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sexta-feira, 12 de maio de 2017

Titi Fux e A Barraca Voadora - Degustação Grátis!

É isso aí, gente! Já está disponível a versão digital de meu novo livro - meu primeiro infanto-juvenil! - na Amazon.com.

Segue abaixo, uma canjinha para quem gosta de dar uma "folheada", antes de adquirir:



quinta-feira, 20 de abril de 2017

3 Razões para Você Ler Mais, Mesmo Sendo de Exatas

Era uma típica aula prática de Programação: os alunos, sentados nos seus computadores, tinham uma lista de problemas para resolver enquanto eu circulava pela sala, ajudando-os com as dúvidas que iam surgindo.

Eis que um dos alunos, um bom aluno, me chama e pergunta: professora, não entendi a questão 17, pode me explicar?

Brinquei com ele que eu não tinha memória de elefante, e não sabia de cabeça qual era a questão 17 da lista. Fui até ele, peguei a apostila e comecei a ler em voz alta o enunciado que tinha umas cinco linhas de texto. Quando eu terminei a leitura, o aluno fez cara de quem foi atingido por um raio de luz e declarou: “Ah, agora entendi!” E começou a escrever o programa para resolver o problema.

– “Como assim, entendeu? Eu só li o problema, nem comecei a explicar…”

Uma fração de segundo depois, quem foi atingida por um raio fui eu: tinha me dado conta de que o que ele não tinha entendido era o texto, e não o problema em si! Uma vez que eu fiz a leitura em voz alta, ele entendeu claramente o que dizia ali e o que era para fazer. Ou seja, o rapaz – um estudante universitário fazendo um curso concorrido de uma instituição pública de ensino superior – tinha um sério problema de leitura.

Este é um exemplo extremo, mas o problema não é tão incomum. E não é que os meus alunos fossem particularmente problemáticos. A pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, encomendada ao IBOPE pela Instituto Pró-livro, indica que o brasileiro lê menos de dois livros a cada três meses. E este número inclui livros apenas parcialmente lidos E livros didáticos.

Ora, a gente sabe que a “galera de humanas” naturalmente puxa essa média para cima… Daí dá para imaginar que o estado das coisas entre a turma de exatas é ainda mais dramático.

Além do aluno da história acima, não foram raros os casos de alunos fazendo careta toda vez que se deparavam com aqueles problemas “com história”. Qualquer coisa que não fosse no formato “resolva a equação abaixo” era visto com medo e até um certo ressentimento.

Entretanto, a leitura correta dos enunciados de questões de prova é o menor dos problemas de um futuro Engenheiro. Por isso, vou contar três motivos para você ler mais e aprimorar esta habilidade fundamental, mesmo você sendo de Exatas até a raiz dos cabelos… Claro que existe muito mais razões para ler que estas, mas será que você já tinha pensado nestas três?

Razão #1: Você gosta de ler

Dizer que não gosta de ler é como dizer que não gosta de garfo e faca. Simplesmente não faz sentido algum!

Ler é meramente uma ferramenta para você atingir um fim. Você pode gostar de carne assada e não gostar de abóbora, mas o garfo e a faca não tem absolutamente nada a ver com isso.

Do mesmo jeito, você pode até não gostar de ler romances do século XIX, mas com certeza tem algum assunto no qual você tem um interesse mais intenso.

Suponha que o seu interesse mais imediato é encontrar uma namorada ou namorado. Nada a ver com leitura, certo? No entanto, se o seu melhor amigo disser para você que tem um livro que ensina uma receita infalível para conquistar qualquer pessoa que você queira, você vai ler o livro ou não?

Ok, talvez este exemplo tenha sido meio apelativo…

Então você quer mais uma prova de que você gosta de ler? Bem, você chegou até aqui neste texto. Provavelmente o texto chamou a sua atenção o suficiente para que você nem pensasse no “esforço” necessário para ler as mais de 650 palavras do artigo até o momento…

Tem um detalhe nisto tudo que pode explicar o seu pouco apetite para os livros: uma faca cega pode arruinar o seu almoço, principalmente se você estiver com fome. Neste caso, a faca deixa de ser coadjuvante da refeição e vira o centro das atenções, de uma forma nada positiva para ela (a faca). De repente, você passa a verdadeiramente odiar todas as facas.

O mesmo acontece se a sua leitura for lenta demais. Ler muito devagar é como comer com uma faca cega: incrivelmente irritante e frustrante.

A solução é aprender a ler mais rápido. E ao contrário do que você pode estar imaginando, ler mais rápido (na verdade, muito mais rápido) não só é perfeitamente possível como pode ajudar você entender bem melhor aquilo que lê. Confira por você mesmo.

Razão #2: Você não quer um cérebro atrofiado

Tenho certeza de que todo mundo na sua família acha você inteligente, provavelmente mais inteligente que a maioria dos mortais, pelo simples fato de você ser de Exatas. É justo: qualquer pessoa que enfrente toda aquela matemática por vontade própria merece um crédito extra!

Agora, cá entre nós, o cérebro humano precisa de variedade. A neurociência comprova que as atividades que mais ajudam o cérebro a se manter afiado são aquelas que envolvem novos aprendizados. Quanto mais diferente daquilo que você está acostumado, melhor.

Ou seja, se você ficar só na sua zona de conforto, mesmo que seu conforto esteja em fazer cálculos complicados para a maioria das outras pessoas, você está deixando o seu cérebro atrofiar em algum aspecto.

Assustador?

Tudo bem. Você pode começar a mudar isso agora, e aprender a ler de um jeito novo (e muito mais veloz)?

Gente e diversão: dois motivos em um

Você pode adorar aquelas equações, mas na vida real quase ninguém está realmente interessado nisto. Se esse fato é chocante ou irritante para você, talvez você esteja precisando desenvolver sua capacidade para a empatia.

A empatia é a habilidade de se colocar no lugar de outra pessoa e entender o ponto de vista dela, mesmo que ele seja diferente do seu.

Uma excelente maneira de aprender sobre as diferentes formas de se enxergar a vida é através da leitura. Ler sobre pessoas diferentes de você, vivendo em outras épocas, participando de diferentes grupos sociais e passando por experiências que talvez você nunca tenha a chance de passar, dá a você uma dimensão muito mais rica do ser humano.

Só esteja ciente de que você pode acabar com uma enorme vontade de interagir com pessoas diferentes e viver algumas experiências mais variadas, mesmo incluindo pessoas que não são de Exatas!

Neste caso, um pouco de cultura geral pode ajudar a manter as conversas interessantes. E onde mais você vai conseguir uma cultura geral, se não for nos livros? (saber todos os nomes dos participantes do último BBB não vale, ok?)

Você não precisa ler tratados de Filosofia para ter uma cultura geral acima da média. Pelo contrário, você pode aprender se divertindo. Por exemplo, dá para descobrir um bocado sobre a história da França de Napoleão lendo a biografia de Josefina. E de bônus você ainda vai rir um bocado com a peripécias sexuais da alta classe francesa da época.

Ana Lopes
Doutora em Ciência da Computação pela UFMG e ex-professora universitária, a autora do blog Mais Aprendizagem tem como missão ensinar e divulgar métodos de aprendizagem que trabalhem em cooperação com o funcionamento do cérebro, e prepare cada ser humano para brilhar em plenitude no século XXI.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Um pedacinho do livro que estou escrevendo...

Primeiras lembranças...

Por quantos anos os sonhos perduraram, atravessando desafiadoramente nuvens e hálitos de dias funestos? Quantas palavras, dissertações e silenciosos olhares eternizaram a perfeita cumplicidade inigualável e absoluta? Quantos desejos não foram apaziguados na cama perfeita, nas luzes de dias perfeitos, na companhia simples e perfeita? 

Os anos passam rápidos e, de repente, abrimos os olhos e mais nada parece como antes, como se o tempo voasse além de nosso alcance no ínfimo fechar e abrir de pálpebras. E a inevitável certeza do agora que logo passa, é o que resta para nos trazer de volta a solidão imposta, como se a felicidade tivesse que ser compensada com o isolamento de tudo quanto foi o mais importante.

A despedida não é algo fácil, mas a aceitação de seguir em frente é a pior dor de todas, quando se segue então sozinho.

Faz dez anos que ela se foi e, ainda assim, permanece a dificuldade de aceitar o eco de sua voz, como um suspiro sutil, que parece passear por todos os cômodos da velha casa, explorando possibilidades de trazer de volta o passado, quando em realidade é apenas um reflexo de lembrança que escapa à sanidade e resvala pela mente distraída, dando a impressão da atemporalidade, como se nada tivesse mudado, fazendo-nos esquecer a realidade presente e reviver o amor tão vivaz quanto a realidade do passado que se foi.

A casa já não tem a vivacidade de antes. Os móveis continuam nos mesmos lugares, mas já não se tem forças para subir as velhas escadas em caracol, que leva até a suíte de tantos sonhos, tantos momentos inesquecíveis. Melhor assim. Já é bastante difícil conviver com as muitas lembranças que o resto da casa amotina-se contra mim. 

O tempo passou e muita coisa mudou nestes dez anos. O velho carro continua na garagem, sem utilidade. Um bibelô, uma lembrança dos tempos de motores a explosão e a necessidade de veículos para se transportar de um lugar a outro. Os tempos são outros. As ruas são dos pedestres que vejo através das vidraças empoeiradas, quando me animo a olhar para o mundo lá fora. Os meios de transporte usuais ficaram obsoletos. Apenas eu permaneço aqui, isolado do presente, numa vã tentativa de perpetuar o passado, em nome de um amor que teima em não morrer. Talvez só minha morte possa devorar a ânsia inesgotável deste sentimento que perdura, que insiste em me acompanhar. Oh! Como leviano me tornei. Rio de minhas próprias lamentações, quando meu único desejo é manter esta chama dentro de mim indefinidamente, posto que sua luz ilumina o que me resta de sã consciência. 

Como me fazes falta, minha querida...


segunda-feira, 12 de setembro de 2016

O Menino Triste


Por Alexander Zimmer

Neste domingo de manhã, eu vi um menininho em frente de minha casa. Enquanto outras crianças brincavam, ele estava triste e sentado num canto. Cheguei perto e sentei do seu lado.

Respeitei seu silêncio por um instante e depois perguntei porque ele estava triste. Ele pensou um pouco, talvez se deveria falar ou não, até que balbuciou que, na noite anterior tinha sido a festa de 15 anos de uma amiga que ele não via há algum tempo, pois mudara de colégio; mas eles se falavam de vez em quando.

Esperei ele continuar, mas ele não continuou. Então resolvi perguntar qual o problema; se tinha acontecido alguma coisa de ruim com ele na festa. Foi aí, que sua resposta me fez entender, no mesmo instante, o que ele realmente estava sentido.

- Eu não fui convidado. Um monte de gente foi, mas ela não me convidou.

E então, percebi que lágrimas escorriam de seus olhinhos e lavavam seu pequeno rostinho. Pensei por um instante e, colocando-me em seu lugar, senti-me do mesmo jeito que ele estava se sentindo. Olhei, então, para aquele menininho encolhido do meu lado e, chegando mais perto o abracei, dizendo:

- Está tudo bem. Às vezes, as pessoas esquecem dos amigos, mas não é porque são pessoas más; elas só ainda não sabem a importância que pessoas como nós, dão aqueles que amamos. E isso acontece, porque elas ainda não sabem o que é o amor de verdade; elas ainda estão aprendendo.
- Mas eu estou muito triste, por causa disso. - Ele disse.
- Eu entendo. Eu também fico triste, às vezes. Mas tento entendê-las. Afinal, elas precisam mais de amor do que a gente, pois a gente sabe a importância de cada pessoa que passa por nossas vidas; nós nos preocupamos em fazê-las felizes, pois isso nos deixa felizes também.
- É... Acho que sim. Nunca tinha pensado nisso. - Ele balbuciou.
- Então... Um dia, elas vão aprender a dar importância às pequenas coisas e, percebendo que é através delas que demonstramos o carinho que temos pelos outros, elas vão passar a tomar mais cuidado em não esquecer os amigos... Você parece ser um bom garoto. Não deixe que essa mágoa faça você perder a fé nas pessoas. Elas também estão aprendendo sobre a vida, assim como a gente. Perdoe-as e siga em frente, sendo sempre bom e carinhoso com elas, porque você está no caminho certo. Quem sabe, elas não aprendem mais fácil, de tanto observarem que você não desiste de ser uma pessoa boa e amorosa?
- Será? - Disse-me ele, já limpando as lágrimas do rosto.
- Sim, claro! Afinal, o caminho certo é sempre o caminho do bem, o caminho do amor e da compreensão.

Ele pensou durante algum tempo, enquanto olhava para o vazio. De repente, seu rosto se iluminou e ele abriu um sorriso, voltando-se para mim.

- Obrigado, moço. Vou fazer o que o senhor disse. Tchau!

Então, ele saiu correndo em direção às outras crianças, que brincavam na esquina da rua.

Levantei-me e, olhando para o azul infinito e profundo do céu daquela manhã de domingo, senti-me feliz, pois, naquele exato instante, tive a plena certeza de que nunca houve qualquer distância entre cada um de nós e o Universo. Tudo nunca fez tanto sentido, como naquele pequeno momento.


segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Crônicas de Luz & Trevas - O Contrato - Parte Final


Anne chegou ao Conselho de Vidas e aguardou ser chamada, o que não demorou muito. Uma senhora usando um longo sarau fez sinal para que Ela a acompanhasse. As duas atravessaram um pequeno corredor semitranslúcido, cujo através das paredes se podiam ver vultos brancos de outros habitantes realizando suas tarefas, fossem quais fossem.

Saíram num salão maior onde, através de um projetor holográfico alguém era examinado. Sobre uma mesa que parecia muito confortável estava uma mulher, ou melhor, um espírito de mulher que parecia muito cansado e sofrido. Parou para observar, pois achou aquilo tudo realmente impressionante. A tecnologia devia ser dezenas de anos à frente da tecnologia dos encarnados. 

A senhora de sarau parou, assim que percebeu que Anne deixara de segui-la, para observar o trabalho no salão. Voltando em sua direção, sorriu muito amorosamente.

- É realmente maravilhoso, não é?
- Sim… É espetacular. Se existisse esta tecnologia na Terra, tudo seria mais fácil. As doenças poderiam ser tratadas antes mesmo de desenvolverem-se e provocarem tanto sofrimento.
- Sim. E verdade. Mas um dia ela chegará para os encarnados; tudo a seu tempo.
- Quem é esta pessoa que está deitada? Pelo que vejo no holograma, parece que ela tem um problema grave na região da barriga.
- Observaste bem, Anne. Essa é Rosana. Ela acabou de ser resgatada; fez o translado a poucas horas e não precisou ficar muito tempo nas regiões umbralinas, pois apesar dos conflitos de atitudes a que está sujeito todo espírito encarnado, ela não foi uma má pessoa e muito se sacrificou para que as pessoas ao seu redor tivessem uma vida relativamente confortável, muito embora não fosse uma pessoa de vida abastada. Ela está passando por uma análise preliminar, antes de ser levada ao devido tratamento de recuperação. Como bem observou, ela teve complicações intestinais, que acabaram por levá-la ao momento crucial.
- Mas as pessoas não tem um momento certo para o translado? Essa doença…
- Sim. A doença foi uma consequência de certos excessos muito comuns aos encarnados, mas nada sem exageros que a comprometessem; foram exageros ligados a costumes do cotidiano, mas que ela desconhecia as consequências, por ser muito comum.
- Entendo. Coisas que a gente faz como normais, mas que nos afetam sem que tenhamos conhecimento de que isso é prejudicial, não é?
- Exatamente. Esta é uma questão de conhecimento científico que promova uma mudança de hábitos. No entanto, tudo isso tem seu tempo. Podemos seguir?
- Sim, claro.

Ambas seguiram então para a outra extremidade da sala, atravessando um portal e entrando em outro ambiente, onde um jovem senhor a recebeu com um sorriso carinhoso.

- Seja bem-vinda, Anne. Já faz algum tempo que espero tua vinda. Meu nome é Asclépios.
- Obrigado. Desculpe pela demora.
- Oh, querida! Não precisa se desculpar. Compreendo perfeitamente. Todos nós precisamos de um tempo para entender e tirar nossas próprias conclusões.
- Então o senhor já sabe porque estou aqui, não é?
- Sim, Anne.  Apesar de feliz por tua decisão, devo adverti-la que este tempo longo fora do corpo teve algumas consequências, sobretudo pela condição em que ele se encontra.
- Como assim? Aconteceu alguma coisa de grave com meu corpo?
- Não, querida. Ele está em perfeito estado. No entanto, ele encontra-se numa condição muito peculiar e teremos que tomar algumas medidas fora do comum, para que teu retorno não seja tão doloroso.
- Não sei se compreendo…
- Já te explico. Venha até aqui comigo. Te mostrarei através deste monitor remoto, onde ele se encontra e em que situação, para que fique mais fácil a tua compreensão do caso em questão.

Anne se aproximou de um painel que parecia ser uma continuidade da parede. Assim que Asclépios tocou a superfície do painel, algumas luzes suaves acenderam-se ao seu toque. No mesmo instante uma imagem enorme tomou forma no ar, diante de seus olhos. Uma cápsula enorme como um sarcófago, no entanto era de metal e cheia de conexões, tubos, um pequeno painel digital e uma janela de vidro, onde ela pôde vislumbrar seu próprio corpo em profundo sono.

- Asclépios, o que é isso? Onde está meu corpo? Lembro de uns últimos momentos em Shambala, junto aos monges… Onde ele está? Eles o levaram para a caverna dos Antigos?
- Não, Anne. Seu corpo não está em Shambala. Apesar de todo o conhecimento e experiência de Shambala, eles não perceberam que você ainda vivia, porém num âmbito muito sutil, tanto que a aparência era de que seu corpo estava morto. Diante desta situação, Helena tomou todas as providências para que você fosse sepultada de acordo com os costumes ocidentais, mesmo que o solo do Tibet seja extremamente rochoso.
- Eles me enterraram? - Disse Anne um pouco atônita.
- Sim, mas teu corpo não permaneceu lá por muito tempo. Os militares que você enfrentou, depositaram um localizador sobre tua pele e, assim que teus sinais vitais começaram a recobrar a normalidade, o pequeno aparato tecnológico começou a emitir um sinal, que acabou por levá-los até a recente sepultura. Eles então resgataram teu corpo e o colocaram nesta câmara de hibernação criogênica. Neste momento, teu corpo está em poder destes militares, numa base secreta.
- Mas eu posso voltar, não posso?
- Sim. No entanto, como havia te dito, estamos tomando algumas providências para que o processo não seja tão doloroso para ti, porém, você sentirá alguma dor no retorno, por conta do congelamento.
- O que exatamente vocês estão fazendo?
- Estamos usando o entrelaçamento quântico para mudar a distribuição energética da câmara, o que fará com que a frequência vibratória elétrica mude drasticamente, desconfigurando os nanotransistores da câmara, incapacitando-a de continuar funcionando. Isso fará com que o degelo seja mais rápido, por conta da inversão de polaridade. No entanto, você ainda sentirá os efeitos da criogenia, por conta de alguns resíduos restantes.

Anne suspirou profundamente e tentou imaginar o que faria, assim que retomasse o controle do próprio corpo. Sempre foi resistente à dor, não seria isso que a impediria. O problema era a tal base secreta. Como sairia dali, pensou.

- Não se preocupe com isso, Anne. - Disse Asclépios, lendo seus pensamentos. Nós faremos de tudo para te ajudar. Porém, não podemos interferir demais, pois este é o teu caminho e é você quem precisa tomar as decisões e as atitudes.
- Tudo bem. Não adianta eu ficar planejando muito agora. Preciso estar lá, para ver como as coisas estão. Lá, eu dou o meu jeito.
- Muito bem. Vamos nos preparar?
- Sim.
- Então venha, minha querida.

Asclépius conduziu Anne até uma mesa, onde a menina deitou-se confortavelmente. Ele acionou alguns mecanismos no painel e, logo, uma suave bruma foi se formando ao redor de Anne. Algumas cores pareciam bailar no interior da bruma, como se ela tivesse vida própria. Uma forte luz brilhou acima da mesa e um vórtice de energia se formou no ar. Anne sentiu-se tontear e achou que fosse ficar enjoada, mas a sensação, apesar de um tanto repressora, não era de todo desagradável.

O vórtice ganhou força e velocidade e Anne, como que levada pela leveza da bruma, foi suspensa no ar. Em seguida, seu corpo começou a tornar-se translúcido, até que só restassem apenas linhas de energia sutil, que foram sugadas pelo vórtice. Imediatamente tudo parou, como se nada tivesse acontecido na sala.

A mesa estava vazia.

Anne se fora.

Fim do primeiro interlúdio.

=> Acompanhe a trajetória de Anne Blind no primeiro e no segundo volume das Crônicas de Luz & Trevas:
- Anne Blind entre Luz & Trevas (à venda na Amazon.com)
- Anne Blind e a Herança Secreta. (Breve...)


domingo, 24 de abril de 2016

Crônicas de Luz & Trevas - O Contrato - Parte 9


Tudo parecia tão tranquilo. O aglomerado de nuvens dava a sensação de quietude e, para qualquer um recém-chegado era exatamente este o efeito esperado por quem projetara toda aquela estrutura genial. Como deve ter sido difícil! – Pensou Anne. Não conseguia nem imaginar todo o processo.
Estava tão distraída que não percebeu a aproximação de Miguel, até que este se recostasse ao parapeito da varanda, exatamente a seu lado.

- Lindo, não é?
- Sim.
- Eu estava aqui, quando fizeram tudo.
- Ainda não me acostumei com essa coisa de telepatia. Confesso que, às vezes, tenho essa sensação estranha de ter sido invadida.
- Perdão. Há muito tempo estamos acostumados a compartilhar ideias e sentimentos, que nos deixamos levar pela naturalidade e esquecemos de respeitar os que ainda supervalorizam a privacidade ilusória.
- É difícil se acostumar a compartilhar com todos e o tempo todo, algo tão particular.
- Sim. Por isso mesmo, perdoe-me pela falta de sensibilidade.
- Está tudo bem. Qualquer hora eu acostumo.
- Acho que vai demorar um pouco, Anne.
- É. Pode ser.
- Para isso, a pessoa precisaria permanecer aqui.

Anne olhou para Miguel, entendendo imediatamente a indireta. Miguel, por sua vez, permaneceu contemplando a paisagem nebulosa.

- Estou sendo convidada a me retirar?
- Não é bem assim. Não é uma decisão de ninguém, mas sim uma necessidade natural.
- Miguel, você sabe que não aprecio rodeios...
- Anne, você está viva e precisa voltar. Não há outra alternativa. É preferível que você volte por escolha própria, pois assim será menos doloroso.
- Eu preciso de um tempo para...
- Essa é a questão; não há mais tempo. Há urgência em teu regresso, ou teu corpo entrará em colapso. Há uma missão programada e ele não resistirá muito tempo no estado de inércia, sem a presença de sua alma junto a si. Você tem que voltar!
- Mas...
- Anne, tudo que você tem feito aqui tem ajudado bastante e isso é louvável. Achei até engraçada a forma como lidou com meu irmão Lúcifer, mas por mais que todos façamos aqui trabalhos similares e integrantes deste tipo, ainda não é teu momento de estar aqui e sequer assumir este tipo de trabalho. Há uma tarefa pela metade na Terra; uma tarefa que você precisa realizar. Foi o combinado; se lembra?
- Mas eu achei que tivesse fracassado...
- Não há de fato fracasso real; ainda mais quando há vida no corpo físico.
- Não sei o que fazer, Miguel. E se retornasse continuaria sem saber que rumo tomar.
- Nós te ajudaremos no teu retorno. E sobre tua tarefa... Bom, mesmo sendo uma tarefa, de certo ponto de vista, hercúlea, ainda assim, você sempre teve amparo. Ou você pensa que é todo mundo que encontra facilmente com tantos avatares em projeção astral? Isso só acontece contigo, porque você tem uma missão especial e precisa de suporte espiritual condizente com a dificuldade do que tem a realizar. Você continuará tendo esse suporte. Volte aos estudos, quando estiver de volta à Terra. Não se antecipe. Há muito o que aprender em Shamballa. Apesar de o tempo urgir, ainda é possível que você se dedique aos estudos e se prepare melhor para o que virá.
- Kraemer?
- Sim. Mas apesar de ele ser uma peça fundamental em todo este processo, ajudando que a balança possa pender para o lado certo, no caso de você conseguir realizar parte de tua tarefa, há algo muito maior por trás e que vai precisar que vocês estejam realmente de acordo com o esperado, para que tudo caminhe como o planejamento superior.

Anne pensou um pouco e deu um longo suspiro.

- Está bem. Eu vou voltar.

Miguel sorriu para ela, pousando a mão em seu ombro.

- Nós estaremos com você, na medida que nos for permitido.
- Eu agradeço, Miguel. Sinto que vou precisar muito.

Continua...

domingo, 3 de abril de 2016

Deguste Anne Blind GRATUITAMENTE!

Deguste um pouquinho de meu novo livro Anne Blind entre Luz & Trevas GRATUITAMENTE!

Conheça um pouco da história dessa menina cega e perdida entre seu estranho passado e um perigoso futuro.

Basta clicar na imagem!


Ah! Só uma dica: As Crônicas de Luz & Trevas que estão rolando no blog, divididas em capítulos, acontecem entre este primeiro volume e o próximo.


sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Crônicas de Luz & Trevas - O Contrato - Parte 6


  Apesar do frio intenso do alto inverno europeu, as ruas estavam anormalmente movimentadas. Os transeuntes circulavam para todos os lados. São Petersburgo estava de fato movimentada demais para o clima que abatia-se sobre a cidade.
  Insuspeitadamente, abaixo daquilo tudo e completamente alheio ao que acontecia acima, um silêncio sepulcral ambientava a estranha cena no velho porão.
  Sobre uma mesa de pedram imóvel, estava uma jovem nos seus quinze anos - talvez dezesseis – completamente nua. Seu corpo coberto de símbolos mágicos escritos com sangue.
  Sentado numa extremidade, com um semblante entre carrancudo e preocupado estava o velho mago.
Subitamente, suaves batidas na porta seguindo certo ritmo.
  O mago levantou-se abrindo a porta para que um jovem entrasse. O rapaz tinha no máximo dezoito anos. Ele cumprimentou o velho.

- E então, Ivan?
- Estou pronto, mestre.
- Percebo certa apreensão. Não se preocupe; jamais poderia confiar a outro tal tarefa.
- Obrigado, mestre.
- Vamos. Ela já está preparada.

  Ainda um pouco exitante, Ivan despiu-se e aproximou-se da menina, subiu na mesa e deitou-se sobre ela, iniciando a cópula.
  O semblante da menina contorceu-se um pouco, voltando novamente à quietude e impávida expressão.
  Ivan aumentou o ritmo dos movimentos, até que estancou repentinamente, deixando escapar um gemido, enquanto seu corpo estremecia ligeiramente.
  Rapidamente desceu da mesa e, enquanto se afastava e voltava a vestir-se, estranha névoa começou a se formar num dos lados, até tornar-se intensa e tempestuosa. De seu centro surgiu um homem muito bem vestido.

- Sede bem-vindo, mestre.
- Mago... Vejo que cumpriste tua parte.
- Sim, mestre, como combinado. Aí está minha filha, em troca da revogação de nosso contrato.

  O homem sorriu, enquanto admirava a jovem sobre a mesa.
  Erguendo a destra, o homem fez um gesto rápido, como se agarrasse algo invisível no ar com a mão e puxasse em sua direção.
  O corpo da menina estremeceu e, num espasmo violento, liberou um reflexo de si mesmo em estado vaporoso e suavemente iluminado, que contorcia-se e lutava para não ser levado em direção ao homem. No entanto, o esforço era inútil e logo a entidade vaporosa fora consumida pelo corpo do homem.

- E como sempre cumpro minhas promessas, nosso contrato está revogado; tua alma não mais me pertence.
- Grato, mestre.
- No entanto... – Disse o homem, já desenhando um sorriso de escárnio nos lábios – Devo informar-te, mago, que já não tens muito tempo de vida.
- Mas, mestre?! Se o contrato foi suspenso...
- Sim. Realmente foi. Porém, segundo regra áurea antiga, “A cada um segundo suas obras.”. Toda magia, toda manipulação, toda maldade que engendraste e colocaste em movimento para a satisfação de teus caprichos, de tua vaidade, de teu egocentrismo, te cobram agora um preço. Tu plantaste a semente de teu macabro vinhedo e, agora, terás de sorver o amargo vinho de tua colheita. Teu espírito, já completamente intoxicado pela deformação moral de teu caráter, buscou a única saída possível para purgar parte dessa tremenda agonia; desenvolveste um câncer, que já corrói boa parte de teus orgãos. Logo estarás baixando ao túmulo.
- Mas, mestre, que preciso fazer para curar-me? Um novo contrato?
- Infelizmente, nada posso fazer. Além do mais, não preciso de um novo contrato. Com o aspecto que teu espírito adquiriu, não imaginas qual o tipo de vibração que possuis? Assim que a vida abandonar este corpo decrépito, para onde pensas que teu espírito será atraído, senão para local de igual frequência vibratória?

  O semblante do mago adquiriu rapidamente o reflexo do desespero que tomara-lhe a alma diante da inesperada revelação.

- Tu me enganaste!
- Eu? Oh, não! Claro que não, velho mago! Nada fiz. Tu és o próprio responsável por tua insanidade e ignorância. Eu apenas cumpri minha parte no acordo. Teu estado deplorável é obra tua. Culpa-te a ti mesmo.

  O velho sentiu seus joelhos enfraquecerem e caiu de joelhos diante da verdade indiscutível que acabara de ouvir. Sentia-se devastado. Hora era a vergonha, hora era o ódio de si mesmo.

- Até breve, mago. Logo nos encontraremos no teu desgraçado destino além túmulo.

 O mago não teve forças nem para levantar os olhos para o mestre, enquanto este desaparecia juntamente com a sombria névoa que o envolveu.
  O jovem discípulo aproximou-se de seu velho mestre, colocando a mão em seu ombro.

- Mestre...
- Saia daqui, Ivan. Deixe-me só. – disse o exaurido e velho mago, sem nem mesmo voltar-se para Ivan, que saiu da sala visivelmente entristecido pelo destino que estava reservado para seu mestre.
Assim que a grande porta fechou-se atrás de Ivan, num baque surdo e metálico, o mago entregou-se á dolorosas lágrimas.

Continua...

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Crônicas de Luz & Trevas - O Contrato - Parte 5


A paisagem sobrenatural não lhe parecia mais tão estranha, desde que começou sua balada solitária. Ainda tinha dúvidas a respeito de muitas coisas e não estava absolutamente certa se fizera a melhor escolha. O fato é que, por enquanto, não queria tomar partido. Gostava imensamente de Helena, mas não se sentia adequada às altas vibrações de Shambala. Tomara decisões duvidosas e tivera atitudes questionáveis que a colocaram na situação em que estava agora. Poderia mudar tudo isso se quisesse, afinal fora sua própria escolha, mas não era uma questão de poder e sim de sentir-se merecedora. Além do mais, sentia-se no dever de ajeitar as coisas de seu próprio modo, mesmo que isso lhe custasse algum sofrimento extra. Afinal, saberia lidar com as consequências.
Sentiu a aproximação de alguém e no mesmo instante identificou Gabriel, que colocou-se a seu lado no vislumbre da citada paisagem.

- Linda, não é?
- O que?
- Toda essa vida efervecente e mutante do Plano Astral, constantemente em movimento.
- Hum... Aqui não é o Plano Astral.
- Todo lugar é o Plano Astral. O que muda é o ponto de vista do observador.
- Você entendeu o que eu disse... O Limiar ou Umbral.
- Sim, mas não retifico a informação. Ainda assim é questão de ponto de vista. O Limiar nao é um local propriamente dito; é uma condição temporária.
- Gabriel, se entrarmos num debate filosófico, a verdade é que tudo é temporário, inclusive a eternidade. Tudo é sempre um questão de ponto de vista.

Gabriel sorriu, pois sabia que as palavras de Anne traduziam a mais pura verdade. Tudo. Absolutamente tudo era temporal, mesmo o espírito imortal também estava em constante mudança.

- E então?... Por quanto tempo continuará neste personagem de paladina interdimensional?
- Personagem?... Não tinha parado para me classificar desta forma antes. É assim que você vê minha decisão?
- Mas não somos todos atores experimentando diversos personagens em inúmeáveis dramas? É como aprendemos sobre o espírito e tudo mais nessa relação transcendente.
- Não sei por quanto tempo. Ainda... Ainda não consigo assumir ou mesmo aceitar aquele outro “personagem” que vocês insistem em me apresentar.
- Entendo... No entanto, você sabe que o Universo não vai te esperar por muito tempo, não é? E, geralmente, quando isso acontece por muito tempo, Ele mesmo costuma engendrar estratagemas que te forçarão a enfrentar aquilo que tentas evitar.
- É... Sei bem como é. Mas confesso que, às vezes, isso me dá raiva. É como se não tivéssemos livre-arbítrio.
- O livre-arbítrio é para os ignorantes; aqueles que tem o conhecimento sabem que atitude e que caminho tomar, então não há de fato livre-arbítrio, mas consciência.

Anne sentiu-se envergonhada diante das palavras de Gabriel, mas não deixaria transparecer; ainda era muito orgulhosa.
Afastou-se do parapeito e voltou-se para Gabriel, colocando a mão em seu ombro.

- Sempre vou admirar você, Gabriel. Gosto muito de nossas conversas, mas preciso fazer o que sinto que devo fazer agora. Sei que é inevitável chegar às mesmas conclusões que você, mas agora estou bem longe disso e preciso acreditar no que sinto.
- Então vai continuar enfrentando e frustrando “demônios” por aí?

Anne sorriu.

- Humpf! Apesar da ironia, sim. Vou continuar fazendo o que atualmente é a única coisa que me dá alguma satisfação. Buda dizia que devemos matar o desejo, mas eu não sou Buda... ainda.

Sorrindo, Anne se afastou de Gabriel lentamente, caminhando em direção à zona tempestuosa que parecia uma tormenta à se aproximar, mas que nunca chegava. Foi distanciando-se, até que desapareceu engolida pelas brumas sombrias que cercavam aquele posto avançado às portas do Limiar. 

Continua...

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Crônicas de Luz & Trevas - O Contrato - Parte 4


   O ambiente transmitia uma paz secular. O silêncio acentuado pela madrugada enchia de respeito ainda maior o enorme salão abobadado repleto de afrescos barrocos, que combinavam perfeitamente com o belíssimo e delicado painel, cuja pintura cobria quase todo o teto da igreja.
   Àquela hora da madrugada, a igreja estava vazia, a não ser pela única alma humana sentada solitária em um dos enormes bancos.
   Subitamente, o silêncio foi quebrado pelo som de passos que se aproximavam muito calmamente.    Um indivíduo impecavelmente vestido aproximou-se de Rogério e sentou-se no banco imediatamente atrás dele.

- Sempre me impressionou a capacidade artística do ser humano. Não há como negar; este templo é uma verdadeira obra de arte... Apesar de ter sido levantado à custa de muito sangue e lágrimas, enquanto soava a dolorosa música da chibata. A ignorância cobra um preço muito alto à humanidade, enquanto as pessoas se perdem em discursos vazios e sem sentimento real algum.
- É o preço que eu pago, né?
- Não. De forma alguma. Apesar da ignorância, você apenas está pagando por serviços prestados. Há muito que me consideram o ignorante da história, afirmando que perco meu tempo tentando ir na direção oposta à do progresso. No entanto, quem pode afirmar qualquer coisa com absoluta certeza, quando o assunto é tão transcedental? Afinal, se tudo é eterno, talvez todos estes momentos não sejam realmente importantes e nós devêssemos todos relaxar um pouco e aproveitá-los intensamente, se no fim não teremos realmente um fim.
- Você é muito bom com as palavras.
- Ah!... Obra do tempo e da total ausência de reservas em dizer o que penso. Aliás, acho que é uma das razões de as pessoas serem tão infelizes; estão sempre muito preocupadas com regras inúteis e com a importância da opinião que outras pessoas possam ter à respeito do que sentem, pensam e fazem. Liberdade! Vocês temem a liberdade, com receio do preço que possam ter que pagar no futuro.
- Então somos todos covardes. É assim que você nos vê a todos? Um bando de covardes se escondendo de si mesmos.
- De certa forma. Mas já tive orgulho de alguns de vocês, que ousaram e fizeram tremer a tão bela e frágil estrutura social.

   O homem abriu o paletó e tirou uma caixinha prateada de cigarros. Colocou um cigarro nos lábios e o acendeu com um isqueiro dourado.

- É, eu sei. Não deveria estar fumando aqui, não é? Não é o que está pensando?... Você vê? Mesmo depois de tudo que te proporcionei e o qual você viveu com tanta intensidade e volúpia, ainda se prende inconscientemente ao temor e às regras religiosas criadas por homens muitas vezes tremendamente piores que você.
- Muitas são regras que valorizam o melhor do ser humano.
- Você realmente quer estragar teus últimos momentos com uma conversa teológica à essa altura do campeonato? Além de ser muito tarde para crises de consciência, não melhora em nada tua situação perder-se em verborragia barata e moralista, não é? Ora, eu te conheço como ninguém e sei de tudo que você fez, porque sempre estive lá, facilitando a realização de teus desejos.

   O homem deu uma tragada profunda no cigarro, soltando uma longa baforada para o alto.

- Vamos encarar isso numa boa. Você pode ser tão ignorante quanto todo mundo, mas é uma pessoa razoavelmente inteligente, senão, nem com minha ajuda chegaria tão longe e conseguiria se manter no topo por tanto tempo.
- É. Você não fez tudo, né?
- Claro que não. Fiz grande parte, como prometido que faria, mas tua participação foi muito importante para que não só alcançasse tantas vitórias, como para que, principalmente, se mantivesse no topo do mundo.
- No entanto, chegou a hora de perder tudo, né?
- Não! Perder tudo, não! Você ainda será lembrado como um grande empresário e por tudo que realizou. Teus adversários tentarão manchar teu nome, mas tua morte dentro de uma igreja dará um certo ar de grandiosidade ao evento e você será lembrado como alguém que muito realizou. Não se preocupe com tuas queimas de arquivo, com os desvios de verbas públicas, com as fraudes em licitações e com as inúmeras orgias. Nada disso virá à tona, porque muitos outros envolvidos garantirão o sigilo para protegerem a si mesmos.
- Está bem. Vamos logo com isso, então! Como será?
- Da melhor forma que lhe convier. Vamos ver... Tenho uma pistola comigo, no entanto, creio que seria muito espalhafatoso. Tenho uma ideia melhor. Como você não me trouxe problemas e está aceitando cumprir tua parte no contrato sem complicações, vou te oferecer a oportunidade de uma saída mais suave, uma parada cardíaca. Apesar de ser um tanto incômodo, um infarto do miocárdio não mancharia tua tão preciosa imagem social.

   Rogério respirou fundo e assentiu, recostando-se no banco.
   Foi o tempo de recostar a cabeça e não havia mais ninguém na igreja, nem mesmo ele; apenas um corpo bem vestido recostado no banco, como se dormisse profundamente.
   O silêncio foi subitamente quebrado pelo sino, que batia a quarta hora da madrugada.

Continua...

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

A Verdadeira História de Alice no País das Maravilhas

Em algum momento de nossas vidas, todos tomamos contato com a história de Alice no País das Maravilhas, ou pelo menos partes da história, que foi transformada em um filme de desenho animado pela Disney em 1951, e que mais recentemente, em 2010, ganhou uma versão cinematográfica dirigida por Tim Burton. 

Embora a história da menina que se aventura pela toca do coelho e encontra um mundo desconhecido e enigmático seja muito conhecida, alguns fatos por trás da história são um tanto sombrios.


O livro

Alice's Adventures in Wonderland, frequentemente abreviado para Alice in Wonderland (Alice no País das Maravilhas) é a obra mais conhecida de Charles Lutwidge Dodgson, publicada a 4 de julho de 1865 sob o pseudônimo de Lewis Carroll. É uma das obras mais célebres do gênero literário nonsense.

O livro conta a história de uma menina chamada Alice que cai numa toca de coelho que a transporta para um lugar fantástico povoado por criaturas peculiares e antropomórficas, revelando uma lógica do absurdo e características dos sonhos. Este está repleto de alusões satíricas dirigidas tanto aos amigos como aos inimigos de Dodgson, de paródias a poemas populares infantis ingleses ensinados no século XIX e também de referências linguísticas e matemáticas frequentemente através de enigmas que contribuíram para a sua popularidade. É assim uma obra de difícil interpretação, pois contém dois livros num só texto: um para crianças e outro para adultos.


Este livro possui uma continuação Alice do Outro Lado do Espelho.


A origem da história

Charles Lutwidge Dodgson era um homem muito tímido, e gostava muito de crianças (apenas as do sexo feminino) e de lhes contar histórias. Lewis enquanto lecionava Matemática em Oxford conheceu Henry Liddell, pai de 3 meninas - Alice, Lorina e Edith. Ele acabou desenvolvendo uma amizade (será que era realmente amizade) pela menina Alice. Os pais da garota não viam problema nesse contato, algo que hoje em dia seria visto de outra forma – Dodgson tinha 31 anos, enquanto que Alice tinha apenas 7 anos de idade.

As irmãs Liddell

A 4 de 1862, durante um passeio de barco pelo rio Tâmisa, Charles Lutwidge Dodgson, na companhia do seu amigo Robinson Duckworth, conta uma história de improviso para entreter as três irmãs Liddell (Lorina Charlotte, Edith Mary e Alice Pleasance Liddell). Eram filhas de Henry George Liddell, o vice-chanceler da Universidade de Oxford e decano da Christ Church, bem como diretor da escola de Westminster. A maior parte das aventuras contidas no livro, foram baseadas e influenciadas em pessoas, situações e edifícios de Oxford e da Christ Church, por exemplo, o Buraco do Coelho (Rabbit Hole) simbolizava as escadas na parte de trás do salão principal na Christ Church. Acredita-se que uma escultura de um grifo e de um coelho presente na Catedral de Ripon, onde o pai de Dodgson foi um membro, forneceu também inspiração para o conto.

Essa história imprevista deu origem, a 26 de Novembro de 1864, ao manuscrito de Alice Debaixo da Terra (título original Alice's Adventures Under Ground) com a finalidade de oferecer a Alice Pleasance Liddell a história transcrita para o papel.

Mais tarde, influenciado tanto pelos seus amigos como pelo seu mentor George MacDonald (também escritor de literatura infantil), decidiu publicar o livro e mudou a versão original, aumentando de 18 mil palavras para 35 mil, acrescentando notavelmente as cenas do Gato de Cheshire e do Chapeleiro Louco (ou Chapeleiro Maluco).

Deste modo, a 4 de Julho de 1865 (precisamente três anos após contar a história para as meninas) a história de Dodgson foi publicada na forma como é conhecida hoje, com ilustrações de John Tenniel. Porém a tiragem inicial de dois mil exemplares foi removida das prateleiras devido a reclamações do ilustrador sobre a qualidade da impressão. A segunda tiragem, ostentando a data de 1866, ainda que tenha sido impressa em Dezembro de 1865, esgotou-se nas vendas rapidamente, tornando-se um grande sucesso, tendo sido lida por Oscar Wilde e pela rainha Vitória. Na vida do autor, o livro rendeu cerca de 180 mil cópias. Foi traduzida para mais de 125 línguas e só na língua inglesa teve mais de 100 edições.

Em 1998, a primeira impressão do livro (que fora rejeitada) foi leiloada por 1,5 milhão de dólares americanos.

Algumas impressões desta obra contêm tanto As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, como também a sua sequência Alice no Outro Lado do Espelho.


Simbolismo matemático na trama

O livro pode ser interpretado de várias maneiras. Uma das interpretações diz que a história representa a adolescência, com uma entrada súbita e inesperada (a queda na toca do coelho, iniciando a aventura), além das diversas mudanças de tamanho e a confusão que isso causa em Alice, ao ponto de ela dizer que não sabe mais quem é após tantas transformações (o que se identifica com a psicologia adolescente).

Como Dodgson era de fato professor de matemática na Christ Church, da Universidade de Cambridge é sugerida a existência de muitas referências e de conceitos matemáticos, tanto nesta obra, como na Alice no Outro Lado do Espelho. Confiram alguns exemplos abaixo:

  • No capítulo 1, No Buraco do Coelho, durante o processo de encolhimento da altura, Alice faz considerações filosóficas acerca do tamanho final com que ficará, com receio de talvez acabar por desaparecer completamente, como uma vela. Esta observação reflete o conceito do limite de uma função (cálculo I).
  • No capítulo 2, No Lago das Lágrimas, Alice tenta fazer multiplicações, mas acaba por produzir uns resultados estranhos: "Deixa-me cá ver: quatro vezes cinco são doze, e quatro vezes seis são treze, e quatro vezes sete são... Oh, meu Deus! Por este andar nunca mais chego aos vinte!". É assim exposta a representação de números utilizando bases diferentes e sistemas numerais posicionais (4 x 5 = 12 na base 18; 4 x 6 = 13 na base 21; 7 x 4 poderiam ser 14 na base 24, seguindo a sequência).
  • No capítulo 5, Conselhos de Uma Lagarta, o Pombo afirma que as meninas são uma espécie de serpentes, pois ambos seres comem ovos. Esta observação é um conceito geral de abstração que ocorre frequentemente em diversos âmbitos da ciência; um exemplo da utilização deste raciocínio na matemática é a substituição de variáveis.
  • No capítulo 7, O Chá dos Loucos, a Lebre de Março, o Chapeleiro Louco e o Arganaz dão vários exemplos em que o valor semântico de uma frase X não é o mesmo que o valor do inverso de X (por exemplo, Não é nada a mesma coisa!(...)Ora, nesse caso também podias dizer que "Vejo o que como" é a mesma coisa que "Como o que vejo"!); No ramo da lógica e da matemática este conceito é uma relação inversa.
  • Também no capítulo 7, Alice pondera o significado da situação quando o grupo faz a rotação dos lugares ao redor da mesa circular, colocando-os de volta ao início. Esta é uma representação da adição de um anel do módulo inteiro de N.
  • No capítulo 6 e 8, o Gato Cheshire desvanece , deixando apenas o seu sorriso largo, suspenso no ar, levando a Alice maravilhada ao notar que já viu um gato sem um sorriso, mas nunca um sorriso sem um gato. É feita aqui uma profunda abstração de vários conceitos matemáticos (geometria não-Euclidiana, álgebra abstrata, o início da lógica matemática, etc), delineando, através da relação entre o gato e o próprio sorriso, o próprio conceito de matemática e o número em si. Por exemplo, no lugar de considerar duas ou três maçãs, consideram-se antes os conceitos de dois e de três por si só, separados do conceito de maçã, como o sorriso que, aparentemente pertence ao gato original, é separado conceitualmente do resto do corpo físico.


Quem foi Charles Lutwidge Dodgson

Em 27 de janeiro de 1892, nascia Charles Lutwidge Dodgson, em uma tradicional e religiosa família britânica. Na escola, foi considerado brilhante – apesar de pouco disciplinado para os estudos.

Sua sensibilidade era traduzida em forma de arte. Mais especificamente, como fotografia e poesia. Em um tempo de poucas fontes de entretenimento, em que as casas ainda não tinham rádios ou televisões, Carroll era considerado uma excelente companhia, contando histórias, declamando poesia e cantando toleravelmente bem, apesar de algumas fontes afirmarem que ele era gago.

Foi assim que o rapaz aproximou-se de muitas famílias abastadas e importantes de seu tempo, criando excelentes conexões sociais.

Muitos biógrafos de Lewis Carroll retrataram o autor como pedófilo, apontando seu pouco interesse por mulheres adultas, e sua ligação emocional com garotinhas – bem como o hábito de fotografar meninas nuas ou seminuas.

Contudo, muitos autores modernos contestam essa versão, alegando que isso seria o chamado “mito Carroll”. De acordo com eles, Carroll envolveu-se com mulheres, o que teria levado, inclusive, a alguns escândalos. Sua família, após sua morte, teria ocultado todas as evidências de seus envolvimentos amorosos, para evitar desonrar seu nome – e essa falta de referências teria sido mal interpretada posteriormente por biógrafos.

Afirmam também que as fotos das crianças seria moda na Inglaterra do período vitoriano, sendo uma temática recorrente nas obras de diversos fotógrafos da época. Segundo esses pesquisadores, seria um equívoco interpretar as fotografias de Carroll fora de contexto, usando como parâmetro nossos valores dos séculos XX e XXI.


A musa inspiradora de Dodgson

Não é certo que Alice Liddell, a menina para quem Dodgson escreveu a sua mais famosa história, tenha inspirado a personagem Alice. Em vida, o próprio autor teria dito que não havia se inspirado em nenhuma criança real.

É claro que existem muitas ligações entre a Alice do livro e a do barco a remo. Para começar, as duas sagas de Alice passam-se em datas especiais: Alice no País das Maravilhas ocorre em 4 de maio (aniversário de Liddell) e Alice através do espelho se passa em 4 de novembro (exatos 6 meses após seu aniversário). Como se não bastasse, no segundo livro, a menina afirma que tem “precisamente sete anos e meio” – a idade que Alice real teria na época.

Carroll também dedicou ambos à pequena Alice, além de inserir, no final do segundo livro, um poema com uma mensagem especial – se juntarmos as primeiras letras de todos os versos, soletramos o nome completo de Liddell.


O relacionamento entre Dodgson e Alice Liddell

Há muita especulação – e controvérsia – sobre a natureza do relacionamento entre Carroll e Alice. Sabe-se que em junho de 1863 a amizade entre Carroll e a família Liddell rompeu-se de forma abrupta.


Curiosamente, a páginas do diário de Carroll correspondentes aos dias 27 a 29 de junho foram arrancadas e destruídas, assim como muitas outras páginas.

Acredita-se que o motivo para o afastamento entre Carroll e os Liddell estivesse nessas páginas, e por muito tempo popularizou-se a versão de que o autor teria pedido Alice, de apenas 11 anos, em casamento entre esses dias – o que teria levado os pais da menina a pedirem que ele deixasse sua filha em paz.

Outra teoria afirma que a mãe de Alice queimou cartas de Lewis Carroll, nas quais ele se despedia da menina com "10 milhões de beijos" e costumava pedir cachos de cabelos de presente para beijar.

Quando tinha oportunidade o escritor gostava de desenhar ou fotografar meninas seminuas, com a permissão da mãe. A maioria das fotos foram destruídas ou devolvidas, mas quatro ou cinco fotos ainda sobrevivem.

A menina Evelyn Hatch, fotografada por Lewis Carroll, em 1878

Documentos descobertos pela biógrafa Karoline Leach mostram que Carroll talvez fosse tão simpático com Alice e suas irmãs porque estava interessado mesmo era na governanta da casa.


Mesmo com o rompimento de relações entre Dodgson e a família Liddell, o escritor enviou, via um amigo, um presente a Alice no dia do seu casamento, em 1880. Embora afastado da jovem, o escritor parecia acompanhar a jovem musa a distância. Talvez por causa da amizade impar que se desenvolveu entre ambos, ou pelos motivos mais sombrios revelados acima.

Foto de Alice Liddell aos 18 anos Foto de Alice aos 80 anos de idade





Uma Versão Psicológica da História de Alice


A história de Alice seria, na realidade, triste. Lembrem-se que os grandes contos de fadas são de outra época, a realidade era diferente e os valores extremamente conservadores. Então, ter uma filha esquizofrênica era considerado uma aberração, um crime. Os pais de Alice decidiram deixa-la em um sanatório e ela permanecia, na maior parte do tempo, dopada. Quando não estava sob efeito de remédios era violentada pelos funcionários. A menina tinha apenas 11 anos.

Cada um dos personagens e objetos da história, tem a ver com um desejo ou experiência de Alice.

O buraco pelo qual ela entra no País das Maravilhas, é, na verdade, uma janela de seu quarto, onde ficou presa durante toda a vida, pela qual ela desejava sair e conhecer o mundo à sua volta.

O coelho branco, para ela, representava o tempo. Aquele tempo que ela desejava que passasse logo, para que um dia ela pudesse sair daquele lugar. O tempo que ela via passar tão rápido, porém tão lento...

O Chapeleiro Maluco era outro interno, seu melhor amigo. Alguém que deixava sua vida no hospital menos amargurada, com quem criava várias teorias de como seria a vida lá fora. O rapaz, em realidade, sofria de Síndrome Bipolar, por isso a personalidade do Chapeleiro na história, o mostrava ora alegre, ora depressivo, ora calmo, ora irritado.

A Lebre, companheira do Chapeleiro, era a menina que dividia o quarto com ele. Ela sofria de depressão profunda, e todas as vezes que Alice teve contato com ela, encontrou-a num estado de terror e paranoia.

O gato de Cheshire: um dos enfermeiros, em quem Alice confiou, mas acabou por enganá-la e violenta-la. O sorriso do gato, aquele que é tão marcado, era na verdade o sorriso obscuro que seu agressor abria, cada vez que lhe abusava, e a deixava jogada em um canto de sua acomodação, derrotada, triste e ofuscada.

A Rainha de Copas: a diretora do sanatório. Uma mulher má e desprezível, que não sentia sequer um pingo de compaixão para com os enfermos que estavam sob seus cuidados. Era a favor da terapia de choque e da lobotomia, e por diversas vezes ordenava que os funcionários espancassem, sedassem e prendessem em jaulas os enfermos que apresentavam comportamento que não lhe agradavam.

A Rainha Branca: sua mãe, uma mulher nobre e terna, que sofreu na pele o preconceito de ter uma filha doente, tendo que abandonar a menina em um sanatório, e nunca mais voltar a vê-la. As vagas lembranças que Alice possuía, era de momentos com sua mãe, e o motivo dela pensar que o mundo fora dos muros do hospital era um lugar melhor, era saber que a mãe estava lá, em algum lugar, para lhe cuidar.

Os Naipes: enfermeiros do hospital, apenas seguindo ordens o dia inteiro.

A Lagarta Azul: sua terapeuta, aquela que lhe dava as respostas, que lhe explicava o que acontecia e com quem ela conversava.

Tweedledum e Tweedledee: gêmeos siameses órfãos, que também estavam no hospital. Embora não possuíssem nenhum problema mental que justificasse sua internação, a aparência que tinham era assustadora, por isso foram reclusos.

O Rei de Copas: o médico psiquiatra do hospital. Alguém com complexo de inferioridade, que era incapaz de se opor às ordens da diretora.

Os frascos “Coma-me” e “Beba-me”: as drogas que lhe davam. Por serem extremamente fortes, por várias vezes Alice tinha sensações diferentes e alucinações, bem como se tivesse encolhido ou aumentado de tamanho.

Tudo isso foi criado pela menina como se fosse um mundo paralelo. Uma realidade menos dolorosa daquela em que vivia. Ela já não podia suportar aquele local e tudo o que acontecia com ela ali dentro, então resolveu usar de sua imaginação infantil para amenizar a dor e o sofrimento. A irmã mais velha de Alice, é na verdade uma enfermeira do hospital, a quem a pequena era muito apegada. A enfermeira tinha um diário e nele anotava todas as histórias que Alice criava em sua mente. Todos os dias a enfermeira ia até o quarto da menina e ouvia seus desabafos e as aventuras que criava em sua mente. Sem deixar de anotar uma palavra sequer.


Infelizmente, Alice  executa uma tentativa de fuga. Ela não obtém sucesso, e acaba detida pelos funcionários. A diretora furiosa, manda que espanquem a garota e apliquem a terapia de eletrochoque, para que nunca mais volte a se repetir. Após o castigo, Alice torna-se agressiva e violenta, ao ponto da diretora decidir que a única saída para ela, seria a lobotomia.

Alice viveu por muito tempo em um estado de “coma”. Ela nunca mais viveu, sorriu, tampouco falou. Devido a isso, teve seu corpo devastadoramente abusado, tanto, que acabou por ter hemorragia interna devido à violência empregada em um ato de estupro, e veio a falecer.

A enfermeira que escrevia suas histórias em um diário acabou por se afastar do sanatório, e Alice foi imortalizada como a menina sonhadora que viveu aventuras incríveis no País das Maravilhas.


quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Crônicas de Luz & Trevas - O Contrato - Parte 3

   De sobre um penhasco, uma menina observa o pôr do sol. Enquanto este vai sumindo no horizonte marítimo, ela abre uma pequena mochila e, pegando vários comprimidos, enfia-os na boca, virando em seguida uma garrafinha de água, que à ajuda a engoli-los. Então senta-se e espera, enquanto observa o céu vermelho escarlate.
   Sua primeira ideia era atirar-se sobre as pedras no fundo da falésia. Com um pouco de sorte, até conseguiria cair nas águas agitadas do mar, mas faltou-lhe coragem. E se por acaso não morresse instantaneamente? - Pensou ela. Não suportaria sequer a ideia de sentir dor. Não. Melhor seriam os barbitúricos; era uma forma mais branda de abandonar sua vida medíocre. - Concluiu.
    Não demorou muito e logo sua visão começou a distorcer. Sua musculatura afrouxou e ela buscou acomodar-se melhor, deitando-se de costas. O céu azul, ainda com alguns tons avermelhados ia escurecendo gradualmente em direção a seus pés. Nunca soube de fato o que chegara primeiro, se a noite do dia ou a noite de sua vida.
   Acordou confusa em meio à escuridão. Não conseguia saber onde estava e nem coordenar pensamentos e movimentos corporais. Estava completamente drogada. Lembrou-se dos comprimidos. Sim. Os Comprimidos. Provavelmente aquela sensação confusa era resultado dos barbitúricos. - Pensou com dificuldade.
   Levantou-se à duras penas e sentiu seu estômago queimar. Não se sentia nada bem.
   Saiu andando a esmo no ambiente que, às vezes era de trevas e outras vezes uma penumbra, onde ela podia ver a silhueta de rochas e uma constante e malcheirosa névoa ocre.
   Escutou o estalido de um chicote e logo sentiu uma dor lancinante no pescoço, enquanto era puxada violentamente para trás.
   Sem saber o que acontecia, sentiu-se chocar de costas contra o chão rochoso e irregular, que lhe provocou dores em vários pontos do corpo simultaneamente.
   Ouviu uma gargalhada.

- Bem-vinda, Cláudia.
- Que... Quem é você? - Disse com dificuldade.
- Um amigo inseparável que lhe aguardava deste lado, enquanto te incentivava a cometer o suicídio.
- Eu... Eu não to entendendo.
- Ah, mas vai entender... Vai entender.

   Então, o estranho ser parcialmente ocultado entre as brumas e a escuridão deu um puxão mais forte e pôs-se a andar, arrastando Cláudia que continuava presa pelo pescoço.
Embora se debatesse, seu esforço era inútil, enquanto não sabia o que era pior, sentir-se sufocada e em profunda agonia, ou as rochas sobre as quais era arrastada de costas e que rasgavam-lhe a carne, dolorosamente penetrando em suas costas.
   De repente, uma luz cintilou no céu, afastando as brumas e, descendo vertiginosamente, chocou-se contra o solo próximo aos dois. A luminosidade era tão intensa, que Cláudia pôde vislumbrar em enorme vale onde não estavam a sós, mas cercados por centenas de milhares de seres, que afastavam-se em debandada, procurando escapar da luz. Também seu algoz desaparecera, provavelmente em fuga, juntamente com aquela turba na escuridão.
   Em meio à luz foi surgindo a silhueta de alguém que vinha em sua direção. Cláudia ainda estava confusa e vomitava uma gosma negra, enquanto lutava para conseguir concatenar as ideias.
   Logo, o ser ganhou a forma de uma menina que parecia ter no máximo quinze anos. Ela aproximou-se e abaixou-se ao lado de Cláudia, segurando-a com cuidado, enquanto tirava uma pequena garrafa de uma bolsa que trazia a tiracolo. Abriu uma pequena válvula e colocou a boca da garrafa nos lábios de Cláudia, que pensou que vomitaria novamente. No entanto, assim que o conteúdo da garrafa deslizou até sua garganta, um agradável frescor percorreu todo seu corpo e todas as dores desapareceram como que por encanto.

- Beba. Beba bastante. - Disse a menina.
- Quem é você? Que lugar é esse?
- Eu sou Anne. E você está no lugar nenhum para onde vem os criminosos da vida.
- Criminosos?! Mas eu não cometi nenhum crime!
- Você cometeu o maior dos crimes, Cláudia; rejeitou aquilo que muitos às vezes esperam milênios para conseguir.
- O que? Eu nunca fiz nada para ninguém?
- Sim, fez. Fez para si mesma.
- Mas eu apenas acabei com minha vida medíocre, mais nada.
- Este foi seu crime. Agora, beba mais um pouco e recobre as forças. Precisamos sair daqui. As forças das trevas estão se reagrupando e eu não estou muito disposta à dar um pau em ninguém agora.

   Cláudia bebeu mais um pouco do conteúdo e devolveu a garrafa para Anne, que olhava seriamente ao redor.
   Anne guardou a garrafa e ajudou Cláudia a se levantar.

- Está conseguindo pensar melhor?
- Sim.
- Então relaxe, que vou tirar a gente daqui.

   Dito isso, Anne abraçou Cláudia. Rapidamente a intensidade luminosa ao redor das duas aumentou, explodindo no ar. No lugar ficou apenas a escuridão e a sinistra névoa, que voltou a se compactar, à medida que alguns semblantes entre horrendos e de profundo sofrimento se acercavam novamente do local.

Continua...