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quarta-feira, 7 de junho de 2017

O Primeiro Contato Imediato de Quase Terceiro Grau

Enquanto estava ali sentado na sala vermelha, com sofás vermelhos e almofadas vermelhas, escutando o som relaxante que tocava no aparelho de som, observava o tempo escorrendo lentamente numa ampulheta imaginária. A mente divagava entre nervos semi-alertas, que mantinham meus sentidos aguçados, na quase expectativa da chegada de alguém.

Uma serra cortava ao longe; restos de uma obra insistente e inconvenientemente atravessando a tarde do sábado.

Sempre achei que ninguém deveria trabalhar aos sábados. Apesar do absurdo social, que faria tudo utopicamente parar, agradavam-me ideais semelhantes, pela possibilidade do sossego sempre bem-vindo.

O silêncio e a quietude sempre me fizeram prestar maior atenção em mim mesmo, nas sensações corporais, movimento da respiração etc. Às vezes sento e simplesmente observo-me, sem julgamentos; outras vezes uma inquietação fútil e sem sentido tortura-me, até que resolvo jogar para o alto qualquer suposta explicação que a justifique, retornando lentamente à agradável calma de sempre.

Foi numa dessas vezes que, sentado na velha poltrona vermelha de sempre, algo realmente inusitado aconteceu.

Eram mais ou menos umas dezesseis horas, quando senti o ar da sala resfriar repentinamente. Não foi uma leve oscilação na temperatura; ela deve ter despencado uns quatro graus em segundos. Pelo menos, foi esta a sensação térmica que tive. Como nunca passara por situação semelhante antes, olhei ao redor procurando algo que justificasse a mudança de temperatura, mesmo sabendo de antemão, que a sala estava exatamente como sempre estivera.

Do lado de fora, embora o tempo estivesse meio parado, repentinamente, as plantas começaram a agitarem-se, como se um vento descesse exatamente sobre elas.

Abri a porta e, para minha surpresa, não havia nenhum sinal de vento, embora elas continuassem se mexendo.

Olhei para cima e o céu estava limpo e azul, apenas isso. As plantas continuavam a sacolejar sem motivo aparente. Achei o fenômeno extremamente curioso. Então, voltei para dentro e, sentado novamente no sofá vermelho, fiquei observando-as em seu ballet sobrenatural, para ver no que isso daria.

Em determinado momento, percebi que o ar oscilou lentamente na minha frente, como ao tocarmos na superfície da água. E a oscilação continuou, somente que, agora, deslocava-se pela sala, até parar diante da porta de entrada da casa, que dá para a área externa e, posteriormente, para a rua.

No mesmo instante, senti um arrepio eriçar os pelos dos braços e nuca; sabia que não estava sozinho ali.

Fiquei olhando para a oscilação, já bastante tenso, quando pude escutar claramente, como se alguém falasse através de um equipamento de alta-fidelidade sonora. Só não tinha mesmo certeza se escutava de fato, ou se a coisa toda estava acontecendo dentro de minha cabeça; como sabê-lo?

- Não tenha medo. Não lhe faremos mal.


No mesmo instante, todo o nervosismo simplesmente desapareceu, como por encanto. Eu estava tão tranquilo, como se nada de anormal estivesse de fato acontecendo. Mas estava.

Logo em seguida, voltaram a falar.

- Temos percebido teu interesse em nós, já há algum tempo e, esperamos até o momento que estivesse mais preparado, para apresentarmo-nos diante ti… Compreendemos teus questionamentos neste momento e, respondendo-te da forma mais adequadamente possível, diante de teu conhecimento atual, afirmamos que somos teus irmãos de outros lugares do cosmo.

Apesar da revelação, confesso que não fiquei tão surpreso, dentro das devidas proporções, como julguei que poderia ficar, quando achei que isso acontecesse. Sempre li bastante sobre o assunto e não era de fato algo fora de meu conhecimento. Acredito mesmo, que senti até certa satisfação.

Eles retomaram.

- Neste primeiro encontro não nos apresentaremos visivelmente. Há necessidade de certo preparo para que consigas manter a calma, sem que precisemos intervir em teu sistema nervoso, como fazemos agora… Voltaremos a contatar-te muito em breve. Procure evitar alimentação pesada, optando por uma alimentação baseada exclusivamente em vegetais e frutas… Fique em paz.

No mesmo instante, a oscilação desapareceu e as plantas deixaram de sacudirem-se. Sentia-me calmo e, até mesmo, alegre com o acontecimento surpreendente.

Saí novamente ao jardim e olhei para o céu outra vez, esperando apenas ver o mesmo céu azul de antes, mas havia um pequeno ponto ovalado há muitos quilômetros de altura, quase imperceptível, pelo menos para mim, que uso óculos. Ele ficou ali, parado por alguns segundos e, depois, disparou velozmente em direção às montanhas, até sumir de vista.

Então ouvi a campainha tocar. Era meu aluno que acabara de chegar. Entrei para dar aula.


quinta-feira, 20 de abril de 2017

3 Razões para Você Ler Mais, Mesmo Sendo de Exatas

Era uma típica aula prática de Programação: os alunos, sentados nos seus computadores, tinham uma lista de problemas para resolver enquanto eu circulava pela sala, ajudando-os com as dúvidas que iam surgindo.

Eis que um dos alunos, um bom aluno, me chama e pergunta: professora, não entendi a questão 17, pode me explicar?

Brinquei com ele que eu não tinha memória de elefante, e não sabia de cabeça qual era a questão 17 da lista. Fui até ele, peguei a apostila e comecei a ler em voz alta o enunciado que tinha umas cinco linhas de texto. Quando eu terminei a leitura, o aluno fez cara de quem foi atingido por um raio de luz e declarou: “Ah, agora entendi!” E começou a escrever o programa para resolver o problema.

– “Como assim, entendeu? Eu só li o problema, nem comecei a explicar…”

Uma fração de segundo depois, quem foi atingida por um raio fui eu: tinha me dado conta de que o que ele não tinha entendido era o texto, e não o problema em si! Uma vez que eu fiz a leitura em voz alta, ele entendeu claramente o que dizia ali e o que era para fazer. Ou seja, o rapaz – um estudante universitário fazendo um curso concorrido de uma instituição pública de ensino superior – tinha um sério problema de leitura.

Este é um exemplo extremo, mas o problema não é tão incomum. E não é que os meus alunos fossem particularmente problemáticos. A pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, encomendada ao IBOPE pela Instituto Pró-livro, indica que o brasileiro lê menos de dois livros a cada três meses. E este número inclui livros apenas parcialmente lidos E livros didáticos.

Ora, a gente sabe que a “galera de humanas” naturalmente puxa essa média para cima… Daí dá para imaginar que o estado das coisas entre a turma de exatas é ainda mais dramático.

Além do aluno da história acima, não foram raros os casos de alunos fazendo careta toda vez que se deparavam com aqueles problemas “com história”. Qualquer coisa que não fosse no formato “resolva a equação abaixo” era visto com medo e até um certo ressentimento.

Entretanto, a leitura correta dos enunciados de questões de prova é o menor dos problemas de um futuro Engenheiro. Por isso, vou contar três motivos para você ler mais e aprimorar esta habilidade fundamental, mesmo você sendo de Exatas até a raiz dos cabelos… Claro que existe muito mais razões para ler que estas, mas será que você já tinha pensado nestas três?

Razão #1: Você gosta de ler

Dizer que não gosta de ler é como dizer que não gosta de garfo e faca. Simplesmente não faz sentido algum!

Ler é meramente uma ferramenta para você atingir um fim. Você pode gostar de carne assada e não gostar de abóbora, mas o garfo e a faca não tem absolutamente nada a ver com isso.

Do mesmo jeito, você pode até não gostar de ler romances do século XIX, mas com certeza tem algum assunto no qual você tem um interesse mais intenso.

Suponha que o seu interesse mais imediato é encontrar uma namorada ou namorado. Nada a ver com leitura, certo? No entanto, se o seu melhor amigo disser para você que tem um livro que ensina uma receita infalível para conquistar qualquer pessoa que você queira, você vai ler o livro ou não?

Ok, talvez este exemplo tenha sido meio apelativo…

Então você quer mais uma prova de que você gosta de ler? Bem, você chegou até aqui neste texto. Provavelmente o texto chamou a sua atenção o suficiente para que você nem pensasse no “esforço” necessário para ler as mais de 650 palavras do artigo até o momento…

Tem um detalhe nisto tudo que pode explicar o seu pouco apetite para os livros: uma faca cega pode arruinar o seu almoço, principalmente se você estiver com fome. Neste caso, a faca deixa de ser coadjuvante da refeição e vira o centro das atenções, de uma forma nada positiva para ela (a faca). De repente, você passa a verdadeiramente odiar todas as facas.

O mesmo acontece se a sua leitura for lenta demais. Ler muito devagar é como comer com uma faca cega: incrivelmente irritante e frustrante.

A solução é aprender a ler mais rápido. E ao contrário do que você pode estar imaginando, ler mais rápido (na verdade, muito mais rápido) não só é perfeitamente possível como pode ajudar você entender bem melhor aquilo que lê. Confira por você mesmo.

Razão #2: Você não quer um cérebro atrofiado

Tenho certeza de que todo mundo na sua família acha você inteligente, provavelmente mais inteligente que a maioria dos mortais, pelo simples fato de você ser de Exatas. É justo: qualquer pessoa que enfrente toda aquela matemática por vontade própria merece um crédito extra!

Agora, cá entre nós, o cérebro humano precisa de variedade. A neurociência comprova que as atividades que mais ajudam o cérebro a se manter afiado são aquelas que envolvem novos aprendizados. Quanto mais diferente daquilo que você está acostumado, melhor.

Ou seja, se você ficar só na sua zona de conforto, mesmo que seu conforto esteja em fazer cálculos complicados para a maioria das outras pessoas, você está deixando o seu cérebro atrofiar em algum aspecto.

Assustador?

Tudo bem. Você pode começar a mudar isso agora, e aprender a ler de um jeito novo (e muito mais veloz)?

Gente e diversão: dois motivos em um

Você pode adorar aquelas equações, mas na vida real quase ninguém está realmente interessado nisto. Se esse fato é chocante ou irritante para você, talvez você esteja precisando desenvolver sua capacidade para a empatia.

A empatia é a habilidade de se colocar no lugar de outra pessoa e entender o ponto de vista dela, mesmo que ele seja diferente do seu.

Uma excelente maneira de aprender sobre as diferentes formas de se enxergar a vida é através da leitura. Ler sobre pessoas diferentes de você, vivendo em outras épocas, participando de diferentes grupos sociais e passando por experiências que talvez você nunca tenha a chance de passar, dá a você uma dimensão muito mais rica do ser humano.

Só esteja ciente de que você pode acabar com uma enorme vontade de interagir com pessoas diferentes e viver algumas experiências mais variadas, mesmo incluindo pessoas que não são de Exatas!

Neste caso, um pouco de cultura geral pode ajudar a manter as conversas interessantes. E onde mais você vai conseguir uma cultura geral, se não for nos livros? (saber todos os nomes dos participantes do último BBB não vale, ok?)

Você não precisa ler tratados de Filosofia para ter uma cultura geral acima da média. Pelo contrário, você pode aprender se divertindo. Por exemplo, dá para descobrir um bocado sobre a história da França de Napoleão lendo a biografia de Josefina. E de bônus você ainda vai rir um bocado com a peripécias sexuais da alta classe francesa da época.

Ana Lopes
Doutora em Ciência da Computação pela UFMG e ex-professora universitária, a autora do blog Mais Aprendizagem tem como missão ensinar e divulgar métodos de aprendizagem que trabalhem em cooperação com o funcionamento do cérebro, e prepare cada ser humano para brilhar em plenitude no século XXI.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

A Última Aventura


Do alto da torre mais alta de seu castelo, ele olhava impávido o cintilar das milhares de estrelas da via láctea, que refletiam em seu olhar vítreo e inumano, onde difícil se tornava vislumbrar razão ou insanidade; qualquer conflito. Nada. Apenas o cintilar estelar.

Moveu-se lentamente, sentando-se sobre o telhado. O vento frio sé era percebido pelo balanço de seus cabelos longos, lisos e brancos.

Cruzadores atravessavam de um lado para o outro, na órbita do velho planeta. Ele não os via, mas sabia que estavam lá, silenciosamente deslizando na negritude celeste, prontos para a guerra, numa época onde não existiam mais guerras. Os conflitos exteriores do ego há muito haviam sido substituídos pelos conflitos internos. As frivolidades da personalidade já não pertenciam à abrangente realidade do mundo interior. Fora um caminho difícil até ali. Fora necessário muito desprendimento, cujo preço fora o sofrimento individual, a luta contra a abstinência dos desejos eternamente insatisfeitos e que precisavam ser abandonados.

A última guerra foi travada e toda a história tomou um novo rumo.

Cidades caíram e foram reconstruídas da forma correta. Algumas nem mesmo reconstruídas foram, sendo devidamente substituídas pela arte sublime da natureza.

Por trás de seu vítreo olhar, as emoções deslizavam suaves entre um estado e outro de pura tranquilidade e ausência de qualquer descompensação.

O planeta mudara, porque os seres humanos mudaram. Resistiram até o cansaço, mas finalmente mudaram.

As estrelas cintilavam em seu olhar, mas ele não as via. Toda sua atenção estava em sentir. Há muito tempo haviam descoberto que o importante não era ver ou fazer, mas apenas sentir. Sinta! - Dizia seu velho amigo e mestre. Ah! Quanto tempo levou para que finalmente o escutasse com a alma e compreendesse a profundidade do que lhe dizia!

Há muito, deuses e qualquer definição de Deus deixara de ter importância; o sentir dera novos rumos à compreensão do universo e o quanto isso implicava no entendimento de si mesmo. O segredo era sentir. Não era propriamente um segredo, mas até então, todos procuravam viver suas vidas como se o sentir não fosse importante. Talvez, porque realmente não alcançassem o significado absoluto de sentir.

Pequenos bólidos em chamas cruzavam a abóbada celeste vez ou outra, queimando em seu atrevimento por chegarem tão próximos da atmosfera.

Deitou-se sobre as telhas frias para aliviar o pescoço e as costas, que começavam a doer.

Pensou por um momento na possibilidade de não existir. Não estava triste nem nada, apenas pensou em como seria interessante, se simplesmente deixasse de existir. Qual deveria ser a sensação?

Sentiu no peito o chamado da aventura. Um pequeno tremer dos lábios denunciou a ousadia de um pequeno sorriso.

Respirou fundo e, fechando os olhos, simplesmente não estava mais lá.

O vento continuou soprando frio; único som furtivo da noite. E as estrelas continuaram a cintilar no firmamento da noite sem fim.


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Um pedacinho do livro que estou escrevendo...

Primeiras lembranças...

Por quantos anos os sonhos perduraram, atravessando desafiadoramente nuvens e hálitos de dias funestos? Quantas palavras, dissertações e silenciosos olhares eternizaram a perfeita cumplicidade inigualável e absoluta? Quantos desejos não foram apaziguados na cama perfeita, nas luzes de dias perfeitos, na companhia simples e perfeita? 

Os anos passam rápidos e, de repente, abrimos os olhos e mais nada parece como antes, como se o tempo voasse além de nosso alcance no ínfimo fechar e abrir de pálpebras. E a inevitável certeza do agora que logo passa, é o que resta para nos trazer de volta a solidão imposta, como se a felicidade tivesse que ser compensada com o isolamento de tudo quanto foi o mais importante.

A despedida não é algo fácil, mas a aceitação de seguir em frente é a pior dor de todas, quando se segue então sozinho.

Faz dez anos que ela se foi e, ainda assim, permanece a dificuldade de aceitar o eco de sua voz, como um suspiro sutil, que parece passear por todos os cômodos da velha casa, explorando possibilidades de trazer de volta o passado, quando em realidade é apenas um reflexo de lembrança que escapa à sanidade e resvala pela mente distraída, dando a impressão da atemporalidade, como se nada tivesse mudado, fazendo-nos esquecer a realidade presente e reviver o amor tão vivaz quanto a realidade do passado que se foi.

A casa já não tem a vivacidade de antes. Os móveis continuam nos mesmos lugares, mas já não se tem forças para subir as velhas escadas em caracol, que leva até a suíte de tantos sonhos, tantos momentos inesquecíveis. Melhor assim. Já é bastante difícil conviver com as muitas lembranças que o resto da casa amotina-se contra mim. 

O tempo passou e muita coisa mudou nestes dez anos. O velho carro continua na garagem, sem utilidade. Um bibelô, uma lembrança dos tempos de motores a explosão e a necessidade de veículos para se transportar de um lugar a outro. Os tempos são outros. As ruas são dos pedestres que vejo através das vidraças empoeiradas, quando me animo a olhar para o mundo lá fora. Os meios de transporte usuais ficaram obsoletos. Apenas eu permaneço aqui, isolado do presente, numa vã tentativa de perpetuar o passado, em nome de um amor que teima em não morrer. Talvez só minha morte possa devorar a ânsia inesgotável deste sentimento que perdura, que insiste em me acompanhar. Oh! Como leviano me tornei. Rio de minhas próprias lamentações, quando meu único desejo é manter esta chama dentro de mim indefinidamente, posto que sua luz ilumina o que me resta de sã consciência. 

Como me fazes falta, minha querida...


segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Crônicas de Luz & Trevas - O Contrato - Parte Final


Anne chegou ao Conselho de Vidas e aguardou ser chamada, o que não demorou muito. Uma senhora usando um longo sarau fez sinal para que Ela a acompanhasse. As duas atravessaram um pequeno corredor semitranslúcido, cujo através das paredes se podiam ver vultos brancos de outros habitantes realizando suas tarefas, fossem quais fossem.

Saíram num salão maior onde, através de um projetor holográfico alguém era examinado. Sobre uma mesa que parecia muito confortável estava uma mulher, ou melhor, um espírito de mulher que parecia muito cansado e sofrido. Parou para observar, pois achou aquilo tudo realmente impressionante. A tecnologia devia ser dezenas de anos à frente da tecnologia dos encarnados. 

A senhora de sarau parou, assim que percebeu que Anne deixara de segui-la, para observar o trabalho no salão. Voltando em sua direção, sorriu muito amorosamente.

- É realmente maravilhoso, não é?
- Sim… É espetacular. Se existisse esta tecnologia na Terra, tudo seria mais fácil. As doenças poderiam ser tratadas antes mesmo de desenvolverem-se e provocarem tanto sofrimento.
- Sim. E verdade. Mas um dia ela chegará para os encarnados; tudo a seu tempo.
- Quem é esta pessoa que está deitada? Pelo que vejo no holograma, parece que ela tem um problema grave na região da barriga.
- Observaste bem, Anne. Essa é Rosana. Ela acabou de ser resgatada; fez o translado a poucas horas e não precisou ficar muito tempo nas regiões umbralinas, pois apesar dos conflitos de atitudes a que está sujeito todo espírito encarnado, ela não foi uma má pessoa e muito se sacrificou para que as pessoas ao seu redor tivessem uma vida relativamente confortável, muito embora não fosse uma pessoa de vida abastada. Ela está passando por uma análise preliminar, antes de ser levada ao devido tratamento de recuperação. Como bem observou, ela teve complicações intestinais, que acabaram por levá-la ao momento crucial.
- Mas as pessoas não tem um momento certo para o translado? Essa doença…
- Sim. A doença foi uma consequência de certos excessos muito comuns aos encarnados, mas nada sem exageros que a comprometessem; foram exageros ligados a costumes do cotidiano, mas que ela desconhecia as consequências, por ser muito comum.
- Entendo. Coisas que a gente faz como normais, mas que nos afetam sem que tenhamos conhecimento de que isso é prejudicial, não é?
- Exatamente. Esta é uma questão de conhecimento científico que promova uma mudança de hábitos. No entanto, tudo isso tem seu tempo. Podemos seguir?
- Sim, claro.

Ambas seguiram então para a outra extremidade da sala, atravessando um portal e entrando em outro ambiente, onde um jovem senhor a recebeu com um sorriso carinhoso.

- Seja bem-vinda, Anne. Já faz algum tempo que espero tua vinda. Meu nome é Asclépios.
- Obrigado. Desculpe pela demora.
- Oh, querida! Não precisa se desculpar. Compreendo perfeitamente. Todos nós precisamos de um tempo para entender e tirar nossas próprias conclusões.
- Então o senhor já sabe porque estou aqui, não é?
- Sim, Anne.  Apesar de feliz por tua decisão, devo adverti-la que este tempo longo fora do corpo teve algumas consequências, sobretudo pela condição em que ele se encontra.
- Como assim? Aconteceu alguma coisa de grave com meu corpo?
- Não, querida. Ele está em perfeito estado. No entanto, ele encontra-se numa condição muito peculiar e teremos que tomar algumas medidas fora do comum, para que teu retorno não seja tão doloroso.
- Não sei se compreendo…
- Já te explico. Venha até aqui comigo. Te mostrarei através deste monitor remoto, onde ele se encontra e em que situação, para que fique mais fácil a tua compreensão do caso em questão.

Anne se aproximou de um painel que parecia ser uma continuidade da parede. Assim que Asclépios tocou a superfície do painel, algumas luzes suaves acenderam-se ao seu toque. No mesmo instante uma imagem enorme tomou forma no ar, diante de seus olhos. Uma cápsula enorme como um sarcófago, no entanto era de metal e cheia de conexões, tubos, um pequeno painel digital e uma janela de vidro, onde ela pôde vislumbrar seu próprio corpo em profundo sono.

- Asclépios, o que é isso? Onde está meu corpo? Lembro de uns últimos momentos em Shambala, junto aos monges… Onde ele está? Eles o levaram para a caverna dos Antigos?
- Não, Anne. Seu corpo não está em Shambala. Apesar de todo o conhecimento e experiência de Shambala, eles não perceberam que você ainda vivia, porém num âmbito muito sutil, tanto que a aparência era de que seu corpo estava morto. Diante desta situação, Helena tomou todas as providências para que você fosse sepultada de acordo com os costumes ocidentais, mesmo que o solo do Tibet seja extremamente rochoso.
- Eles me enterraram? - Disse Anne um pouco atônita.
- Sim, mas teu corpo não permaneceu lá por muito tempo. Os militares que você enfrentou, depositaram um localizador sobre tua pele e, assim que teus sinais vitais começaram a recobrar a normalidade, o pequeno aparato tecnológico começou a emitir um sinal, que acabou por levá-los até a recente sepultura. Eles então resgataram teu corpo e o colocaram nesta câmara de hibernação criogênica. Neste momento, teu corpo está em poder destes militares, numa base secreta.
- Mas eu posso voltar, não posso?
- Sim. No entanto, como havia te dito, estamos tomando algumas providências para que o processo não seja tão doloroso para ti, porém, você sentirá alguma dor no retorno, por conta do congelamento.
- O que exatamente vocês estão fazendo?
- Estamos usando o entrelaçamento quântico para mudar a distribuição energética da câmara, o que fará com que a frequência vibratória elétrica mude drasticamente, desconfigurando os nanotransistores da câmara, incapacitando-a de continuar funcionando. Isso fará com que o degelo seja mais rápido, por conta da inversão de polaridade. No entanto, você ainda sentirá os efeitos da criogenia, por conta de alguns resíduos restantes.

Anne suspirou profundamente e tentou imaginar o que faria, assim que retomasse o controle do próprio corpo. Sempre foi resistente à dor, não seria isso que a impediria. O problema era a tal base secreta. Como sairia dali, pensou.

- Não se preocupe com isso, Anne. - Disse Asclépios, lendo seus pensamentos. Nós faremos de tudo para te ajudar. Porém, não podemos interferir demais, pois este é o teu caminho e é você quem precisa tomar as decisões e as atitudes.
- Tudo bem. Não adianta eu ficar planejando muito agora. Preciso estar lá, para ver como as coisas estão. Lá, eu dou o meu jeito.
- Muito bem. Vamos nos preparar?
- Sim.
- Então venha, minha querida.

Asclépius conduziu Anne até uma mesa, onde a menina deitou-se confortavelmente. Ele acionou alguns mecanismos no painel e, logo, uma suave bruma foi se formando ao redor de Anne. Algumas cores pareciam bailar no interior da bruma, como se ela tivesse vida própria. Uma forte luz brilhou acima da mesa e um vórtice de energia se formou no ar. Anne sentiu-se tontear e achou que fosse ficar enjoada, mas a sensação, apesar de um tanto repressora, não era de todo desagradável.

O vórtice ganhou força e velocidade e Anne, como que levada pela leveza da bruma, foi suspensa no ar. Em seguida, seu corpo começou a tornar-se translúcido, até que só restassem apenas linhas de energia sutil, que foram sugadas pelo vórtice. Imediatamente tudo parou, como se nada tivesse acontecido na sala.

A mesa estava vazia.

Anne se fora.

Fim do primeiro interlúdio.

=> Acompanhe a trajetória de Anne Blind no primeiro e no segundo volume das Crônicas de Luz & Trevas:
- Anne Blind entre Luz & Trevas (à venda na Amazon.com)
- Anne Blind e a Herança Secreta. (Breve...)


segunda-feira, 25 de julho de 2016

Crônicas de Luz & Trevas - O Contrato - Parte 10


Sentada numa espreguiçadeira, Cláudia olhava o céu translúcido, onde, por instantes, podia ver além do que a capacidade humana alcançava. Achava maravilhoso poder ver, mas a habilidade ia e vinha e nunca durava muito tempo. Ficou imaginando o que seria preciso, para que pudesse manter a visão ou, pelo menos, controlá-la. Foi neste momento que, sem que percebesse, escutou a voz amiga e carinhosa a seu lado. Era Fabiano.

- Quando estiver mais acostumada com a realidade de sua imortalidade, isso será muito fácil.
- Ah!… Oi, Fabiano. Isso é outra coisa que ainda não me acostumei.
- É. No início é até mesmo um pouco embaraçoso.
- É. É isso mesmo. Sei lá! As pessoas lendo a mente da gente o tempo todo…
- Não é o tempo todo, Cláudia. No momento, sou responsável pelo teu monitoramento, para que se recupere da forma mais adequada e para tirar tuas dúvidas no que me for possível. Assim que estiveres recuperada, tua privacidade será respeitada e ninguém invadirá tua mente e teus pensamentos estarão seguros.
- Ainda bem. Acho que não confio mundo na minha mente; posso pensar algumas besteiras, mesmo sem querer.
- Está tudo bem. Isso também é normal. Você vai aprender a focar mais. Aliás, vai aprender muitas coisas e outras tantas, você irá relembrar, pois já aprendeu em outras oportunidades na erraticidade.
- Erraticidade?!
- Sim. Os períodos entre uma e outra reencarnações.
- Hum… Sabe, apesar de vocês me tratarem muito bem e eu estar me sentindo cada vez melhor, de vez em quando ainda tenho crises onde sinto muita dor no estômago e sinto como se estivesse perdendo a razão, pois minha mente fica muito confusa e eu sinto algum desespero…
- E é exatamente nestes momentos que viemos para te ajudar. Veja bem, você ainda está se recuperando e o que fez foi muito grave. Vamos amenizar o máximo possível tudo isso que você sente, mas algum incômodo permanecerá, pois só poderá ser completamente sanado através de um descenso para um corpo material.
- E quando eu terei que voltar para a Terra novamente?
- Esta resposta, eu não tenho, Cláudia. Desculpe-me. Essa é uma determinação que vem de altas esferas, quando for oportuno e só nos resta aguardar pacientemente, enquanto estudamos e fazemos de tudo para nos melhorarmos. Assim, nosso retorno tem mais chances de sucesso.
- Acho que eu entendo…

 Cláudia voltou a olhar para o céu, pensando no que Fabiano acabara de lhe dizer. Quanto tempo será que levaria? - Pensava. Então lembrou-se de algo.

-Fabiano..
- Sim.
- E a menina que me salvou? A… Anne? Gostaria muito de vê-la novamente. Sabe… Para agradecê-la.
- Ela esteve aqui algumas vezes, enquanto você estava em repouso recuperador. Talvez ela ainda passe aqui, antes de partir.
- Partir? Ela vai embora?
- Sim. Ela deve retornar a seu corpo.
- Como assim? Ela não está morta?
- Não. Anne é um caso especial. É difícil explicar sobre isso, pois é um caso raríssimo, para não dizer quase que único.
- Você está me deixando muito curiosa a respeito.
- Veja bem… Estamos passando por um momento muito peculiar neste ponto da galáxia e Anne é um espírito chave, pois ela pode influenciar em todo este processo de forma a que tudo aconteça bem, sem grandes tormentas ou pode arrastar-nos por mais um ou dois séculos de dores e sofrimento, o que oneraria consideravelmente todos os servidores da Luz.
- Mas então, por que colocar toda esta responsabilidade nas costas de uma menina? Isso não me parece justo.
- A justiça é muito relativa, quando olhamos com nossas débeis capacidades de abarcar os planos do Alto. Confesso que, se pudéssemos, optaríamos por um caminho diferente. No entanto, a vontade superior parece ter outros planos e não compreendemos ainda qual a real importância de Anne nisso tudo, mas parece que é muito maior do que qualquer um de nós possa realmente imaginar.
- Nossa! Coitada dela. Nem sei o que dizer. Me sinto tão pequena diante de meus próprios problemas que, mal consigo imaginar o que isso deve ser para ela. Que ela possa ter muita ajuda. Ela foi muito legal comigo… Se eu pudesse fazer qualquer coisa para ajudá-la, não pensaria duas vezes.

Fabiano sorriu sereno e, suspirando suavemente, olhou para o horizonte translúcido de cores fabulosas.

Continua...

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Neil Gaiman - "Faça Boa Arte!"


Em 2012, Neil “Sandman” Gaiman fez um belo discurso para os formandos da Universidade de Artes da Filadélfia, que logo foi postado na internet e se espalhou, inspirando muitos jovens artistas.

Os conceitos de arte, sonhos, bravura e a luta que os artistas devem travar, segundo Gaiman, devem sempre ser inspirados pelo objetivo de fazer “boa arte”.

Assista ao discurso de Gaiman legendado.



domingo, 24 de abril de 2016

Crônicas de Luz & Trevas - O Contrato - Parte 9


Tudo parecia tão tranquilo. O aglomerado de nuvens dava a sensação de quietude e, para qualquer um recém-chegado era exatamente este o efeito esperado por quem projetara toda aquela estrutura genial. Como deve ter sido difícil! – Pensou Anne. Não conseguia nem imaginar todo o processo.
Estava tão distraída que não percebeu a aproximação de Miguel, até que este se recostasse ao parapeito da varanda, exatamente a seu lado.

- Lindo, não é?
- Sim.
- Eu estava aqui, quando fizeram tudo.
- Ainda não me acostumei com essa coisa de telepatia. Confesso que, às vezes, tenho essa sensação estranha de ter sido invadida.
- Perdão. Há muito tempo estamos acostumados a compartilhar ideias e sentimentos, que nos deixamos levar pela naturalidade e esquecemos de respeitar os que ainda supervalorizam a privacidade ilusória.
- É difícil se acostumar a compartilhar com todos e o tempo todo, algo tão particular.
- Sim. Por isso mesmo, perdoe-me pela falta de sensibilidade.
- Está tudo bem. Qualquer hora eu acostumo.
- Acho que vai demorar um pouco, Anne.
- É. Pode ser.
- Para isso, a pessoa precisaria permanecer aqui.

Anne olhou para Miguel, entendendo imediatamente a indireta. Miguel, por sua vez, permaneceu contemplando a paisagem nebulosa.

- Estou sendo convidada a me retirar?
- Não é bem assim. Não é uma decisão de ninguém, mas sim uma necessidade natural.
- Miguel, você sabe que não aprecio rodeios...
- Anne, você está viva e precisa voltar. Não há outra alternativa. É preferível que você volte por escolha própria, pois assim será menos doloroso.
- Eu preciso de um tempo para...
- Essa é a questão; não há mais tempo. Há urgência em teu regresso, ou teu corpo entrará em colapso. Há uma missão programada e ele não resistirá muito tempo no estado de inércia, sem a presença de sua alma junto a si. Você tem que voltar!
- Mas...
- Anne, tudo que você tem feito aqui tem ajudado bastante e isso é louvável. Achei até engraçada a forma como lidou com meu irmão Lúcifer, mas por mais que todos façamos aqui trabalhos similares e integrantes deste tipo, ainda não é teu momento de estar aqui e sequer assumir este tipo de trabalho. Há uma tarefa pela metade na Terra; uma tarefa que você precisa realizar. Foi o combinado; se lembra?
- Mas eu achei que tivesse fracassado...
- Não há de fato fracasso real; ainda mais quando há vida no corpo físico.
- Não sei o que fazer, Miguel. E se retornasse continuaria sem saber que rumo tomar.
- Nós te ajudaremos no teu retorno. E sobre tua tarefa... Bom, mesmo sendo uma tarefa, de certo ponto de vista, hercúlea, ainda assim, você sempre teve amparo. Ou você pensa que é todo mundo que encontra facilmente com tantos avatares em projeção astral? Isso só acontece contigo, porque você tem uma missão especial e precisa de suporte espiritual condizente com a dificuldade do que tem a realizar. Você continuará tendo esse suporte. Volte aos estudos, quando estiver de volta à Terra. Não se antecipe. Há muito o que aprender em Shamballa. Apesar de o tempo urgir, ainda é possível que você se dedique aos estudos e se prepare melhor para o que virá.
- Kraemer?
- Sim. Mas apesar de ele ser uma peça fundamental em todo este processo, ajudando que a balança possa pender para o lado certo, no caso de você conseguir realizar parte de tua tarefa, há algo muito maior por trás e que vai precisar que vocês estejam realmente de acordo com o esperado, para que tudo caminhe como o planejamento superior.

Anne pensou um pouco e deu um longo suspiro.

- Está bem. Eu vou voltar.

Miguel sorriu para ela, pousando a mão em seu ombro.

- Nós estaremos com você, na medida que nos for permitido.
- Eu agradeço, Miguel. Sinto que vou precisar muito.

Continua...

domingo, 3 de abril de 2016

Deguste Anne Blind GRATUITAMENTE!

Deguste um pouquinho de meu novo livro Anne Blind entre Luz & Trevas GRATUITAMENTE!

É isso aí, gente! Já está disponível a versão digital de meu livro - na Amazon.com.

Segue abaixo, uma canjinha para quem gosta de dar uma "folheada", antes de adquirir.

Ah! Só uma dica: As Crônicas de Luz & Trevas que estão rolando no blog, divididas em capítulos, acontecem entre este primeiro volume e o próximo.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Crônicas de Luz & Trevas - O Contrato - Parte 5


A paisagem sobrenatural não lhe parecia mais tão estranha, desde que começou sua balada solitária. Ainda tinha dúvidas a respeito de muitas coisas e não estava absolutamente certa se fizera a melhor escolha. O fato é que, por enquanto, não queria tomar partido. Gostava imensamente de Helena, mas não se sentia adequada às altas vibrações de Shambala. Tomara decisões duvidosas e tivera atitudes questionáveis que a colocaram na situação em que estava agora. Poderia mudar tudo isso se quisesse, afinal fora sua própria escolha, mas não era uma questão de poder e sim de sentir-se merecedora. Além do mais, sentia-se no dever de ajeitar as coisas de seu próprio modo, mesmo que isso lhe custasse algum sofrimento extra. Afinal, saberia lidar com as consequências.
Sentiu a aproximação de alguém e no mesmo instante identificou Gabriel, que colocou-se a seu lado no vislumbre da citada paisagem.

- Linda, não é?
- O que?
- Toda essa vida efervecente e mutante do Plano Astral, constantemente em movimento.
- Hum... Aqui não é o Plano Astral.
- Todo lugar é o Plano Astral. O que muda é o ponto de vista do observador.
- Você entendeu o que eu disse... O Limiar ou Umbral.
- Sim, mas não retifico a informação. Ainda assim é questão de ponto de vista. O Limiar nao é um local propriamente dito; é uma condição temporária.
- Gabriel, se entrarmos num debate filosófico, a verdade é que tudo é temporário, inclusive a eternidade. Tudo é sempre um questão de ponto de vista.

Gabriel sorriu, pois sabia que as palavras de Anne traduziam a mais pura verdade. Tudo. Absolutamente tudo era temporal, mesmo o espírito imortal também estava em constante mudança.

- E então?... Por quanto tempo continuará neste personagem de paladina interdimensional?
- Personagem?... Não tinha parado para me classificar desta forma antes. É assim que você vê minha decisão?
- Mas não somos todos atores experimentando diversos personagens em inúmeáveis dramas? É como aprendemos sobre o espírito e tudo mais nessa relação transcendente.
- Não sei por quanto tempo. Ainda... Ainda não consigo assumir ou mesmo aceitar aquele outro “personagem” que vocês insistem em me apresentar.
- Entendo... No entanto, você sabe que o Universo não vai te esperar por muito tempo, não é? E, geralmente, quando isso acontece por muito tempo, Ele mesmo costuma engendrar estratagemas que te forçarão a enfrentar aquilo que tentas evitar.
- É... Sei bem como é. Mas confesso que, às vezes, isso me dá raiva. É como se não tivéssemos livre-arbítrio.
- O livre-arbítrio é para os ignorantes; aqueles que tem o conhecimento sabem que atitude e que caminho tomar, então não há de fato livre-arbítrio, mas consciência.

Anne sentiu-se envergonhada diante das palavras de Gabriel, mas não deixaria transparecer; ainda era muito orgulhosa.
Afastou-se do parapeito e voltou-se para Gabriel, colocando a mão em seu ombro.

- Sempre vou admirar você, Gabriel. Gosto muito de nossas conversas, mas preciso fazer o que sinto que devo fazer agora. Sei que é inevitável chegar às mesmas conclusões que você, mas agora estou bem longe disso e preciso acreditar no que sinto.
- Então vai continuar enfrentando e frustrando “demônios” por aí?

Anne sorriu.

- Humpf! Apesar da ironia, sim. Vou continuar fazendo o que atualmente é a única coisa que me dá alguma satisfação. Buda dizia que devemos matar o desejo, mas eu não sou Buda... ainda.

Sorrindo, Anne se afastou de Gabriel lentamente, caminhando em direção à zona tempestuosa que parecia uma tormenta à se aproximar, mas que nunca chegava. Foi distanciando-se, até que desapareceu engolida pelas brumas sombrias que cercavam aquele posto avançado às portas do Limiar. 

Continua...

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Memórias de Um Velho Futuro - Prólogo


Prólogo

Por quantos anos os sonhos perduraram, atravessando desafiadoramente nuvens e hálitos de dias funestos? Quantas palavras, dissertações e silenciosos olhares eternizaram a perfeita cumplicidade inigualável e absoluta? Quantos desejos não foram apaziguados na cama perfeita, nas luzes de dias perfeitos, na companhia simples e perfeita? 

Os anos passam rápidos e, de repente, abrimos os olhos e mais nada parece como antes, como se o tempo voasse além de nosso alcance no ínfimo fechar e abrir de pálpebras. E a inevitável certeza do agora que logo passa é o que resta para nos trazer de volta a solidão imposta, como se a felicidade tivesse que ser compensada com o isolamento de tudo quanto foi o mais importante.

A despedida não é algo fácil, mas a aceitação de seguir em frente é a pior dor de todas, quando se segue então sozinho.

Faz dez anos que ela se foi e, ainda assim, permanece a dificuldade de aceitar o eco de sua voz, como um suspiro sutil que parece passear por todos os cômodos da velha casa, explorando possibilidades de trazer de volta o passado, quando em realidade é apenas um reflexo de lembrança que escapa à sanidade e resvala pela mente distraída, dando a impressão da atemporalidade, como se nada tivesse mudado, fazendo-nos esquecer a realidade presente e reviver o amor tão vivaz quanto a realidade do passado que se foi.

A casa já não tem a vivacidade de antes. Os móveis continuam nos mesmos lugares, mas já não se tem forças para subir as velhas escadas em caracol que leva até a suíte de tantos sonhos, tantos momentos inesquecíveis. Melhor assim. Já é bastante difícil conviver com as muitas lembranças que o resto da casa amotina-se contra mim. 

O tempo passou e muita coisa mudou nestes dez anos. O velho carro continua na garagem, sem utilidade. Um bibelô, uma lembrança dos tempos de motores a explosão e a necessidade de veículos para se transportar de um lugar a outro. Os tempos são outros. As ruas são dos pedestres que vejo através das vidraças empoeiradas, quando me animo a olhar para o mundo lá fora. Com o advento dos portais interdimensionais, qualquer outro meio de transporte ficara obsoleto. Apenas eu permaneço aqui, isolado do presente, numa vã tentativa de perpetuar o passado, em nome de um amor que teima em não morrer. Talvez só minha morte possa devorar a ânsia inesgotável deste sentimento que perdura, que insiste em me acompanhar. Oh! Como leviano me tornei. Rio de minhas próprias lamentações, quando meu único desejo é manter esta chama dentro de mim indefinidamente, posto que sua luz ilumina o que me resta de sã consciência. 

Como me fazes falta, minha querida...

Memórias de um Velho Futuro
Uma novela de Alexander Zimmer