quinta-feira, 20 de abril de 2017

3 Razões para Você Ler Mais, Mesmo Sendo de Exatas

Era uma típica aula prática de Programação: os alunos, sentados nos seus computadores, tinham uma lista de problemas para resolver enquanto eu circulava pela sala, ajudando-os com as dúvidas que iam surgindo.

Eis que um dos alunos, um bom aluno, me chama e pergunta: professora, não entendi a questão 17, pode me explicar?

Brinquei com ele que eu não tinha memória de elefante, e não sabia de cabeça qual era a questão 17 da lista. Fui até ele, peguei a apostila e comecei a ler em voz alta o enunciado que tinha umas cinco linhas de texto. Quando eu terminei a leitura, o aluno fez cara de quem foi atingido por um raio de luz e declarou: “Ah, agora entendi!” E começou a escrever o programa para resolver o problema.

– “Como assim, entendeu? Eu só li o problema, nem comecei a explicar…”

Uma fração de segundo depois, quem foi atingida por um raio fui eu: tinha me dado conta de que o que ele não tinha entendido era o texto, e não o problema em si! Uma vez que eu fiz a leitura em voz alta, ele entendeu claramente o que dizia ali e o que era para fazer. Ou seja, o rapaz – um estudante universitário fazendo um curso concorrido de uma instituição pública de ensino superior – tinha um sério problema de leitura.

Este é um exemplo extremo, mas o problema não é tão incomum. E não é que os meus alunos fossem particularmente problemáticos. A pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, encomendada ao IBOPE pela Instituto Pró-livro, indica que o brasileiro lê menos de dois livros a cada três meses. E este número inclui livros apenas parcialmente lidos E livros didáticos.

Ora, a gente sabe que a “galera de humanas” naturalmente puxa essa média para cima… Daí dá para imaginar que o estado das coisas entre a turma de exatas é ainda mais dramático.

Além do aluno da história acima, não foram raros os casos de alunos fazendo careta toda vez que se deparavam com aqueles problemas “com história”. Qualquer coisa que não fosse no formato “resolva a equação abaixo” era visto com medo e até um certo ressentimento.

Entretanto, a leitura correta dos enunciados de questões de prova é o menor dos problemas de um futuro Engenheiro. Por isso, vou contar três motivos para você ler mais e aprimorar esta habilidade fundamental, mesmo você sendo de Exatas até a raiz dos cabelos… Claro que existe muito mais razões para ler que estas, mas será que você já tinha pensado nestas três?

Razão #1: Você gosta de ler

Dizer que não gosta de ler é como dizer que não gosta de garfo e faca. Simplesmente não faz sentido algum!

Ler é meramente uma ferramenta para você atingir um fim. Você pode gostar de carne assada e não gostar de abóbora, mas o garfo e a faca não tem absolutamente nada a ver com isso.

Do mesmo jeito, você pode até não gostar de ler romances do século XIX, mas com certeza tem algum assunto no qual você tem um interesse mais intenso.

Suponha que o seu interesse mais imediato é encontrar uma namorada ou namorado. Nada a ver com leitura, certo? No entanto, se o seu melhor amigo disser para você que tem um livro que ensina uma receita infalível para conquistar qualquer pessoa que você queira, você vai ler o livro ou não?

Ok, talvez este exemplo tenha sido meio apelativo…

Então você quer mais uma prova de que você gosta de ler? Bem, você chegou até aqui neste texto. Provavelmente o texto chamou a sua atenção o suficiente para que você nem pensasse no “esforço” necessário para ler as mais de 650 palavras do artigo até o momento…

Tem um detalhe nisto tudo que pode explicar o seu pouco apetite para os livros: uma faca cega pode arruinar o seu almoço, principalmente se você estiver com fome. Neste caso, a faca deixa de ser coadjuvante da refeição e vira o centro das atenções, de uma forma nada positiva para ela (a faca). De repente, você passa a verdadeiramente odiar todas as facas.

O mesmo acontece se a sua leitura for lenta demais. Ler muito devagar é como comer com uma faca cega: incrivelmente irritante e frustrante.

A solução é aprender a ler mais rápido. E ao contrário do que você pode estar imaginando, ler mais rápido (na verdade, muito mais rápido) não só é perfeitamente possível como pode ajudar você entender bem melhor aquilo que lê. Confira por você mesmo.

Razão #2: Você não quer um cérebro atrofiado

Tenho certeza de que todo mundo na sua família acha você inteligente, provavelmente mais inteligente que a maioria dos mortais, pelo simples fato de você ser de Exatas. É justo: qualquer pessoa que enfrente toda aquela matemática por vontade própria merece um crédito extra!

Agora, cá entre nós, o cérebro humano precisa de variedade. A neurociência comprova que as atividades que mais ajudam o cérebro a se manter afiado são aquelas que envolvem novos aprendizados. Quanto mais diferente daquilo que você está acostumado, melhor.

Ou seja, se você ficar só na sua zona de conforto, mesmo que seu conforto esteja em fazer cálculos complicados para a maioria das outras pessoas, você está deixando o seu cérebro atrofiar em algum aspecto.

Assustador?

Tudo bem. Você pode começar a mudar isso agora, e aprender a ler de um jeito novo (e muito mais veloz)?

Gente e diversão: dois motivos em um

Você pode adorar aquelas equações, mas na vida real quase ninguém está realmente interessado nisto. Se esse fato é chocante ou irritante para você, talvez você esteja precisando desenvolver sua capacidade para a empatia.

A empatia é a habilidade de se colocar no lugar de outra pessoa e entender o ponto de vista dela, mesmo que ele seja diferente do seu.

Uma excelente maneira de aprender sobre as diferentes formas de se enxergar a vida é através da leitura. Ler sobre pessoas diferentes de você, vivendo em outras épocas, participando de diferentes grupos sociais e passando por experiências que talvez você nunca tenha a chance de passar, dá a você uma dimensão muito mais rica do ser humano.

Só esteja ciente de que você pode acabar com uma enorme vontade de interagir com pessoas diferentes e viver algumas experiências mais variadas, mesmo incluindo pessoas que não são de Exatas!

Neste caso, um pouco de cultura geral pode ajudar a manter as conversas interessantes. E onde mais você vai conseguir uma cultura geral, se não for nos livros? (saber todos os nomes dos participantes do último BBB não vale, ok?)

Você não precisa ler tratados de Filosofia para ter uma cultura geral acima da média. Pelo contrário, você pode aprender se divertindo. Por exemplo, dá para descobrir um bocado sobre a história da França de Napoleão lendo a biografia de Josefina. E de bônus você ainda vai rir um bocado com a peripécias sexuais da alta classe francesa da época.

Ana Lopes
Doutora em Ciência da Computação pela UFMG e ex-professora universitária, a autora do blog Mais Aprendizagem tem como missão ensinar e divulgar métodos de aprendizagem que trabalhem em cooperação com o funcionamento do cérebro, e prepare cada ser humano para brilhar em plenitude no século XXI.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

A Última Aventura


Do alto da torre mais alta de seu castelo, ele olhava impávido o cintilar das milhares de estrelas da via láctea, que refletiam em seu olhar vítreo e inumano, onde difícil se tornava vislumbrar razão ou insanidade; qualquer conflito. Nada. Apenas o cintilar estelar.

Moveu-se lentamente, sentando-se sobre o telhado. O vento frio sé era percebido pelo balanço de seus cabelos longos, lisos e brancos.

Cruzadores atravessavam de um lado para o outro, na órbita do velho planeta. Ele não os via, mas sabia que estavam lá, silenciosamente deslizando na negritude celeste, prontos para a guerra, numa época onde não existiam mais guerras. Os conflitos exteriores do ego há muito haviam sido substituídos pelos conflitos internos. As frivolidades da personalidade já não pertenciam à abrangente realidade do mundo interior. Fora um caminho difícil até ali. Fora necessário muito desprendimento, cujo preço fora o sofrimento individual, a luta contra a abstinência dos desejos eternamente insatisfeitos e que precisavam ser abandonados.

A última guerra foi travada e toda a história tomou um novo rumo.

Cidades caíram e foram reconstruídas da forma correta. Algumas nem mesmo reconstruídas foram, sendo devidamente substituídas pela arte sublime da natureza.

Por trás de seu vítreo olhar, as emoções deslizavam suaves entre um estado e outro de pura tranquilidade e ausência de qualquer descompensação.

O planeta mudara, porque os seres humanos mudaram. Resistiram até o cansaço, mas finalmente mudaram.

As estrelas cintilavam em seu olhar, mas ele não as via. Toda sua atenção estava em sentir. Há muito tempo haviam descoberto que o importante não era ver ou fazer, mas apenas sentir. Sinta! - Dizia seu velho amigo e mestre. Ah! Quanto tempo levou para que finalmente o escutasse com a alma e compreendesse a profundidade do que lhe dizia!

Há muito, deuses e qualquer definição de Deus deixara de ter importância; o sentir dera novos rumos à compreensão do universo e o quanto isso implicava no entendimento de si mesmo. O segredo era sentir. Não era propriamente um segredo, mas até então, todos procuravam viver suas vidas como se o sentir não fosse importante. Talvez, porque realmente não alcançassem o significado absoluto de sentir.

Pequenos bólidos em chamas cruzavam a abóbada celeste vez ou outra, queimando em seu atrevimento por chegarem tão próximos da atmosfera.

Deitou-se sobre as telhas frias para aliviar o pescoço e as costas, que começavam a doer.

Pensou por um momento na possibilidade de não existir. Não estava triste nem nada, apenas pensou em como seria interessante, se simplesmente deixasse de existir. Qual deveria ser a sensação?

Sentiu no peito o chamado da aventura. Um pequeno tremer dos lábios denunciou a ousadia de um pequeno sorriso.

Respirou fundo e, fechando os olhos, simplesmente não estava mais lá.

O vento continuou soprando frio; único som furtivo da noite. E as estrelas continuaram a cintilar no firmamento da noite sem fim.


quarta-feira, 5 de abril de 2017

Sob A Luz do Deserto


A primeira coisa de que me lembro é o sol quente queimando meu rosto e ofuscando minha vista. Meus pés doíam, como se eu já tivesse andado por quilômetros. Pois é, esta é a questão, eu não me lembrava de nada.

A pior coisa que pode acontecer com alguém é não lembra-se de nada. Acrescenta-se a isso um imenso deserto, que bem poderia estar em qualquer parte e pronto! A receita perfeita para a melhor – ou pior! - forma de estar perdido.

A questão era grave. O fato é que, não bastasse não ter a mínima ideia de onde estava e de como fora parar ali, também não lembrava sequer quem eu era. Nada. Nenhum resquício de qualquer lembrança que me ajudasse a ter uma pista de quem era esse ambulante cercado de todos os lados por um imenso deserto.

Estava tão cansado… Sentia dores localizadas em diversas partes do corpo. Em algumas delas acompanhavam manchas arroxeadas. 

Como diabos eu fora parar ali? E por que?

Quem era eu?

E se eu fora colocado ali para morrer? De repente, vai ver eu tinha me metido com algum tipo de máfia e que agora me cobrava o preço de alguma atitude imbecil.

Não dava. Qualquer história poderia preencher a lacuna, mas nenhuma delas fazia qualquer sentido.   Aliás, não creio que qualquer coisa possa fazer algum sentido, quando não se sabe sequer o próprio nome.

Continuei andando. Não me restavam muitas opções. Ou eu continuava andando, ou ficava ali, torrando naquele sol insuportável.

Havia alguns amontoados de rocha não muito distantes e que poderiam me oferecer alguma sombra, pelo menos enquanto o sol estivesse a pino.

Não foi difícil encontrar uma fenda com alguma sombra. Não era lá essas coisas, mas era profunda o bastante para proteger-me do calor excessivo e estava bom assim. Era isso, ou o sol queimando a “mufa”.

Tentei lembrar alguma coia, forçando a memória, mas o máximo que consegui foram pequenos flashes sem sentido.

Fiquei ali, esperando o sol baixar um pouco e descansando meus pés, os quais já libertara dos sapatos.

Por algum tempo tentei lembrar de alguma coisa, mas logo percebi que fazer força não era o melhor caminho; o único resultado foi uma dor de cabeça bem chatinha, que veio se juntar aos demais incômodos que me torturavam lentamente.

O silêncio, que muitas vezes almejamos, tornava-se supremo naquele meio de nada. Sua supremacia era tão poderosa, que chegava a incomodar; não havia o mais simples ruído. Nada. Mas eu estava tão cansado e incomodado com o calor, que mesmo opressor, o silêncio fazia parte do refrigério proporcionado por aquele buraco sombreado na rocha.

Procurei relaxar ao máximo para aproveitar e tentar recuperar as forças. Estranhamente não estava com sede. Fechei os olhos e concentrei-me no vai e vem da respiração.


Acordei sobressaltado com um uivo distante que, à princípio, não tive certeza se fora parte de um sonho, ou realmente acontecera; mas, em seguida, novo uivo veio a confirmar a realidade.

Levantei-me com certa dificuldade, sentindo algumas dores nas articulações; nada anormal; aquela fenda estava muito distante do conceito de cama.

O deserto permanecia silencioso, a não ser pelo ocasional uivo do coiote.

Continuava sem lembranças. Nem flashes, nem nada. O sono não gerou sonhos que pudessem me dar uma pista.

A noite estava escura, muito escura. A via-láctea enfeitava o céu, como uma pintura de Van Gogh.

Notei que estava sentindo frio, não pela sensação em si, que ainda não tinha dado-me conta, mas porque minhas mãos e meus lábios tremiam, o que logo se espalhou por todo o corpo.

Esfreguei os braços procurando algum alívio, enquanto olhava ao redor, tentando identificar algum graveto, já pensando em acender uma fogueira, mas a noite estava escura demais e mal podia ver minhas próprias mãos diante do rosto.

Comecei a saltitar na esperança de que o exercício gerasse algum calor, mas o frio era muito intenso e logo ainda estava gelado e, agora, também cansado. 

Estava consciente de que precisava fazer alguma coisa, ou aquela noite seria minha última noite, mas não conseguia pensar direito; o frio estava avançando rapidamente.

Caí de joelhos.

A respiração estava difícil.

Senti algo chocar-se contra meu corpo. Alguma animal, talvez…

Algo arranhava meu rosto. Parecia… areia. Dei-me conta de que nada se chocara realmente contra mim; tomado pelo frio devorador, não me dei conta de que caíra de vez. O baque que senti fora de meu corpo atingindo o solo arenoso.

Estava morrendo.

Já quase não sentia meu próprio corpo. Começava a entrar num estado, onde as coisas eram incertas e já não sabia se dormia ou delirava. Não dava para confiar mais em meus sentidos.

Uma luz… Talvez. Não sabia. Talvez estivesse delirando de fato.

Uma sombra na luz; uma mancha crescente; algo disforme e crescente.

Já não conseguia manter os olhos abertos. Piscava lentamente.

A mancha escura crescia na luz, tomando finalmente forma. Parecia alguém, um ser humano que se aproximava.

Senti-me flutuar. Já não sentia a areia no rosto.

Movimento. Delirava? Não. Movimento, sim.

Ah… Tanto sono…

Não resisti. Mergulhei na escuridão. Perdi os sentidos.


Vozes.

Não entendo o que dizem.

Alguém me observa. Não consigo ver direito; parece um sonho. Imagens vem desconexas, formando histórias absurdas em minha mente delirante.

Não sei quanto tempo fiquei assim, perdido entre sonho e consciência. Nada fazia sentido. Eu só queria que esta confusão dispersasse e pudesse dormir em paz, sem delírios, sem sonhos. Nada.

- Você ficará bem. - Alguém disse. Ou pareceu dizer.

Voltei à escuridão do sono profundo.

Senti um suave carinho em meu rosto, cujo frescor era alento delicioso. Tive receio de abrir os olhos e tudo parar, mas a curiosidade falou mais alto.

Deitado numa chaise, era acariciado pela suave brisa, cujo perfume era indefinível. Ao meu redor, uma enorme varanda de detalhados e delicados afrescos. Diante de mim, uma visão exuberante de enormes fiordes decorados de inúmeras e distantes cachoeiras, cujas águas atiravam-se vertiginosa e lentamente rocha abaixo.

Uma mesa de cristal estendia-se a meu lado, repleta de diversas frutas e iguarias que não conhecia.

Lembrei-me do deserto e pareceu-me uma lembrança distante. Apenas uma lembrança.

Um repentino esvoaçar de seda, porém suave e harmonioso em seus movimentos, prenunciou a chegada sobrenatural de uma linda mulher, mas que não parecia uma mulher com se espera. Sua pele extremamente branca e delicada, seus olhos de um tênue azul quase branco e seu sorriso confortador, emoldurados por comprida e sedosa cabeleira branca como a neve, davam-lhe o aspecto de um anjo ou uma deusa de um panteão há muito esquecido pelos homens.

Ela segurou meu rosto estático, numa expressão de fascínio, entre suas delicadas mãos e seu olhar pareceu penetrar-me os mais profundos recônditos de minha alma.

 – Joriel… Que estrela te mantém cativo do véu de Ísis?

Eu não sabia o que dizer. Mergulhado entre fascínio e confusão, mal conseguia discernir as coisas, entào não havia como escolher palavra; apenas continuei olhando em seus tenros olhos.

 – Não importa, por hora. Fico feliz em recebê-lo de volta de teu exílio.

Ela abraçou-me e tudo mais não importava. Senti-me envolto pelo total conforto, que preencheu-me até a alma e que somente o amor verdadeiro torna possível.

E já não importavam desertos, memórias, nomes… Já não importavam vida ou morte. Eu só queria continuar ali, no aconchego daquele abraço atemporal, como se o fim fosse apenas uma quimera e aquele momento jamais se perdesse no tempo.

quinta-feira, 16 de março de 2017

SOMBRIOS MOMENTOS INFANTIS

Ela entrou no ônibus como comumente fazem as pessoas. Pagou como todo mundo e sentou-se.

Confesso que, a princípio, nada despertara minha atenção para aquela senhorinha. Estava entretido entre a paisagem a deslizar pela janela e os raios de sol que repetidamente ofuscavam-me a visão. Mas, assim que o estalo da roleta anunciou sua passagem, voltei-me para ela inadvertidamente, levado por uma força imperceptível de alguém que olha apenas por querer experimentar outra paisagem. Foi então que nossos olhares se cruzaram e um cintilar diferente prendeu minha atenção. No mesmo instante, certo incômodo percorreu meu íntimo; uma sensação de perigo e, ao mesmo tempo, como se um magnetismo sobrenatural e até agradável me impedisse de desviar o olhar.

Ela foi quem desviou o olhar primeiro. Sentou-se e deu uma rápida olhada inexpressiva, voltando a olhar para a frente.

Não estava realmente nervoso, mas podia sentir o ritmo diferenciado de meu coração dentro do peito. 

Tentava disfarçar, mas meus olhos acabavam incontrolavelmente voltando para ela.

Procurava dizer-me silenciosamente que minha preocupação era absurda e que minha reação a uma simples senhora, num momento comum do cotidiano, beirava a insanidade. No entanto, era impossível ignorar a estranha sensação de alerta, que fugia-me à compreensão. Não havia nada de extraordinário nela; até mesmo sua vestimenta era bem simples e nada extravagante.

Fiquei ali, observando e desviando o olhar, não sem grande esforço, na tentativa inútil de parecer natural.

Um vendedor ambulante entrou e começou a anunciar monotonamente seus produtos comestíveis e industriais, como se fossem a nova maravilha da alimentação, cuja a qualidade de distrair-nos a viagem fosse razão suficiente para ignorarmos os corantes, conservantes, estabilizadores e aromas artificiais – quase todos cancerígenos – e adquiríssemos um dos pacotes vendidos.

Ela o ignorou completamente. No entanto, olhou-me como sentindo-se e invadida. Apertou os olhos como fazem os felinos quando estão incomodados e voltou-se novamente para a frente.

Congelei.

- Mas que diabos! - Engoli em seco e comecei a sentir medo. Passei a pensar na possibilidade de descer em qualquer ponto, mesmo que ainda estivesse bem longe de meu destino. Em minha mente se estabelecia um conflito entre razão e um estado de quase pânico, onde a insanidade começava a sustentar um papel preponderantemente anarquista.

O que era aquilo? Por que estava me sentindo daquele jeito? Afinal, era somente uma senhora nada ameaçadora; não estava com uma faca na mão, em um lugar suspeitoso, mas sim, dentro de um ônibus e rodeados por outras tantas pessoas! Mas minha mente permanecia cativa de uma inquietude incontrolável, deixando-me todos os sentidos à flor da pele. 

Chamei o vendedor ambulante e comprei um saco de balas. Talvez o açúcar me ajudasse a acalmar os nervos, o que não estava conseguindo fazer sozinho.

Ela olhou-me novamente de rabo de olho, como se sentisse tudo o que se passava em minha mente desequilibrada.

Voltou a olhar para a frente.

Segurou na alça do banco da frente e, com um impulso, pôs-se de pé. Virou-se lentamente, enquanto ajeitava-se e veio caminhando pelo corredor, em minha direção.

Comecei a suar frio. 

Meu coração mantinha-se acelerado, como o rufar de mil tambores em uníssono que só eu ouvia, mas parecia tão alto, que todos bem poderiam estar escutando.

Ela veio andando e passou por mim lentamente. Parecia-me uma eternidade.

Assim que ela passou, foi como se o tempo parasse. Será que ela teria passado e seguido até o final do corredor, descendo do ônibus, ou parara atrás de mim, tornando-me a vítima perfeita e sem qualquer possibilidade de reação de seja lá quais fossem seus planos obscuros e, talvez, terríveis?

Embora apenas alguns segundos tivessem passado, a eternidade se estendia em meus sentidos, feito um carrasco entre o levantar do machado e o ocaso fatal.

Aquele suplício não poderia continuar. Então, tomei a coragem que, aparentemente, eu não tinha e virei o rosto, torcendo o corpo em seguida, procurando alcançar com a vista, o fundo do ônibus. Olhei cada pessoa sentada e em pé, vasculhando cada feição, cada vão que pudesse estar fora do meu campo de visão.

Nada.

Respirei tão profunda e ruidosamente que, acho, todos no ônibus perceberam, muito embora não pudessem compreender e nem se importassem de fato.

Voltei-me novamente para a frente aliviado. Ela descera.

Fui acalmando-me aos poucos, até que comecei a duvidar de minha própria sanidade e a rir de mim mesmo. O que fora aquele inusitado repente de loucura? Mas, então, relembrei a estranha sensação que senti, quando a senhora entrara no ônibus; seu olhar que parecia prescrutar minha alma. Fiquei sério e pensativo.

Há momentos em nossas vidas, onde tudo parece tão normal quanto sempre foi, até que, por um descuido qualquer do destino, ou por seu puro deleite, como se fosse uma entidade consciente e quisesse divertir-se conosco, deixasse que universos diferentes atravessassem uma encruzilhada no mesmo instante, nos atirando como atores num palco de vida e morte, onde nos tornamos derradeiros personagens tão infantis quanto sombrios. E sem que percebamos, somos às vezes lobo e outras vezes, chapeuzinho vermelho.

A.Zimmer

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

SONHOS

Algumas noites
Me levam as sombras
Me mostram vozes perdidas
E observo outros reinos
Passagens restritas 
Nenhuma ciência pode supor
Que sonhos façam sentido
Todas as dores de quem não vê
Seu ideal ferido 
Na luz perco a razão
Reinventando o tempo vazio
Esperando a vinda do sol
Que me leve do infinito frio 
O mar quebra na praia
Indiferente ao céu noturno
Enquanto caminho solitário
Imerso, infinito e soturno.

Olhos No Espelho

Olho-me no espelho
Vejo olhos através de olhos
Impávido fico... observando
A incerteza de ser eu.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Um pedacinho do livro que estou escrevendo...

Primeiras lembranças...

Por quantos anos os sonhos perduraram, atravessando desafiadoramente nuvens e hálitos de dias funestos? Quantas palavras, dissertações e silenciosos olhares eternizaram a perfeita cumplicidade inigualável e absoluta? Quantos desejos não foram apaziguados na cama perfeita, nas luzes de dias perfeitos, na companhia simples e perfeita? 

Os anos passam rápidos e, de repente, abrimos os olhos e mais nada parece como antes, como se o tempo voasse além de nosso alcance no ínfimo fechar e abrir de pálpebras. E a inevitável certeza do agora que logo passa, é o que resta para nos trazer de volta a solidão imposta, como se a felicidade tivesse que ser compensada com o isolamento de tudo quanto foi o mais importante.

A despedida não é algo fácil, mas a aceitação de seguir em frente é a pior dor de todas, quando se segue então sozinho.

Faz dez anos que ela se foi e, ainda assim, permanece a dificuldade de aceitar o eco de sua voz, como um suspiro sutil, que parece passear por todos os cômodos da velha casa, explorando possibilidades de trazer de volta o passado, quando em realidade é apenas um reflexo de lembrança que escapa à sanidade e resvala pela mente distraída, dando a impressão da atemporalidade, como se nada tivesse mudado, fazendo-nos esquecer a realidade presente e reviver o amor tão vivaz quanto a realidade do passado que se foi.

A casa já não tem a vivacidade de antes. Os móveis continuam nos mesmos lugares, mas já não se tem forças para subir as velhas escadas em caracol, que leva até a suíte de tantos sonhos, tantos momentos inesquecíveis. Melhor assim. Já é bastante difícil conviver com as muitas lembranças que o resto da casa amotina-se contra mim. 

O tempo passou e muita coisa mudou nestes dez anos. O velho carro continua na garagem, sem utilidade. Um bibelô, uma lembrança dos tempos de motores a explosão e a necessidade de veículos para se transportar de um lugar a outro. Os tempos são outros. As ruas são dos pedestres que vejo através das vidraças empoeiradas, quando me animo a olhar para o mundo lá fora. Os meios de transporte usuais ficaram obsoletos. Apenas eu permaneço aqui, isolado do presente, numa vã tentativa de perpetuar o passado, em nome de um amor que teima em não morrer. Talvez só minha morte possa devorar a ânsia inesgotável deste sentimento que perdura, que insiste em me acompanhar. Oh! Como leviano me tornei. Rio de minhas próprias lamentações, quando meu único desejo é manter esta chama dentro de mim indefinidamente, posto que sua luz ilumina o que me resta de sã consciência. 

Como me fazes falta, minha querida...