só esteja ciente de que você pode acabar com uma enorme vontade de interagir com pessoas diferentes e viver algumas experiências mais variadas, mesmo incluindo pessoas que não são de Exatas!

Neste caso, um pouco de cultura geral pode ajudar a manter as conversas interessantes. E onde mais você vai conseguir uma cultura geral, se não for nos livros? (saber todos os nomes dos participantes do último BBB não vale, ok?)

Você não precisa ler tratados de Filosofia para ter uma cultura geral acima da média. Pelo contrário, você pode aprender se divertindo. Por exemplo, dá para descobrir um bocado sobre a história da França de Napoleão lendo a biografia de Josefina. E de bônus você ainda vai rir um bocado com a peripécias sexuais da alta classe francesa da época.

Ana Lopes
Doutora em Ciência da Computação pela UFMG e ex-professora universitária, a autora do blog Mais Aprendizagem tem como missão ensinar e divulgar métodos de aprendizagem que trabalhem em cooperação com o funcionamento do cérebro, e prepare cada ser humano para brilhar em plenitude no século XXI.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

A Última Aventura


Do alto da torre mais alta de seu castelo, ele olhava impávido o cintilar das milhares de estrelas da via láctea, que refletiam em seu olhar vítreo e inumano, onde difícil se tornava vislumbrar razão ou insanidade; qualquer conflito. Nada. Apenas o cintilar estelar.

Moveu-se lentamente, sentando-se sobre o telhado. O vento frio sé era percebido pelo balanço de seus cabelos longos, lisos e brancos.

Cruzadores atravessavam de um lado para o outro, na órbita do velho planeta. Ele não os via, mas sabia que estavam lá, silenciosamente deslizando na negritude celeste, prontos para a guerra, numa época onde não existiam mais guerras. Os conflitos exteriores do ego há muito haviam sido substituídos pelos conflitos internos. As frivolidades da personalidade já não pertenciam à abrangente realidade do mundo interior. Fora um caminho difícil até ali. Fora necessário muito desprendimento, cujo preço fora o sofrimento individual, a luta contra a abstinência dos desejos eternamente insatisfeitos e que precisavam ser abandonados.

A última guerra foi travada e toda a história tomou um novo rumo.

Cidades caíram e foram reconstruídas da forma correta. Algumas nem mesmo reconstruídas foram, sendo devidamente substituídas pela arte sublime da natureza.

Por trás de seu vítreo olhar, as emoções deslizavam suaves entre um estado e outro de pura tranquilidade e ausência de qualquer descompensação.

O planeta mudara, porque os seres humanos mudaram. Resistiram até o cansaço, mas finalmente mudaram.

As estrelas cintilavam em seu olhar, mas ele não as via. Toda sua atenção estava em sentir. Há muito tempo haviam descoberto que o importante não era ver ou fazer, mas apenas sentir. Sinta! - Dizia seu velho amigo e mestre. Ah! Quanto tempo levou para que finalmente o escutasse com a alma e compreendesse a profundidade do que lhe dizia!

Há muito, deuses e qualquer definição de Deus deixara de ter importância; o sentir dera novos rumos à compreensão do universo e o quanto isso implicava no entendimento de si mesmo. O segredo era sentir. Não era propriamente um segredo, mas até então, todos procuravam viver suas vidas como se o sentir não fosse importante. Talvez, porque realmente não alcançassem o significado absoluto de sentir.

Pequenos bólidos em chamas cruzavam a abóbada celeste vez ou outra, queimando em seu atrevimento por chegarem tão próximos da atmosfera.

Deitou-se sobre as telhas frias para aliviar o pescoço e as costas, que começavam a doer.

Pensou por um momento na possibilidade de não existir. Não estava triste nem nada, apenas pensou em como seria interessante, se simplesmente deixasse de existir. Qual deveria ser a sensação?

Sentiu no peito o chamado da aventura. Um pequeno tremer dos lábios denunciou a ousadia de um pequeno sorriso.

Respirou fundo e, fechando os olhos, simplesmente não estava mais lá.

O vento continuou soprando frio; único som furtivo da noite. E as estrelas continuaram a cintilar no firmamento da noite sem fim.


terça-feira, 20 de dezembro de 2016

SONHOS

Algumas noites
Me levam as sombras
Me mostram vozes perdidas
E observo outros reinos
Passagens restritas 
Nenhuma ciência pode supor
Que sonhos façam sentido
Todas as dores de quem não vê
Seu ideal ferido 
Na luz perco a razão
Reinventando o tempo vazio
Esperando a vinda do sol
Que me leve do infinito frio 
O mar quebra na praia
Indiferente ao céu noturno
Enquanto caminho solitário
Imerso, infinito e soturno.

Olhos No Espelho

Olho-me no espelho
Vejo olhos através de olhos
Impávido fico... observando
A incerteza de ser eu.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Um pedacinho do livro que estou escrevendo...

Primeiras lembranças...

Por quantos anos os sonhos perduraram, atravessando desafiadoramente nuvens e hálitos de dias funestos? Quantas palavras, dissertações e silenciosos olhares eternizaram a perfeita cumplicidade inigualável e absoluta? Quantos desejos não foram apaziguados na cama perfeita, nas luzes de dias perfeitos, na companhia simples e perfeita? 

Os anos passam rápidos e, de repente, abrimos os olhos e mais nada parece como antes, como se o tempo voasse além de nosso alcance no ínfimo fechar e abrir de pálpebras. E a inevitável certeza do agora que logo passa, é o que resta para nos trazer de volta a solidão imposta, como se a felicidade tivesse que ser compensada com o isolamento de tudo quanto foi o mais importante.

A despedida não é algo fácil, mas a aceitação de seguir em frente é a pior dor de todas, quando se segue então sozinho.

Faz dez anos que ela se foi e, ainda assim, permanece a dificuldade de aceitar o eco de sua voz, como um suspiro sutil, que parece passear por todos os cômodos da velha casa, explorando possibilidades de trazer de volta o passado, quando em realidade é apenas um reflexo de lembrança que escapa à sanidade e resvala pela mente distraída, dando a impressão da atemporalidade, como se nada tivesse mudado, fazendo-nos esquecer a realidade presente e reviver o amor tão vivaz quanto a realidade do passado que se foi.

A casa já não tem a vivacidade de antes. Os móveis continuam nos mesmos lugares, mas já não se tem forças para subir as velhas escadas em caracol, que leva até a suíte de tantos sonhos, tantos momentos inesquecíveis. Melhor assim. Já é bastante difícil conviver com as muitas lembranças que o resto da casa amotina-se contra mim. 

O tempo passou e muita coisa mudou nestes dez anos. O velho carro continua na garagem, sem utilidade. Um bibelô, uma lembrança dos tempos de motores a explosão e a necessidade de veículos para se transportar de um lugar a outro. Os tempos são outros. As ruas são dos pedestres que vejo através das vidraças empoeiradas, quando me animo a olhar para o mundo lá fora. Os meios de transporte usuais ficaram obsoletos. Apenas eu permaneço aqui, isolado do presente, numa vã tentativa de perpetuar o passado, em nome de um amor que teima em não morrer. Talvez só minha morte possa devorar a ânsia inesgotável deste sentimento que perdura, que insiste em me acompanhar. Oh! Como leviano me tornei. Rio de minhas próprias lamentações, quando meu único desejo é manter esta chama dentro de mim indefinidamente, posto que sua luz ilumina o que me resta de sã consciência. 

Como me fazes falta, minha querida...


segunda-feira, 12 de setembro de 2016

O Menino Triste


Por Alexander Zimmer

Neste domingo de manhã, eu vi um menininho em frente de minha casa. Enquanto outras crianças brincavam, ele estava triste e sentado num canto. Cheguei perto e sentei do seu lado.

Respeitei seu silêncio por um instante e depois perguntei porque ele estava triste. Ele pensou um pouco, talvez se deveria falar ou não, até que balbuciou que, na noite anterior tinha sido a festa de 15 anos de uma amiga que ele não via há algum tempo, pois mudara de colégio; mas eles se falavam de vez em quando.

Esperei ele continuar, mas ele não continuou. Então resolvi perguntar qual o problema; se tinha acontecido alguma coisa de ruim com ele na festa. Foi aí, que sua resposta me fez entender, no mesmo instante, o que ele realmente estava sentido.

- Eu não fui convidado. Um monte de gente foi, mas ela não me convidou.

E então, percebi que lágrimas escorriam de seus olhinhos e lavavam seu pequeno rostinho. Pensei por um instante e, colocando-me em seu lugar, senti-me do mesmo jeito que ele estava se sentindo. Olhei, então, para aquele menininho encolhido do meu lado e, chegando mais perto o abracei, dizendo:

- Está tudo bem. Às vezes, as pessoas esquecem dos amigos, mas não é porque são pessoas más; elas só ainda não sabem a importância que pessoas como nós, dão aqueles que amamos. E isso acontece, porque elas ainda não sabem o que é o amor de verdade; elas ainda estão aprendendo.
- Mas eu estou muito triste, por causa disso. - Ele disse.
- Eu entendo. Eu também fico triste, às vezes. Mas tento entendê-las. Afinal, elas precisam mais de amor do que a gente, pois a gente sabe a importância de cada pessoa que passa por nossas vidas; nós nos preocupamos em fazê-las felizes, pois isso nos deixa felizes também.
- É... Acho que sim. Nunca tinha pensado nisso. - Ele balbuciou.
- Então... Um dia, elas vão aprender a dar importância às pequenas coisas e, percebendo que é através delas que demonstramos o carinho que temos pelos outros, elas vão passar a tomar mais cuidado em não esquecer os amigos... Você parece ser um bom garoto. Não deixe que essa mágoa faça você perder a fé nas pessoas. Elas também estão aprendendo sobre a vida, assim como a gente. Perdoe-as e siga em frente, sendo sempre bom e carinhoso com elas, porque você está no caminho certo. Quem sabe, elas não aprendem mais fácil, de tanto observarem que você não desiste de ser uma pessoa boa e amorosa?
- Será? - Disse-me ele, já limpando as lágrimas do rosto.
- Sim, claro! Afinal, o caminho certo é sempre o caminho do bem, o caminho do amor e da compreensão.

Ele pensou durante algum tempo, enquanto olhava para o vazio. De repente, seu rosto se iluminou e ele abriu um sorriso, voltando-se para mim.

- Obrigado, moço. Vou fazer o que o senhor disse. Tchau!

Então, ele saiu correndo em direção às outras crianças, que brincavam na esquina da rua.

Levantei-me e, olhando para o azul infinito e profundo do céu daquela manhã de domingo, senti-me feliz, pois, naquele exato instante, tive a plena certeza de que nunca houve qualquer distância entre cada um de nós e o Universo. Tudo nunca fez tanto sentido, como naquele pequeno momento.


sexta-feira, 1 de julho de 2016

Neil Gaiman - "Faça Boa Arte!"


Em 2012, Neil “Sandman” Gaiman fez um belo discurso para os formandos da Universidade de Artes da Filadélfia, que logo foi postado na internet e se espalhou, inspirando muitos jovens artistas.

Os conceitos de arte, sonhos, bravura e a luta que os artistas devem travar, segundo Gaiman, devem sempre ser inspirados pelo objetivo de fazer “boa arte”.

Assista ao discurso de Gaiman legendado.



O MAUSOLÉU


   O sol já não está tão quente. A distância não é tão grande, mas eu também não tenho pressa. Vou andando e percebendo os detalhes, sem necessariamente observá-los diretamente. É apenas ir confirmando tudo que sempre é como é. As mesmas pessoas, os mesmos afazeres, as mesmas vidas repetitivas, como engrenagens de uma gigantesca máquina aparentemente sem sentido, mas que continua funcionando, funcionando, funcionando sem parar. Algumas engrenagens quebram, mas, apesar da comoção, não devem ter grande significação, pois logo tudo volta ao normal, como se a grande máquina se adaptasse.
   A subida é sempre mais dura e, apesar da ausência de pressa, ainda assim, preciso me esforçar um pouco mais. Mesmo andando devagar, posso sentir a poeira entrando pelas minhas narinas e pela minha boca. É uma sensação desagradável o arranhar seco na garganta. 
   Paro um pouco para tossir. Maldita bronquite.
   Há uma brisa muito suave; uma pequena vantagem de se estar subindo.
   Observo mais uma vez o céu de profundo azul. Algumas nuvens soltas surgem no horizonte.
   Preciso continuar subindo. Então retomo a lenta caminhada. Pé ante pé.
   A brisa atenua um pouco a incômoda sensação de falta de ar.
   As casas vão rareando, à medida que subo.
  Alguns passarinhos de fim de tarde pululam entre galhos de algumas árvores na beira da estrada poeirenta. Talvez estejam questionando a razão do caminhante humano; talvez se perguntem o que há por trás da estranha calma; talvez não questionem nada e nem mesmo dão qualquer importância ao ente andante.
    A curva antes do fim é logo ali. Já começo a ver o topo dos portões que vão surgindo aos poucos. A curva parece o trecho mais íngreme e preciso fazer mais esforço para continuar no mesmo ritmo. Ou talvez seja alguma forma de resistência inconsciente; um último grito silencioso da consciência. Na verdade, não importa.
   Antes de abrir um dos portões, volto-me e dou mais uma olhada para a cidade lá embaixo. Uma tentativa de ver diferente, o que sempre foi o mesmo. Talvez pudesse ver agora, algo que me escapou por todos estes anos. Não. Nada. A mesma vista panorâmica de sempre.
   Suspiro entediado.
  Volto-me novamente, abro o portão e entro no cemitério. Vou andando pelas ruelas mal calçadas. Mas, também, quem se importaria com isso? Os residentes não se importam com nada.
  Lápides, cruzes, fotos amarelecidas, datas esquecidas... Ecos silenciosos de um passado qualquer nas entranhas imperscrutáveis do tempo.
   Já posso ver o mausoléu. Ninguém nunca vai lá.
   O sol está descendo.
   Chego à porta, tiro a velha chave do bolso e, colocando-a na fechadura, giro-a com dificuldade, até ouvir as engrenagens ruidosas e enferrujadas culminarem num estalo pesado e surdo. Empurro a porta que reclama, mas abre.
   Entro sem olhar para trás.
   Fecho a porta apoiando as costas no metal frio e centenário. Sou como a porta; sinto-me igualmente engolido por centenas de anos, que não tenho. Ou talvez tenha.
  O sol entra pelas grades das pequenas janelas, marcando e deslizando pelas paredes mórbidas do tempo.
   Fico um tempo ali, olhando o facho de sol.
  Dou alguns passos e deito-me sobre o túmulo de pedra no meio da sala. Despeço-me definitivamente da verticalidade, sem qualquer delicadeza verbal ou intencional.
   O sol toca meu rosto e deixo o brilho ofuscar-me nos seus últimos instantes.
   A escuridão se aproxima.
   Uma lágrima silenciosa e vazia desde de meu olho. Nada sinto e já não sei se penso sequer.
   Vai ficando escura e fria a pequena sala.
  Fecho finalmente os olhos e, quando a penumbra também se despede, restando apenas a total escuridão, tudo para. Não há mais tempo; não há mais espaço. E, finalmente, nada mais importa.
   Encerro, então, o derradeiro ato. Esqueço quem sou. Não há mais razão. Não há desejo. Apenas o nada.
   Sem dor, sem temor e sem desespero, simplesmente interrompo-me e abandono o ar que já não me serve.

Fim.

domingo, 3 de abril de 2016

Deguste Anne Blind GRATUITAMENTE!

Deguste um pouquinho de meu novo livro Anne Blind entre Luz & Trevas GRATUITAMENTE!

É isso aí, gente! Já está disponível a versão digital de meu livro - na Amazon.com.

Segue abaixo, uma canjinha para quem gosta de dar uma "folheada", antes de adquirir.

Ah! Só uma dica: As Crônicas de Luz & Trevas que estão rolando no blog, divididas em capítulos, acontecem entre este primeiro volume e o próximo.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Crônicas de Luz & Trevas – O Contrato – Parte 7


  Uma tormenta apocalíptica tomava tudo ao seu redor, mas ainda assim, Anne caminhava determinada.
    Seres observavam por entre escombros, enquanto a bruma furiosa e incandescente atravessava toda a região em ruínas à toda velocidade, transformando o lugar no mais perfeito retrato do inferno.
   Olhar afiado, Anne seguia em frente. Subitamente tudo parou, como se o tempo congelasse. Anne olhou ao redor e deu com um homem muito bem vestido e sorridente.

- Olá, Anne Blind. O que te traz a meu reino?
- Quem é você?
- Tenho muitos nomes, mas...
- Deixe de palhaçada e diga logo teu nome.
- Oh! Mas quanta agressividade! Este não é nem de longe o comportamento que se espera de uma visita.
- Não estou te visitando e este não é teu reino, porque ele não existe; é apenas uma ilusão criada por formas pensamento de todos os espíritos ignorantes e desequilibrados. Então, vê se desce do palco e diga logo teu nome.
- Está bem. Eu sou a Estrela Matutina.
- Vênus?
- É. Apesar de a mitologia romana me ver como um arquétipo feminino, prefiro a figura masculina.
- E o que você tem a ver com esse lugar, afinal? Essa condição parece mais o inferno.
- Confesso que te subestimei, Anne Blind. Acreditei que manter a velha imagem dantesca impressionaria mais. No entanto, você é bem mais esperta do que imaginei, apesar de não supor o óbvio. Estrela Matutina, Vênus, A Primeira Estrela, o Primeiro Anjo...
- Lúcifer.
- Oh! Finalmente, querida. Mas refiro Lux.
- Olha aqui, não quero papo contigo.
- Ora, se não quer papo comigo, o que está fazendo aqui?
- Quero a última vítima de teus contratos infames; ele devia estar aqui.
- Contratos são contratos e devem ser respeitados.
- Uma invenção tua e sem qualquer valor real. Você os faz acreditar que te devem algo e você se diverte com este consentimento ridículo e enganoso.
- Mas, mesmo assim, um consentimento.
- Bom, já disse que não quero papo contigo. Se você não vai me dizer onde ele está, vou achar sozinha.
- Aqui quem manda sou eu, menina. E você não passa de uma mortal, cujo corpo está metido numa geladeira por aí.
- Aqui sou tão imortal quanto você, anjinho. Agora, saia da minha frente e não me amole.

    Anne o empurra com o ombro, tirando-o de seu caminho, à medida que continua andando.

- Ei! Isso foi extremamente grosseiro! Acho que terei que comer o teu fígado, por isso.

   Anne volta-se rapidamente, segurando o pescoço de Lúcifer com uma das mãos e, jogando-o no chão, pressiona-o contra o solo, sem soltar seu pescoço. Os olhos d a menina brilham num fulgor vermelho intenso.

- Já disse: se não vai me ajudar, então saia do meu caminho, anjo.

Lúcifer engasgou por algum momento sob a pressão da mão de Anne, mas em seguida começou a rir. Anne surpreendeu-se.

- Bravo! Bravo! Maravilha! OK! OK! Não fique brava. Há muito tempo que não sou dado a batalhas. Tudo bem. O que há de importante nesse carinha, pra você se dar a todo esse trabalho?
- Não te interessam anjo.
- Ah, deixa disso, vai! Será que dá pra me soltar? Não está nada confortável essa posição. Confesso que prefiro posições mais sensuais.

   Anne dá um suspiro. Seus olhos voltam ao normal e ela o solta.

- Ah! Bem melhor assim. E então? Vai me contar ou não?
- Não. E você vai me dizer onde ele está ou não?
- Se eu não te disser, você vai continuar procurando, não é?

   Anne consentiu com a cabeça.

- OK! OK! Vou te levar até ele. Mas vou lamentar muito; foi a melhor alma dos últimos tempos.
- Espírito.
- O que?
- Espírito. Alma é quando está num corpo. Fora de um é só um espírito. Para ser alma tem que ser de algum corpo.
- Ah, sim... Vocês mortais e sua apreciação por definições etc., etc...

   Os dois foram andando e a paisagem voltou a se agitar atrás deles.

   Continua...

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Crônicas de Luz & Trevas - O Contrato - Parte 6


  Apesar do frio intenso do alto inverno europeu, as ruas estavam anormalmente movimentadas. Os transeuntes circulavam para todos os lados. São Petersburgo estava de fato movimentada demais para o clima que abatia-se sobre a cidade.
  Insuspeitadamente, abaixo daquilo tudo e completamente alheio ao que acontecia acima, um silêncio sepulcral ambientava a estranha cena no velho porão.
  Sobre uma mesa de pedram imóvel, estava uma jovem nos seus quinze anos - talvez dezesseis – completamente nua. Seu corpo coberto de símbolos mágicos escritos com sangue.
  Sentado numa extremidade, com um semblante entre carrancudo e preocupado estava o velho mago.
Subitamente, suaves batidas na porta seguindo certo ritmo.
  O mago levantou-se abrindo a porta para que um jovem entrasse. O rapaz tinha no máximo dezoito anos. Ele cumprimentou o velho.

- E então, Ivan?
- Estou pronto, mestre.
- Percebo certa apreensão. Não se preocupe; jamais poderia confiar a outro tal tarefa.
- Obrigado, mestre.
- Vamos. Ela já está preparada.

  Ainda um pouco exitante, Ivan despiu-se e aproximou-se da menina, subiu na mesa e deitou-se sobre ela, iniciando a cópula.
  O semblante da menina contorceu-se um pouco, voltando novamente à quietude e impávida expressão.
  Ivan aumentou o ritmo dos movimentos, até que estancou repentinamente, deixando escapar um gemido, enquanto seu corpo estremecia ligeiramente.
  Rapidamente desceu da mesa e, enquanto se afastava e voltava a vestir-se, estranha névoa começou a se formar num dos lados, até tornar-se intensa e tempestuosa. De seu centro surgiu um homem muito bem vestido.

- Sede bem-vindo, mestre.
- Mago... Vejo que cumpriste tua parte.
- Sim, mestre, como combinado. Aí está minha filha, em troca da revogação de nosso contrato.

  O homem sorriu, enquanto admirava a jovem sobre a mesa.
  Erguendo a destra, o homem fez um gesto rápido, como se agarrasse algo invisível no ar com a mão e puxasse em sua direção.
  O corpo da menina estremeceu e, num espasmo violento, liberou um reflexo de si mesmo em estado vaporoso e suavemente iluminado, que contorcia-se e lutava para não ser levado em direção ao homem. No entanto, o esforço era inútil e logo a entidade vaporosa fora consumida pelo corpo do homem.

- E como sempre cumpro minhas promessas, nosso contrato está revogado; tua alma não mais me pertence.
- Grato, mestre.
- No entanto... – Disse o homem, já desenhando um sorriso de escárnio nos lábios – Devo informar-te, mago, que já não tens muito tempo de vida.
- Mas, mestre?! Se o contrato foi suspenso...
- Sim. Realmente foi. Porém, segundo regra áurea antiga, “A cada um segundo suas obras.”. Toda magia, toda manipulação, toda maldade que engendraste e colocaste em movimento para a satisfação de teus caprichos, de tua vaidade, de teu egocentrismo, te cobram agora um preço. Tu plantaste a semente de teu macabro vinhedo e, agora, terás de sorver o amargo vinho de tua colheita. Teu espírito, já completamente intoxicado pela deformação moral de teu caráter, buscou a única saída possível para purgar parte dessa tremenda agonia; desenvolveste um câncer, que já corrói boa parte de teus orgãos. Logo estarás baixando ao túmulo.
- Mas, mestre, que preciso fazer para curar-me? Um novo contrato?
- Infelizmente, nada posso fazer. Além do mais, não preciso de um novo contrato. Com o aspecto que teu espírito adquiriu, não imaginas qual o tipo de vibração que possuis? Assim que a vida abandonar este corpo decrépito, para onde pensas que teu espírito será atraído, senão para local de igual frequência vibratória?

  O semblante do mago adquiriu rapidamente o reflexo do desespero que tomara-lhe a alma diante da inesperada revelação.

- Tu me enganaste!
- Eu? Oh, não! Claro que não, velho mago! Nada fiz. Tu és o próprio responsável por tua insanidade e ignorância. Eu apenas cumpri minha parte no acordo. Teu estado deplorável é obra tua. Culpa-te a ti mesmo.

  O velho sentiu seus joelhos enfraquecerem e caiu de joelhos diante da verdade indiscutível que acabara de ouvir. Sentia-se devastado. Hora era a vergonha, hora era o ódio de si mesmo.

- Até breve, mago. Logo nos encontraremos no teu desgraçado destino além túmulo.

 O mago não teve forças nem para levantar os olhos para o mestre, enquanto este desaparecia juntamente com a sombria névoa que o envolveu.
  O jovem discípulo aproximou-se de seu velho mestre, colocando a mão em seu ombro.

- Mestre...
- Saia daqui, Ivan. Deixe-me só. – disse o exaurido e velho mago, sem nem mesmo voltar-se para Ivan, que saiu da sala visivelmente entristecido pelo destino que estava reservado para seu mestre.
Assim que a grande porta fechou-se atrás de Ivan, num baque surdo e metálico, o mago entregou-se á dolorosas lágrimas.

Continua...

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Crônicas de Luz & Trevas - O Contrato - Parte 5


A paisagem sobrenatural não lhe parecia mais tão estranha, desde que começou sua balada solitária. Ainda tinha dúvidas a respeito de muitas coisas e não estava absolutamente certa se fizera a melhor escolha. O fato é que, por enquanto, não queria tomar partido. Gostava imensamente de Helena, mas não se sentia adequada às altas vibrações de Shambala. Tomara decisões duvidosas e tivera atitudes questionáveis que a colocaram na situação em que estava agora. Poderia mudar tudo isso se quisesse, afinal fora sua própria escolha, mas não era uma questão de poder e sim de sentir-se merecedora. Além do mais, sentia-se no dever de ajeitar as coisas de seu próprio modo, mesmo que isso lhe custasse algum sofrimento extra. Afinal, saberia lidar com as consequências.
Sentiu a aproximação de alguém e no mesmo instante identificou Gabriel, que colocou-se a seu lado no vislumbre da citada paisagem.

- Linda, não é?
- O que?
- Toda essa vida efervecente e mutante do Plano Astral, constantemente em movimento.
- Hum... Aqui não é o Plano Astral.
- Todo lugar é o Plano Astral. O que muda é o ponto de vista do observador.
- Você entendeu o que eu disse... O Limiar ou Umbral.
- Sim, mas não retifico a informação. Ainda assim é questão de ponto de vista. O Limiar nao é um local propriamente dito; é uma condição temporária.
- Gabriel, se entrarmos num debate filosófico, a verdade é que tudo é temporário, inclusive a eternidade. Tudo é sempre um questão de ponto de vista.

Gabriel sorriu, pois sabia que as palavras de Anne traduziam a mais pura verdade. Tudo. Absolutamente tudo era temporal, mesmo o espírito imortal também estava em constante mudança.

- E então?... Por quanto tempo continuará neste personagem de paladina interdimensional?
- Personagem?... Não tinha parado para me classificar desta forma antes. É assim que você vê minha decisão?
- Mas não somos todos atores experimentando diversos personagens em inúmeáveis dramas? É como aprendemos sobre o espírito e tudo mais nessa relação transcendente.
- Não sei por quanto tempo. Ainda... Ainda não consigo assumir ou mesmo aceitar aquele outro “personagem” que vocês insistem em me apresentar.
- Entendo... No entanto, você sabe que o Universo não vai te esperar por muito tempo, não é? E, geralmente, quando isso acontece por muito tempo, Ele mesmo costuma engendrar estratagemas que te forçarão a enfrentar aquilo que tentas evitar.
- É... Sei bem como é. Mas confesso que, às vezes, isso me dá raiva. É como se não tivéssemos livre-arbítrio.
- O livre-arbítrio é para os ignorantes; aqueles que tem o conhecimento sabem que atitude e que caminho tomar, então não há de fato livre-arbítrio, mas consciência.

Anne sentiu-se envergonhada diante das palavras de Gabriel, mas não deixaria transparecer; ainda era muito orgulhosa.
Afastou-se do parapeito e voltou-se para Gabriel, colocando a mão em seu ombro.

- Sempre vou admirar você, Gabriel. Gosto muito de nossas conversas, mas preciso fazer o que sinto que devo fazer agora. Sei que é inevitável chegar às mesmas conclusões que você, mas agora estou bem longe disso e preciso acreditar no que sinto.
- Então vai continuar enfrentando e frustrando “demônios” por aí?

Anne sorriu.

- Humpf! Apesar da ironia, sim. Vou continuar fazendo o que atualmente é a única coisa que me dá alguma satisfação. Buda dizia que devemos matar o desejo, mas eu não sou Buda... ainda.

Sorrindo, Anne se afastou de Gabriel lentamente, caminhando em direção à zona tempestuosa que parecia uma tormenta à se aproximar, mas que nunca chegava. Foi distanciando-se, até que desapareceu engolida pelas brumas sombrias que cercavam aquele posto avançado às portas do Limiar. 

Continua...

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Crônicas de Luz & Trevas - O Contrato - Parte 4


   O ambiente transmitia uma paz secular. O silêncio acentuado pela madrugada enchia de respeito ainda maior o enorme salão abobadado repleto de afrescos barrocos, que combinavam perfeitamente com o belíssimo e delicado painel, cuja pintura cobria quase todo o teto da igreja.
   Àquela hora da madrugada, a igreja estava vazia, a não ser pela única alma humana sentada solitária em um dos enormes bancos.
   Subitamente, o silêncio foi quebrado pelo som de passos que se aproximavam muito calmamente.    Um indivíduo impecavelmente vestido aproximou-se de Rogério e sentou-se no banco imediatamente atrás dele.

- Sempre me impressionou a capacidade artística do ser humano. Não há como negar; este templo é uma verdadeira obra de arte... Apesar de ter sido levantado à custa de muito sangue e lágrimas, enquanto soava a dolorosa música da chibata. A ignorância cobra um preço muito alto à humanidade, enquanto as pessoas se perdem em discursos vazios e sem sentimento real algum.
- É o preço que eu pago, né?
- Não. De forma alguma. Apesar da ignorância, você apenas está pagando por serviços prestados. Há muito que me consideram o ignorante da história, afirmando que perco meu tempo tentando ir na direção oposta à do progresso. No entanto, quem pode afirmar qualquer coisa com absoluta certeza, quando o assunto é tão transcedental? Afinal, se tudo é eterno, talvez todos estes momentos não sejam realmente importantes e nós devêssemos todos relaxar um pouco e aproveitá-los intensamente, se no fim não teremos realmente um fim.
- Você é muito bom com as palavras.
- Ah!... Obra do tempo e da total ausência de reservas em dizer o que penso. Aliás, acho que é uma das razões de as pessoas serem tão infelizes; estão sempre muito preocupadas com regras inúteis e com a importância da opinião que outras pessoas possam ter à respeito do que sentem, pensam e fazem. Liberdade! Vocês temem a liberdade, com receio do preço que possam ter que pagar no futuro.
- Então somos todos covardes. É assim que você nos vê a todos? Um bando de covardes se escondendo de si mesmos.
- De certa forma. Mas já tive orgulho de alguns de vocês, que ousaram e fizeram tremer a tão bela e frágil estrutura social.

   O homem abriu o paletó e tirou uma caixinha prateada de cigarros. Colocou um cigarro nos lábios e o acendeu com um isqueiro dourado.

- É, eu sei. Não deveria estar fumando aqui, não é? Não é o que está pensando?... Você vê? Mesmo depois de tudo que te proporcionei e o qual você viveu com tanta intensidade e volúpia, ainda se prende inconscientemente ao temor e às regras religiosas criadas por homens muitas vezes tremendamente piores que você.
- Muitas são regras que valorizam o melhor do ser humano.
- Você realmente quer estragar teus últimos momentos com uma conversa teológica à essa altura do campeonato? Além de ser muito tarde para crises de consciência, não melhora em nada tua situação perder-se em verborragia barata e moralista, não é? Ora, eu te conheço como ninguém e sei de tudo que você fez, porque sempre estive lá, facilitando a realização de teus desejos.

   O homem deu uma tragada profunda no cigarro, soltando uma longa baforada para o alto.

- Vamos encarar isso numa boa. Você pode ser tão ignorante quanto todo mundo, mas é uma pessoa razoavelmente inteligente, senão, nem com minha ajuda chegaria tão longe e conseguiria se manter no topo por tanto tempo.
- É. Você não fez tudo, né?
- Claro que não. Fiz grande parte, como prometido que faria, mas tua participação foi muito importante para que não só alcançasse tantas vitórias, como para que, principalmente, se mantivesse no topo do mundo.
- No entanto, chegou a hora de perder tudo, né?
- Não! Perder tudo, não! Você ainda será lembrado como um grande empresário e por tudo que realizou. Teus adversários tentarão manchar teu nome, mas tua morte dentro de uma igreja dará um certo ar de grandiosidade ao evento e você será lembrado como alguém que muito realizou. Não se preocupe com tuas queimas de arquivo, com os desvios de verbas públicas, com as fraudes em licitações e com as inúmeras orgias. Nada disso virá à tona, porque muitos outros envolvidos garantirão o sigilo para protegerem a si mesmos.
- Está bem. Vamos logo com isso, então! Como será?
- Da melhor forma que lhe convier. Vamos ver... Tenho uma pistola comigo, no entanto, creio que seria muito espalhafatoso. Tenho uma ideia melhor. Como você não me trouxe problemas e está aceitando cumprir tua parte no contrato sem complicações, vou te oferecer a oportunidade de uma saída mais suave, uma parada cardíaca. Apesar de ser um tanto incômodo, um infarto do miocárdio não mancharia tua tão preciosa imagem social.

   Rogério respirou fundo e assentiu, recostando-se no banco.
   Foi o tempo de recostar a cabeça e não havia mais ninguém na igreja, nem mesmo ele; apenas um corpo bem vestido recostado no banco, como se dormisse profundamente.
   O silêncio foi subitamente quebrado pelo sino, que batia a quarta hora da madrugada.

Continua...

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Crônicas de Luz & Trevas - O Contrato - Parte 1

 O tempo estava acabando. Apesar de os pássaros continuarem a fazer sua algazarra diária na amoreira do jardim e o sol brilhar como em todos os dias do verão, nada disso poderia tirar de sua cabeça a contagem regressiva.
  O tempo estava acabando. Esse era o fato indiscutível e sua mente o fazia voltar à realidade a todo instante. Nos últimos dias ficou pior e ele sentia como se o tempo tivesse colocado uma corda em seu pescoço e fosse apertando o nó, um pouco a cada dia. Agora o nó estava bem apertado. Só lhe restavam vinte e quatro horas.
  Seu humor oscilava. Às vezes achava que tinha aproveitado como ninguém e estava tudo bem, mas no fundo sentia um incômodo, a presença da velha corda do contrato. Sabia que teria que pagar sua parte, quando chegasse a hora.
  Olhou ao redor, pegou um cigarro, acendeu e foi sentar-se na varanda. O fim de tarde quente se aproximava, embora continuasse quente, sem brisa, sem nada. O dia havia transcorrido como qualquer outro dia do verão; quente, desesperadoramente quente. Ficara no ar condicionado a maior parte do tempo, mas não fora de fato por conta do calor; estava transtornado. Disfarçava facilmente por trás de um rosto inexpressivo, mas os quatro maços vazios de cigarros eram a evidência de nervos em frangalhos e de uma fortaleza que nunca esteve ali realmente.
  Olhou para o copo meio vazio. Depois, olhou para o cigarro que já queimava pela metade. Pensou na vida que lhe fugia como o cigarro consumido pela brasa lenta, porém insaciável.
  Sua carne ficaria ali? O que aconteceria? Como aconteceria? Não gostava de sentir dor mas, afinal, o que deveria esperar do inferno? O que era mito? O que era realidade?

  - É impressionante como todos vocês tem sempre o mesmo questionamento na hora do pagamento. - Disse alguém encostado ao batente da porta que dava para a varanda. Rogério olhou, visivelmente surpreendido. Seu coração quase saltou pela boca.

  - Calma, Rogério. Ainda não é a hora. Só vim mais cedo para conversarmos um pouco. Apesar das velhas lendas, com o tempo a gente acaba se tornando mais, digamos, sensível. Afinal, é melhor que as coisas aconteçam numa boa, do que com todo aquele drama desagradável. Isso aqui não é um filme, é a vida real. E não tem porque ser do jeito mais difícil.

  Rogério deu mais uma tragada no cigarro, antes de amassá-lo contra o cinzeiro. Então levantou-se, não sem antes pegar o copo sobre a mesa. Andou de um lado para o outro, pensativo. Estava nervoso, mas era orgulhoso demais para admitir abertamente, por mais que já não conseguisse sustentar de forma convincente sua até então aparente calma.

  - Não esperava que você viesse antes da hora.
  - Ninguém nunca espera. Mas acho melhor assim. A gente pode conversar, você me fala sobre tudo quanto achar importante, desabafa... No final, acaba percebendo que isso não é tão ruim quanto parece.
  - Não sei se quero conversar... Talvez eu queira sim, mas não sei o que dizer.
  - Tudo bem. Você não precisava necessariamente falar nada se não quiser. Mas pense em tudo que você teve oportunidade de viver, quanto poder teve em tuas mãos, quantos prazeres desfrutou.Poderia ter sido diferente, se a gente não tivesse se conhecido. Não é tão difícil pesar qual teria sido a melhor escolha, não é?
  - Não. Tem razão. Eu fiz minha escolha e adorei cada minuto que desfrutei de tudo isso.
  - Pois então, que bom! É muito mais fácil quando a pessoa desconhece o valor do acordo.

  Rogério foi novamente até a varanda. O sol havia se posto há alguns instante, mas ainda tingia o horizonte de vermelho alaranjado. Coisas do verão.

  Bom, Rogério, então eu volto um pouco antes do amanhecer, quando a noite é mais escura. Aproveite bem estas últimas horas. Até mais tarde.

  Rogério voltou-se para responder, mas o sujeito já não estava mais lá. Ele estava novamente sozinho. Passou a mão pelos cabelos naturalmente desgrenhados. Num impulso pegou a carteira sobre o balcão da cozinha americana e saiu.
  Assim que bateu a porta, uma sombra ligeira surgiu e desapareceu no meio da sala. Uma pequena distorção oscilou no ar, como se a realidade contorcesse. Logo, tudo estava novamente como antes. O apartamento voltou a ficar quieto.

Continua...

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Memórias d'O Tablado: Depois das férias

Lembro de certa vez, quando acabaram as férias e retornamos para o segundo ano de aulas no O Tablado. Cheguei mais cedo, deixei minha mochila num dos acentos e subi ao palco. Não havia ninguém lá, além de mim. Olhei ao redor, a bancada, as luzes, a coxia, a platéia... Uma sensação de certa felicidade, de satisfação por estar matando uma saudade espalhava-se por cada célula de meu corpo.

Dei alguns passos, senti o cheio de lugar antigo. Todos os anos de aventuras, músicas, estórias estavam comprimidos naquele lugar, cada um na sua dimensão própria de tempo, coabitando naquele mesmo espaço, num eterno apresentar-se, entre mundos e consecutivamente.

Então, chegou um colega de turma. Não lembro-me muito bem quem era... acho que era o Leandro Hassun. Ele percebeu de cara o que se passava comigo e soltou um comentário que virou a descrição perfeita do que aquele lugar especial estava se tornando para mim: - É bom voltar pra casa, né? 

Fiquei surpreso de uma forma diferente, como quem descobre aquela palavra que estava tentando lembrar, para descrever algo. A sensação de ver-se compreendido e de compreender a si próprio.

Pronto! Esse momento acabara de se tornar um ponto inesquecível de minha memória e que levarei comigo, como quem acaricia um bebê nos braços e, ao mesmo tempo, é acariciado por alguém que ama. Um ponto na minha história, onde lembro-me que sou um pouco mais humano.